W. B. Yeats e Maud Gonne.


(Créditos. Recomendo a leitura.)


Maud Gonne MacBridge (1866-1953) foi atriz e feminista. Lutou contra o domínio britânico, batalhando pelo nacionalismo irlandês. Fundou, em 1900 mais ou menos, a Daughter's of Ireland, sociedade feminina revolucionária. Yeats foi apaixonado por ela durante um tempo (talvez tenha sido pela vida toda; mas, durante duas décadas ao menos, o foi intensamente). A pediu em casamento várias e várias vezes. E ela certa feita escreveu, respondendo às queixas do poeta de que ele jamais seria feliz sem ela:

Oh sim, você é pois você fez poesia das mais lindas do que você chama de infelicidade e você é feliz nisso. O casamento deveria ser um assunto maçante. O mundo deveria me agradecer por não casar com você.

Lembra-me, de imediato, Lilia Brik negando os pedidos de casamento de Maiakóvski pois não queria entrar para a história como "a mulher de Beethoven". A sombra de um grande homem. Não entro na questão de se entraram ou não. A resposta para tal pergunta simplesmente não importa (e tenho a convicção de que quem a discute com "seriedade" só pode ser um idiota). Basta assinalarmos aqui o fato de que No second Troy é seguramente um dos mais belos poemas de amor de toda a tradição Ocidental especialmente graças ao fato de não cair no patético do male tears. Quando disse, por exemplo, que Yeats pediu Maud várias e várias vezes em casamento, entenda-se: quatro vezes até a escrita do poema que vocês leem. Assim, é muito bonito ver Yeats celebrando Maud pelo que ela foi e não pelo fato dela ter sido uma espécie de ingrata por não ter se submetido à beleza de seus belos poemas. Yeats celebrou Maud por quem ela foi: intensa. "(...) não só porque ela era bela, mas porque esta beleza sugeria alegria e liberdade."

Quem quiser ler um pouco mais sobre a história de Yeats e Maud, poderá conferir Yeats and Maud Gonne: (auto)biographical and artistic intersection (aqui). Compilo, logo abaixo, todas as traduções que consegui achar deste tão belo poema de Yeats. O leitor poderá notar muitos projetos tradutórios distintos. Para agradar a gregos e troianos.


NO SECOND TROY.

WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?


§

NENHUMA TRÓIA A MAIS.
trad. Augusto de Campos.
in: Folha de São Paulo, fevereiro de 1984, aqui;
Poesia da Recusa, editora Perspectiva, 2006.
Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Tróia a mais teria que incendiar?

§

NENHUMA NOVA TRÓIA.
trad. Nelson Ascher.
in: Folha de São Paulo, fevereiro de 1984, aqui.
Devo culpá-la por encher meus dias
de miséria, ou por ter levado à crua
violência a ralé toda e vadia,
ou lançado as ruelas contra as ruas,
se achassem mais coragem que desejo?
Como acalmar-lhe o afã, cuja nobreza
tornava-o simples como a chama acesa,
sendo formosa como um arco teso,
altiva e solitária e tão severa -
algo incomum num tempo destes? Logo,
que podia fazer, sendo quem era?
Havia nova Tróia em que pôr fogo?

§

SEGUNDA TRÓIA.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
inaqui;
Poemas de W. B. Yeats, editora Art, 1987.
Por que hei de a censurar por ter-me enchido os dias
De miséria, ou por ter em horas não distantes
Ensinado a violência a homens ignorantes
Ou lançado as pequenas ruas contra as grandes,

Tivessem a bravura igual à aspiração?
Como traria ela paz com sua mente
Que a nobreza fez simples, simples como o fogo,
Com uma beleza de arco tenso, uma versão

Que não é natural em tempo como o nosso,
Por isolada e alta e austera e singular?
Que poderia ela ter feito, sendo o que é?
Havia nova Tróia para ela queimar?

§

SEM SEGUNDA TRÓIA.
trad. Paulo Vizioli.
inaqui;
Poemas, editora Companhia das Letras, 1992.
Por que culpá-la por encher minha existência
De miséria e, mais tarde, enquanto a ação expande,
Aos ignorantes ensinar a violência,
Ou atirar rua pequena contra grande,
Mesmo sem a coragem que o anelar reclama?
Como seria tranquila, com aquela mente
Que a nobreza moldou singela como a flama?
Ou com o encanto do arco retesado, um ente
Não natural em nosso mundo, por seu jeito
Muito severo e sempre altivo e singular?
Ora, sendo como é, que mais teria feito?
Havia nova Tróia para ela queimar?

