Rudyard Kipling (1865 - 1936).



(Rudyard KiplingÍndia. Créditos.)





Fora da baboseira do Se isso, Se aquilo (aqui, em exemplar tradução de Guilherme de Almeida, e aqui, na também exemplar paródia de José Paulo Paes), Kipling foi um bom poeta. Retratou com uma ironia mordaz e feroz a situação por si só mordaz e feroz da guerra. Seus Epitaphs of the War são dos melhores no gênero, continuando uma tradição literária muito mais antiga do que se pensa, saindo da Antologia Palatina na Grécia e percorrendo até Dudley Randall em tempos recentes.

Sobre o poema My Boy Jack, ler a notícia da morte do filho do autor em 27 de setembro de 1915: aqui.

Na foto, centenas de mortos. Retirada da greatwar.nl.


MEU MENINO JACK.

“Notícias do meu Jack, alguém...?”
Não nesta maré.
“E notícias da volta, alguém tem?”
Não nesse vento, nem nessa maré.

“E alguma mensagem sua?”
Não nesta maré.
O que mergulha, é
Comum que o mar destrua.
Não nesse vento, nem nessa maré.

“Oh, meu bem, onde achar consolo?”
Não nesta maré,
Ou em qualquer maré,
Exceto se ele honrar seu povo —
Não nesse vento, nem nessa maré.

Erga a cabeça como os outros,
Esta maré,
Em qualquer maré;
Esse é teu filho, e não outro,
Que deste a esse vento, essa maré!


EPITÁFIOS DE GUERRA.

            UM EMPREGADO.
Juntos estávamos no início da guerra.
Era meu empregado — o melhor dessa terra.

            UM FILHO.
Meu filho morreu quando ria de uma piada. Queria saber
O quê, pois quem sabe ajudaria, agora, que as piadas vão morrer.

            UM FILHO ÚNICO.
Fuzilei todo mundo. Menos mamãe. Ela
Morreu de dor por mim, ao rezar na capela.

            A MARAVILHA.
Corpo e alma de todo agora eu rendo
Aos oficiais — dando e recebendo . . . . .
Se um homem mortal pode me mudar
Do que fui — o quê Deus não pode mudar?

            O COVARDE.
Não posso olhar pra morte. E eles sabem.
Por isso me vedam. Por isso o sabre.

            BOMBARDEADO EM LONDRES.
Na terra e mar lutei para escapar
Do alistamento. Mas era no ar!

            BATALHÕES SEM MUNIÇÃO.
Se nos chorarem na oficina, digam
Que o navio não veio. Era domingo.

            SENSO COMUM.
Se perguntam qual foi a nossa morte,
Digam: nossos pais. Mentir é o seu forte.

            UM ESTADISTA MORTO.
Não pude cavar: não ousei roubar:
Por isso menti... Menti pra agradar.
E agora, que já sabem ser mentira,
Devo encarar a quem tirei a vida.
Que fábula dizer em meio aos moços,
Desfraldados e assim tão furiosos?

            O INICIANTE.
Eu nem coloquei os pés
E já morri.
(A meninada ouve a estória
E ri.)

            CHOQUE.
Meu nome, fala e a mim mesmo esqueci.
Minha família. Também os esqueci.
Morri. Minha mãe, depois. E a seu lado
E em seu peito eu me lembrei — sim, é claro.

            CORPO FEMININO DESCONHECIDO.
Decapitada, esquartejada,
Com horror fui transportada.
Peço a todos que não se esqueçam:
Eu já fui mãe... Não se esqueçam...

            ESTUPRADA E VINGADA.
Um me usou, me matou: outro espiou
Minha violação — um em um milhão.
E que os maridos tenham aprendido:
Uma mulher livre sobrevive.

Comentários