Pequena coletânea de landays.




O landay é o que a introdução, no Poetry Foundation (aqui), explica:

(...) um pedaço oral e frequentemente anônimo de uma canção criado por e para pessoas iletradas, no geral: mais que vinte milhões de mulheres Pachtun que atravessam as fronteiras entre o Afeganistão e o Paquistão. Tradicionalmente, landays são cantados alto, geralmente sob o batuque de um tambor, que, ao lado de outras formas musicais, foram banidas pelo Talibã de 1996 a 2001, e em alguns lugares, ainda é.
Um landay possui poucas propriedades formais. Cada qual tem vinte e duas sílabas: nove na primeira, treze na segunda. O poema fecha com o som "ma" ou "na". Alguns rimam, mas a maioria não. Em Pashto, eles são cantados internamente palavra por palavra num tipo de acalanto de duas sílabas que nega a aspereza de seu conteúdo, o que é distintivo não só por sua beleza, obscenidade, mas também por sua habilidade penetrante de articular uma verdade comum sobre a guerra, separação, terra natal, dor ou paixão. Dentro destes cinco tropos principais, os dísticos expressam uma fúria coletiva, um lamento, uma piada terrena, um amor ao lar, uma dor pela separação, uma chamada às armas, todos os quais frustram qualquer imagem simplista das mulheres de Pachtun como nada mais que fantasmas mudos atrás de uma burca azul.

Abaixo vocês poderão ler traduções minhas e de mais dois colegas, aprendizes de tradutores como eu: Kleiton Muniz e Pedro Mohallem (comentário sobre suas obras aqui). Todas elas baseadas nas traduções fornecidas no Poetry Foundation. Nosso norte foi o de tentar manter as características formais do landay acima apontadas, naturalmente que com todo um remelexo próprio das traduções que estejam de olho num contato mais amplo entre culturas: daí as rimas toantes e as disposições métricas fora do 9-13. Faço notar também as traduções de Ricardo Domeneck para a Modo de Usar (aqui), o documentário sobre o landay (aqui), um artigo no The Daily Beast (aqui), outro no Slate (aqui) e uma entrevista com a tradutora (aqui).

Não preciso nem dizer que tratar o landay como flor exótica é ridículo ― pra não dizer desonesto e perigoso, à guisa de como se trata o haicai no Brasil (e que nos leva a corruptelas de pseudo-justiça como boa parte dos haicais de um Millôr). O que refleti acerca da redução matemática das formas fixas (aqui) obviamente pode ser aplicado no contexto que discuto, uma vez que, se ainda hoje o Ocidente trata o rub'ai como simplesmente AABA, não seria nem um pouco espantoso que tratasse o landay como forma fixa apenas, como simulacro para que poetastros destilem seu veneno e exijam um nome nos anais da nódoa. Contudo, é óbvio que o que está em jogo na discussão acerca do landay é mais amplo, requerendo do leitor uma abordagem que no mínimo contextualize e enxergue o fenômeno poético sem se limitar às amarras de critérios duvidosamente qualitativos. Não se trata de coroarmos a produção do landay somente graças a seu contexto, o que seria a mesma coisa de dizermos às autoras: "parabéns por serem massacradas"; trata-se, pelo contrário, de chegarmos às raízes mais profundas da poesia (voltarmos, noutros termos, à pergunta: "por quê escrever?") bem como às múltiplas formas daquilo que Alfredo Bosi muito bem caracterizou como poesia-resistência.