§

SEM SEGUNDA TRÓIA.
trad. Renato Suttana.
in: site pessoal do tradutor, aqui;
Por que inculpá-la dos inúmeros tormentos
com que me carregou, ou por ter ensinado
aos ignorantes meios rudes e violentos,
ou por ter contra o grande o pequeno incitado,
houvesse neste audácia igual ao seu desejo?
O que a colocaria em paz, com uma mente
que a nobreza tornou simples como um lampejo,
bela como a tensão de um arco – o que atualmente
não é tão natural, nem fácil de encontrar,
sendo alta, e solitária, e muito altiva enfim?
Que mais teria ela empreendido, sendo assim?
Mais uma Troia, então, para ela incendiar?

§

A SEGUNDA TRÓIA.
trad. Éric Ponty.
in: site pessoal do tradutor, aqui.
Por que razão, me culpar se ela preenche meus dias
com sofrimento, ou que ela seria tardia
por ter educado aos inábeis dos homens os mais impetuosos,
ou esparzidos há pouco pelas ruas sobre a grande,
eles traziam, mas coragem idêntica à vontade?
O que poderia ter feito da sua tranquila reflexão
se nobreza tornou-se simples conflagração,
com o encanto, dum desígnio, num fulano constringente
isso não é adequado, numa época como esta
sendo superiora e solitária e mais austera?
Por isso, o que ela poderia ter feito ao ser o que ela é?
Existiu outra Troia para ela conflagrar?

§

SEM SEGUNDA TRÓIA.
trad. Joaquim Manuel Magalhães e Maria Leonor Telles.
inaqui.
Não a censuro pelos sofrimentos
De que me encheu a vida, ou por tentar
Levar a turba a gestos tão violentos,
Ou a ruelas contra as ruas atirar
Se o desejo lhes desse o atrevimento.
Não a deixa ser plácida a nobreza
Que lhe apurou, qual fogo, o pensamento,
E o arco tenso que é a tua beleza,
Fora do natural da nossa era,
Por sublime e solitária e austera.
Sendo o que é, que podia ela fazer,
Sem outra Tróia para pôr a arder?

§

UMA ÚNICA TRÓIA.
trad. Rafael Rocha Daud.
inaqui.
Como irei culpá-la pela tristeza
Com que encheu meus dias, ou que ela ao fim
Tenha ensinado a dureza aos incultos,
Ou lançado contra o grande o pequeno,
Em quem só a coragem iguala a vontade?
Que causa podia acalmar esse espírito
Que a nobreza fez simples como fogo,
Bela como um arco esticado — coisa
pouco natural numa idade assim –
e solitária como num altar?
Que lhe restava, se ainda era ela,
Sem segunda Tróia para queimar?

§

SEM NOVA TROIA.
trad. Guilherme Gontijo Flores.
in: caixa de comentários, logo abaixo.
Por que culpá-la por sua presença
me encher de mágoa, ou por votar a vida
para ensinar aos brutos violência,
ou sorver servidão em avenida,
quando tinham desejos e ousadia?
O que traria paz à mente tersa
que a honra feito um simples fogo ardia,
e bela feito um arco teso, inversa
ao que num tempo tal podemos ver,
excelsa e solitária e tão severa?
Por quê e o que faria, se assim era?
Havia uma outra Troia por arder?

§

NENHUMA OUTRA TROIA.
trad. Júlia Rodrigues.

in: Zúnai, aqui.
Por que culpá-la por ter enchido de miséria
Meus dias, ou por ter há horas corridas
Ensinado a ignorantes violenta matéria,
Ou atirado ruas estreitas contra avenidas,
Tiveram eles coragem tal como o desejo?
O que a teria feito pacífica com um espírito
De nobreza simples como um lampejo,
Com beleza como a de um arco rígido,
Espécie anormal em uma época assim,
Sendo austera, solitária e elevada?
Por que, sendo o que é, o que teria feito por fim?
Haveria para ela outra Troia a ser queimada?



(Créditos. Recomendo a leitura.)


