Thomas Sayers Ellis (1963 - ).




Thomas Sayers Ellis (1963 - ) é de Washington, D.C. Poeta e professor assistente de Escrita Criativa no Sarah Lawrence College, publicou, em 1996, The Good Junk, a pequena coletânea The genuine Negro hero em 2001, e publicou The Maverick Room em 2005 e Skin Inc.: Identity Repair Poems em 2010. Estes dois últimos pela Graywolf Press, uma das principais editoras de publicação de literatura contemporânea lá fora.

Que a poesia de Ellis é subjetiva, ouso dizer confessional, não creio que seja muito difícil para o leitor perceber. Mas não se trata do confessionalismo ou do subjetivismo simples, à maneira do que hoje estamos acostumados, vale dizer, encontrar um arco-íris em nossas rotinas. Parece se encaminhar justamente pelo lado oposto, uma vez que, na condição de negro, o poeta não pode se furtar de denunciar a opressão. E de tal modo que, se quisesse chegar a uma síntese do que seria a poesia de Ellis, poderia arriscar a dizer que se trata de poesia do subjetivismo sitiado.

Daí o tom de ataque ou de, no mínimo, impaciência. Não se trata simplesmente de poesia panfletária ou "contaminada" por veios político-sociais. Apenas que, para Ellis, não se pode escrever poesia seguindo os padrões hegemônicos com que a atividade poética historicamente se consolidou. São padrões excludentes, tidos como reconfortantes ou universais para determinada casta de artistas.

Assim, dentro do que se pode chamar como Literatura Negra, a obra de Ellis é posta num momento posterior ao de Ralph Ellison e sua metáfora pungente do Homem Invisível. Ou talvez, infelizmente, ainda seja posta dentro dela, se partirmos do princípio de que a poesia de Ellis ainda se inscreve no círculo de giz caucasiano deste invisibilidade metafórica. Naturalmente que podemos ir um pouco mais atrás, chegando até à Renascença do Harlem e nomes como Langston Hughes (que, além de ser poeta de sonhos e de fraternidade, de uma mensagem de paz parece que tão difícil de ser assimilada, é também dono de textos "participantes" como Theme for English B), ou então um nome como Weldon Johnson (e a metáfora banhada em ironia do Ex-Negro), bem como nas raízes dos relatos de ex-escravos, permeados de violência e de superações enclausuradas (e Solomon Northrup é o nome da vez, naturalmente).

Uma das melhores críticas sobre a poesia de Ellis é One of the various: on Thomas Sayers Ellis, de Jordan Davis para o The Nation, 16/12/2010. Em relação às traduções: no primeiro poema tive que mudar algumas referências do original para manter o polissíndeto; no segundo, busquei manter a fortíssima assonância em O do original; e em relação ao último, somente o cuidado com o título, sem dúvidas um dos melhores em toda a poesia contemporânea, que aborda a questão da pele (logo, a questão racial) como algo industrialmente manufaturado e cerceado, o que meu "Ltda", creio, contemplou.


TODAS AS SUAS ESTROFES SÃO IGUAIS.

Todas as suas cercas
Todas as suas prisões
Todas as suas práticas
Todas as suas agendas
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas metáforas
Todas as suas livrarias
Todas as suas hortas
Todas as suas mortes
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas cartas de rejeição
Todas as suas cartas ao editor
Todas as suas artes e cartas
Todas as suas cartas de recomendação
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas lingeries
Todas as suas publicações literárias
Todas as suas propagandas de carro
Todas as suas sinopses subornadas
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas obras
Todas as suas obras computadorizadas
Todas as suas obras estrangeiras
Todas as suas obras nacionais
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas colônias
Todas as suas ligas mundiais
Todas as suas mentes atrozes
Todas as suas atrocidades
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas garantias estatais
Todas as suas titularidades
Todas as suas obras coloniais
Todas as suas faculdades essenciais
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas Antologias
Todas as suas Oxford Nortons
Todas as suas Sociedades Acadêmicas
Todas as suas Oprah Vendlers
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas barbáries aureoladas
Todas as suas uniões hétero
Todas as suas causas vácuo-aureoladas
Todas as suas rimas surdas
Todas as suas estrofes são iguais
Todas as suas temáticas
Todas as suas Premiações Literárias
Todas as suas listas Klu Klux
Todas as suas Supremas Cortes
Exceto uma, exceto uma
Excepcional. Excepcional ou não,
Uma basta.
Todas as suas estrofes são iguais.
E mesmo esta, após publicada,
Será igual. Desaprova
Meus estéreo tipos.

§

OU.