É o que nos leva a repensar a poesia popular e a poesia feminina, por exemplo, e afastar, ainda que nunca de maneira definitiva, um pouco o fantasma da pretensão-de-cânone que via de regra perpassa tais debates, como se a produção artística só pudesse ser avaliada quando jungida ao eterno. O resultado não poderia ser mais catastrófico: o de vastas áreas de atividade artística que são relegadas a segundo plano em prol do enceguecedor da genialidade. Mas, oras, já advertia Northrop Frye, a atividade crítica não é um gangorrismo literário nem o erigimento de critérios de exclusão. Observar o fenômeno artístico de maneira lúcida e realista não nos encaminha ao círculo de giz caucasiano ― nos encaminha a incluirmos cada vez mais, por mais que isso possa causar arrepios no cômodo exclusivismo de alguns. Não podemos pensar o landay sem pensarmos a cultura brutal e repressora que o envolve. Certo: também não podemos querer colocar o landay nos altos píncaros da realização literária simplesmente por advir de uma cultura brutal e opressora, já disse; mas a questão simplesmente não se encaminha para tais lados. Pensar que ela se encaminha é uma maneira de cortar o raciocínio antes que ele possa se completar. É pensarmos, por exemplo, o que faz com que a poesia feminina, sem a menor sombra de dúvidas mais ancestral do que pensamos (bastando que se cite o fato de que o primeiro autor literário que conhecemos não é Homero, mas uma princesa acádia chamada En Hedu'anna de 2.200 a.C.), tenha sido tão reprimida ao longo dos séculos, ao ponto de o simples pegar a pena e se decidir escritora, independente da qualidade que daí advenha, tenha sido uma atividade tida como impossível (o que Virginia Woolf retrata muito bem em seu ensaio sobre a irmã de Shakespeare; ou as desilusões sofridas pela heroína Aurora Leigh, no poema homônimo de Elizabeth Barrett Browning, especialmente nas falas de Romney no segundo Livro).

Pondo de forma mais clara, é chegarmos à constatação de que sim, temos poucas escritoras que realmente se destacaram. Mas por qual motivo? O motivo ― o motivo, alguns passos além do puramente pessoal ― o motivo nem sequer passa sob os auspícios do leitor, e o remédio, repito creio que pela terceira vez, não é criar cotas para o cânone. O remédio é pensar a situação literária de maneira mais ampla e parar pelo menos um pouco com o cinismo da genialidade ectoplasmática. Aí sim nós poderemos retomar o que a literatura e a humanidade têm a nos oferecer de melhor: o encanto de que resistem, de que "(...) fazem o que ninguém fez", para citar um verso de Salete Maria da Silva, cordelista num contexto marcadamente masculino e machista (para uma análise da poesia da autora, recomendo Mulheres fazem... Cordéis, de Francisca Pereira dos Santos, aqui).


TRADUÇÕES MINHAS.

Eu te chamo. Você é pedra.
Um dia você vai sentir a minha perda.

§

Irmãs sentando juntas: louvor aos irmãos.
O contrário: suas irmãs em liquidação.

§

Tatuarei o sangue de meu bem
pra escarnecer das rosas no jardim.

§

Ei! Não vá assim com tanta força:
Meu peito arde pois ontem à noite eu virei moça.

§

Na América não secam os mananciais.
Lá se aprende a encher jarras nas redes sociais.

§

Deus te faça flor à beira do rio:
enquanto eu pego água, eu te aprecio.

§

Fure o Facebook e me plante lá.
Diga à sua mãe, "O escorpião veio me picar."

§

Porque meu amor é americano,
surgem bolhas no meu coração.

§

Meu Deus, quê que você fez comigo?
Elas florescem. Não florescer: é meu castigo?

§

Deus: ponha fim ao Talibã e a suas disputas.
Eles fizeram afegãs viúvas e putas.

§

Meu Nabi foi morto por um drone.
Pois que a ira de Deus, América, te detone.


TRADUÇÕES DE KLEITON MUNIZ.

Eu sonhando sou o presidente
quando acordo sou, do mundo, mais um indigente.

§

Deve haver dois irmãos na batalha:
um pra ser morto, outro pra enrolar a mortalha.

§

Meu Deus, o que fizeste por mim?
Outros florescem. Eu sou um botão sem jardim.


TRADUÇÕES DE PEDRO MOHALLEM.

Pelo amor de Deus, brilhante lua,
Não cegue os dois amantes com uma luz tão nua.

§

Vejo-o como um americano, amado:
Eu lhe peço o perdão, mas você é o culpado.

§

O bode velho beijou-me a face
Como se a banha da fuça de um cão arrancasse. 

§

Meu corpo é fresco como a folha de henna:
Verde por fora; carne crua por dentro.

§

Cansei de adorar flores exóticas.
Quero as hortas de Sangin; eram pobres, mas nossas.

§

Destrua Deus a Casa Branca e o homem
Que enviou os mísseis que minha pátria consomem.

§

Separação, você incendeia
O coração e o lar de cada peito amante.

Comentários

  1. Gosto de como cada landay parece uma confissão, uma espécie de grito sufocado.
    Obrigado pelo convite, Sr Matheus! E parabéns por mais um ótimo texto!

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