Também dedicado a Maud Gonne e próximo a No Second Troy é The folly of being comforted, com a diferença, claro, de que The folly of being comforted ressalta aquilo que muitos intérpretes de Yeats notam: a fenda existente entre a teoria e a prática do amor em sua poesia, raras vezes superada (e No second Troy é um exemplo). Foi publicado no livro In the seven woods, de 1904 (No second Troy é do Responsibilities, dez anos depois), e possui duas versões: uma de 1902 e outra de 1921 (o leitor pode compará-las aqui). Todas as traduções abaixo são baseadas na de 1921. O verso "The fire that stirs about her, when she stirs" foi classificado por Ezra Pound como exemplo perfeito de verso perfeito (tanto no ABC da Literatura quanto no A retrospect/A few dont's e no The later Yeats). Uma análise simples e precisa é a de Cinthia de Oliveira Andrade, aqui. Uma análise mais formal pode ser vista aqui. Logo abaixo, forneço minha tradução para o poema. Mantive o decassílabo para o "regular iambic throb" (Mark Alexander, aqui) mas tive que adotar um esquema de rimas diferente do original, espécie de soneto todo em rimas parelhas. Dos cortes efetuados, destaco "all the wild Summer" convertido simplesmente em "Verão", e a referência "Heart! O heart!" que, tornando-se apenas "Eu", perde muito do tom de falsa impessoalidade do original. E como alteração, cito o "make (...) over again" do verso 8.

§

THE FOLLY OF BEING COMFORTED.

One that is ever kind said yesterday:
‘Your well-beloved’s hair has threads of grey,
And little shadows come about her eyes;
Time can but make it easier to be wise
Though now it seems impossible, and so
All that you need is patience.’
                                           Heart cries, ‘No,
I have not a crumb of comfort, not a grain.
Time can but make her beauty over again:
Because of that great nobleness of hers
The fire that stirs about her, when she stirs,
Burns but more clearly. O she had not these ways
When all the wild Summer was in her gaze.’

Heart! O heart! if she’d but turn her head,
You’d know the folly of being comforted.


§

A TOLICE DE SER CONSOLADO.
trad. Clarice Goulart e Leo Gonçalves.
in: Musa Rara, outubro de 2013, aqui.
Alguém ontem disse-me com seu doce ar:
“A fronte de tua amada começa a pratear
E ao redor dos olhos surge uma sombra leve;
O tempo te trará sabedoria em breve.
Por enquanto parece impossível, portanto
Sejas paciente.”
                       O peito grita, no entanto:
“Não vejo gota de consolo, nem farelo.
O tempo só reforça o belo e o faz mais belo
E essa grande nobreza que nela habita?
O fogo que a agita, quando ela se agita,
Arde mais forte. Oh, ela não tinha esses modos
Quando se via o Verão em seus jovens olhos.”

Oh, Coração! se ela tivesse se voltado
Verias a tolice que é ser consolado.

§

A TOLICE QUE É SER CONSOLADO.
trad. presumivelmente de Paulo Vizioli.
inaqui;
Com o seu tom gentil ontem me disse alguém:
" Há fios brancos na cabeça de seu bem,
E uma pequena sombra os olhos lhe assedia;
Porém, o tempo apenas traz sabedoria,
Ainda que agora não me creia, é uma questão
Só de paciência"
                             "Não", protesta o coração;
"Não sinto um pingo de consolo, o menos tanto.
O que o tempo lhe faz é renovar o encanto:
Com a sua nobreza sempre tão bonita,
O fogo que ela incita quando ela se agita
Apenas arde mais. Oh não, não tinha esse ar
Quando verão selvagem era o seu olhar."

Oh coração! Se ela tivesse se virado,
Saberia a tolice que é ser consolado.

§

TOLO É SER CONSOLADO.
trad. eu.

Ontem alguém me disse com ternura:
“Tua amada já tem seus fios brancos
E sua vista aos poucos fica escura.
Por impossível que pareça, os anos
Deixarão mais fácil ser sábio. Então
Paciência.”
                Mas grita o coração:
“Nada de nada me consola. Nada.
Os anos só a irão deixar bonita:
Graças à sua índole elevada,
O ardor que a agita, quando ela se agita,
Arde mais. E ela não tinha esse ar
Quando havia um Verão em seu olhar.”

Ai!, mas se ela tivesse se voltado!...
Eu veria: tolo é ser consolado.

Comentários

  1. lendo o teu post, acabei fazendo uma versão de "no second troy".

    SEM NOVA TROIA

    Por que culpá-la por sua presença
    me encher de mágoa, ou por votar a vida
    para ensinar aos brutos violência,
    ou sorver servidão em avenida,
    quando tinham desejos e ousadia?
    O que traria paz à mente tersa
    que a honra feito um simples fogo ardia,
    e bela feito um arco teso, inversa
    ao que num tempo tal podemos ver,
    excelsa e solitária e tão severa?
    Por quê e o que faria, se assim era?
    Havia uma outra Troia por arder?

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    1. Puxa, puxa! Se não se importar, incluí sua tradução no texto acima. Muito bacana!

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