Carl Sandburg (1878 - 1967).



Negros horizontes, venham cá.
Negros horizontes, venham me beijar.
E é tudo; tantas mentiras; matar é tão barato;
bebês, tão baratos; sangue, pessoas, tão baratas; e
terra à vista, terra querida; um cisco de terra
custa; uma chupada na teta da Mamãe-Porca,
pura e forte, isso custa; cercas, papeis,
xerifes; cercas, leis, armas; e tantas estrelas
e tão poucas horas pra sonhar; uma canção tão
grande e pés tão pequenos pra parar e
cantar; dá uma olhada; a guerra vem vindo;
rios vermelhos pra atravessar.
Negros horizontes, venham cá.
Negros horizontes, venham me beijar.

§

MATADORES

     Canto pra você
Doce como alguém, com um bebê morto, fala;
Duro como alguém com algemas,
Pra que não se mexa:

     Sob o sol,
Dezesseis milhões,
Escolhidos pelos dentes brancos,
Olhar agudo, coxa grossa,
E um sangue jovem e quente nas veias.

     E um suco vermelho corre a grama verde;
E um suco vermelho embebe o solo negro.
E dezesseis milhões matando... e matando
     e matando.

     Não os esqueço nunca, seja dia ou noite:
Batem na minha cabeça a memória deles;
Socam meu coração e eu grito pra eles,
Pra casa e mulher deles, sonhos e jogos.

     Acordo à noite e sinto o cheiro das trincheiras,
Ouço o pequeno agito dos que dormem alinhados --
Dezesseis milhões que dormem, sentinelas no escuro:
Alguns deles dormindo pra sempre,

Alguns resvalando em dormir de amanhã pra sempre,
A postos nas batidas do coração do mundo, que os arrasta,
Comendo e bebendo, trabalhando... um longo trabalho de
     matar.
Dezesseis milhões.

§

BRIGA

Gotas vermelhas no meu queixo quando eu comia.
Não o sangue todo, longe disso, escorre da minha boca.

Coágulos vermelhos bagunçam meu cabelo
E o tigre, o búfalo, sabem como.

Fui um assassino.
     Sim, sou um assassino.

Vim do assassinato.
     Tenho mais.
Afastei a alegria vermelha de mim matando.
Farturas vermelhas e fomes vermelhas correm
     nas manchas e sucos e de meu esqueleto:
O bebê chora querendo peito e eu, guerra.

§

E OBEDECEM!

Arrasem cidades.
Derrubem muros.
Quebrem fábricas e catedrais, armazéns
     e lares
Em pilhas de pedra e tocos e madeira
     carbonizada:
     Vocês são soldados e nós os comandamos.

Ergam cidades.
Ergam muros.
Consertem de novo as fábricas e catedrais,
     armazéns e lares
Em construções pra rotina e labor:
     Vocês todos são trabalhadores e cidadãos: Nós
     os comandamos.

§

CANTEI

Cantei pra ti e pra lua
Mas só a lua lembra.
     Cantei
Ó livre, leve e solta
     Livre ritmo solto,
Mesmo a lua os lembra,
     Tão boa pra mim.


Black horizons, come up.
Black horizons, kiss me.
That is all; so many lies; killing so cheap; 
babies so cheap; blood, people so cheap; and 
land high, land dear; a speck of the earth 
costs; a suck at the tit of Mother Dirt so 
clean and strong, it costs; fences, papers,
sheriffs; fences, laws, guns; and so many 
stars and so few hours to dream; such a big 
song and so little a footing to stand and 
sing; take a look; wars to come; red rivers to cross.
Black horizons, come up. 
Black horizons, kiss me.


§

KILLERS

     I AM singing to you
Soft as a man with a dead child speaks;
Hard as a man in handcuffs,
Held where he cannot move:

     Under the sun
Are sixteen million men,
Chosen for shining teeth,
Sharp eyes, hard legs,
And a running of young warm blood in their wrists.

     And a red juice runs on the green grass;
And a red juice soaks the dark soil.
And the sixteen million are killing. . . and killing
          and killing.

     I never forget them day or night:
They beat on my head for memory of them;
They pound on my heart and I cry back to them,
To their homes and women, dreams and games.

     I wake in the night and smell the trenches,
And hear the low stir of sleepers in lines--
Sixteen million sleepers and pickets in the dark:
Some of them long sleepers for always,

Some of them tumbling to sleep to-morrow for always,
Fixed in the drag of the world's heartbreak,
Eating and drinking, toiling. . . on a long job of
          killing.
Sixteen million men.

§

FIGHT

RED drips from my chin where I have been eating.
Not all the blood, nowhere near all, is wiped off my mouth.

Clots of red mess my hair
And the tiger, the buffalo, know how.

I was a killer.
          Yes, I am a killer.

I come from killing.
          I go to more.
I drive red joy ahead of me from killing.
Red gluts and red hungers run in the smears and juices
     of my inside bones:
The child cries for a suck mother and I cry for war.

§

AND THEY OBEY

SMASH down the cities.
Knock the walls to pieces.
Break the factories and cathedrals, warehouses
     and homes
Into loose piles of stone and lumber and black
     burnt wood:
     You are the soldiers and we command you.

Build up the cities.
Set up the walls again.
Put together once more the factories and cathedrals,
     warehouses and homes
Into buildings for life and labor:
     You are workmen and citizens all: We
     command you.

§

I SANG

I SANG to you and the moon
But only the moon remembers.
     I sang
O reckless free-hearted
          free-throated rythms,
Even the moon remembers them
     And is kind to me.

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