Ou Oreo, ou
pior. Ou ordinário.
Ou sua opção
de ordem

      Ou
      Cor

ou qualquer cor
que não a Colorida
ou Só Colorida.
Ou "De Cor"

      ou
      Outra

ou hipótese ou oratória
ou território oral.
Oregon ou Geórgia
ou Zona Flórida

      ou
      Oportunidade

ou nascer pobre
ou Corporação. Ou Mouro.
Ou Orfeu Negro
ou Senghor

      ou
      Diáspora

ou horrorosa
jornada alcoólica.
Ou performance. Ou alegoria da couraça
ou conforto ignorante

      ou
      Opressão

ou reforma ou dolo.
Ou Corrupção Eleitoral
ou portos importantes
ou Yoruba ou temor

      ou
      Arredor

ou pavor de . . .
ou terror ou borda.
Ou minorias
organizadas.

§

PELE, LTDA.

Braço negro, indefeso, dobrado acima
do cotovelo
pra fugir do golpe.
Queria horrores,
                       então, dar de volta
mas sem ousar, nunca, acertar o nervo, espinha.
Ar paginado, destacável,
feita a margem.
Primeiro te conjugam,
depois você morre.
Eles, pondo fora a solidão, sol tapado.
Você, sem camisa, servindo drinques,
coisa marrom que descoloram, comem.
Se pontuação
fosse murro,
quebra de linha pra mim seria soco.
Desculpe Eu sei
“Branquelo” dói,
mas nada torce o nariz como “Preto”,
            com aceitação, revolta.
Não mais caixinhas,
empilhadas, como a dos poemas.
Um senso profundo do verso liberta a alma.
Não estou só “nisto”
             que estou. Eu sou “isto”.
Nascido na aurora pra reforma da forma econômica.
Para ocupar
a ocupação
das margens.


ALL THEIR STANZAS LOOK ALIKE

All their fences
     All their prisons
All their exercises
     All their agendas
All their stanzas look alike
     All their metaphors
All their bookstores
     All their plantations
All their assassinations
     All their stanzas look alike
All their rejection letters
     All their letters to the editor
All their arts and letters
     All their letters of recommendation
All their stanzas look alike
     All their sexy coverage
All their literary journals
     All their car commercials
All their bribe-spiked blurbs
     All their stanzas look alike
All their favorite writers
     All their writing programs
All their visiting writers
     All their writers-in-residence
All their stanzas look alike
     All their third worlds
All their world series
     All their serial killers
All their killing fields
     All their stanzas look alike
All their state grants
     All their tenure tracks
All their artist colonies
     All their core faculties
All their stanzas look alike
     All their Selected Collecteds
All their Oxford Nortons
     All their Academy Societies
All their Oprah Vendlers
     All their stanzas look alike
All their haloed holocausts
     All their coy hetero couplets
All their hollow haloed causes
      All their tone-deaf tercets
All their stanzas look alike
      All their tables of contents
All their Poet Laureates
      All their Ku Klux classics
All their Supreme Court justices
      Except one, except one
Exceptional one. Exceptional or not,
      One is not enough.
All their stanzas look alike.
      Even this, after publication,
Might look alike. Disproves
      My stereo types.

§

OR

Or Oreo, or
worse. Or ordinary.
Or your choice   
of category

            or   
            Color

or any color   
other than Colored
or Colored Only.
Or “Of Color”
         
            or   
            Other

or theory or discourse
or oral territory.
Oregon or Georgia
or Florida Zora

            or
            Opportunity

or born poor   
or Corporate. Or Moor.
Or a Noir Orpheus
or Senghor

            or   
            Diaspora

or a horrendous   
and tore-up journey.
Or performance. Or allegory’s armor
of ignorant comfort

            or
            Worship

or reform or a sore chorus.
Or Electoral Corruption
or important ports
of Yoruba or worry

            or
            Neighbor

or fear of . . .
of terror or border.
Or all organized
minorities.

§

SKIN, INC

A black arm, unarmed, bent upward
at the elbow
so the blow slides off.
Wanted so bad,
         back then, to hit back
but didn’t dare, ever, strike their tense, twisted spin.
Their ruled, loose-leaf,
paged air.
First they conjugate you,
then you die.
Them, laying out by their lonesome, blocking sun.
         You, shirtless, serving drinks,
one of the brown things they bleach, eat.
If punctuation
were a punch,
I’d publish line breaks of fists.
Sorry    I know
“Cracker” and “Honky” hurt,
but nothing fruits a noose like the N-word,
         white acceptance or revolt.
No more little boxes,
stacked, like the ones in poems.
A deeper sense of verse frees skin.
I am not merely in
         this thing I am in. I am it.
Born in the morning to reform form’s broken economy.
To sit-in
in the sit-in
in the margins.

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