Acerca do caos. Parte dois.


(caos, poema de Augusto de Campos.)


Para Deleuze e Guattari, a arte, a filosofia e a ciência traçam planos sobre o caos:

(...) Para esses pensadores, os verdadeiros artistas e poetas são aqueles que abrem uma fenda no guarda-sol e o rasgam até o firmamento a fim de possibilitar a passagem do caos livre. O caos consiste, precisamente, nos movimentos e velocidades infinitas com que as determinações surgem e se apagam, isto é, na impossibilidade de uma relação entre duas determinações, pois duas determinações não coexistem, já que quando uma surge a outra já desapareceu. O caos desfaz no infinito toda e qualquer consistência. A arte almeja criar um finito que restitua o infinito; traça um plano de composição que suporta monumentos ou sensações compostas, a partir de figuras estéticas. (Sobre a ideia de dramatização em Gilles Deleuze, Veronica Damasceno, p. 158, aqui).

Entendemos a necessidade de ordenar o caos. Aplacá-lo. Mas se a tarefa for cumprida literalmente, vamos cair na clausura. A clausura de que o infinito (sempre tentador chamá-lo de liberdade), escape de nossas mãos. Por isso precisamos nos amparar em formas de vivência que não anulem o infinito, mas que, pelo contrário, apaguem apenas de nossa existência o enorme borrão que o caos representa. Nada mais, nada menos.

Difícil dizer até que ponto somos capazes de realizar essa tarefa. Se por um lado ela não pode ser levada totalmente a cabo, do outro ela talvez nem mesmo precise ser. A enorme profusão de informações que emanam e saltam sobre o mundo nos deixa perplexos. As coisas já se encontram nomeadas e destrinchadas como que sem precisar de nós. Óbvio que não é bem por aí pois quem nomeia e destrincha as coisas somos nós, seres humanos; mas também óbvio que é um processo que está fora de nosso alcance, meros mortais distantes das cúpulas do poder. Implique ou não em opressão ou cerceamento, mesmo se tomarmos os casos mais isentos de se nomear um objeto, é inegável que eles representam ainda assim a exclusão de possibilidades. A de que, ao invés de nomearmos um objeto como todos os nomeiam, possamos ir à cata de novos caminhos. Ver numa árvore qualquer (qualquer?) não apenas sua catalogação ou as características que a ciência aponta, mas, pelo contrário, poder traçar uma rede de afeto e entender, como a arte tem entendido há tanto tempo, que podemos ir ao cerne da questão fugindo da rotina.

Pablo Neruda, nO Livro das Perguntas, dá ene exemplos de como isso funciona. A genialidade nerudiana reside no fato de que ele transforma o processo metafórico numa pergunta prenhe. Olha o mundo, compreende a explicação racional que damos a ele. Mas por quê tem que ser assim?

                     XLIV.
(trad. Ferreira Gullar)

       Onde está o menino que eu fui?
       Está dentro de mim ou se foi?

       Sabe que jamais o quis?
       e que tampouco me queria?

       Por que andamos tanto tempo
       crescendo para nos separarmos?

       Por que não os dois
       quando minha infância morreu?

       E se minha alma se foi
       por que segue meu esqueleto?

Por que chamar garfo de garfo? Emily Dickinson, num de seus poemas que mais me marcaram, chama o raio de um garfo amarelo. Ana Martins Marques diz:

                     GARFO.

       em três ramos
       floresce
       o metal

Poeta é, nos dizeres de Octavio Paz, aquele para quem nomear é ser. Fabrício Corsaletti diz:

                     VENTOS.

       Quero um dia de vento:
       a idéia das folhas,
       a comida simples,
       a lua fácil de se pegar com o garfo.
       Cansei da tragédia da vida,
       quero o amor me roçando a cara
       como quem faz alusão aos pássaros.
       A vida por uma mulher,
       a vida por uma idéia.
       Sem nenhum desespero.
       Seguro de si como um bom verso.

A rigor, o mundo proclamado é o mesmo de todos os dias. A rigor, nada de mágico. Mágicas são as palavras, a forma como o poeta encara o mundo. Como um bom verso, isto é, capaz de mudar nossa percepção e aguçá-la em direção ao mundo. A vida pode ser mais bela, o poeta parece dizer.

Entre Ana Martins Marques e Fabrício Corsaletti, contudo, parece haver um descompasso. A relação entre o poeta e o mundo é, óbvio, mais antiga até mesmo do que a poesia. Apinhados de tudo e de todos os lados, seja no concreto excessivo que nos ronda, seja na virtualidade veloz do que também nos ronda, me parece lógico que o poeta hoje expresse de maneira diferente, digo tortuosa sua relação com o que lhe cerca.

Corsaletti é capaz de gravar o nome de sua amada em qualquer lugar. O problema é que as ações estão condicionadas por um nítido e enorme "se". De maneira análoga ao poema de Éluard, que certamente foi a inspiração do autor ("o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome"), gravar o nome em todos os lugares não mudará o fato de que aquilo que se implora não chegará. Veja-se o fato de que Éluard escreveu o poema em 42. Basta gravar a liberdade em todo aquele cenário apocalíptico? Ou, melhor dizendo, pois o poema de Éluard é ainda mais sutil: basta que se grave o nome "liberdade" em todos os cantos? A essa altura do campeonato, sabendo que uma das armas retóricas mais comuns do imperialismo é justamente a da liberdade, é óbvio que não basta. A repetição exagerada, a estrutura fechada do poema de Éluard são de uma ironia pra lá de interessantes.

Quando não estão sob a alcunha do "se" explícito, estão implicitamente no bojo da virtualidade impossível da condição. O poeta não pode mudar o passado. E mesmo quando tem condições para poder mudá-lo, quando está no terreno firme do presente, não está sóbrio o suficiente. Somos levados a pensar que o nome da amada que Corsaletti tanto alude talvez não seja nem mesmo o nome de uma amada, mas, parecido com Éluard, de algo maior. Maior? É uma característica notória da poesia contemporânea sua busca pelo corpo. Como diz o título de um de seus livros, Corsaletti efetua estudos para o corpo. Algo nem um pouco simples pois, como tenho ressaltado, o poeta se vê frente a um maremoto de coisas aparentemente supérfluas que apagam o rastro da única coisa que realmente importa: o nome.

Atividade organizadora fundamental quando enfrentamos o caos, a nomeação é antes de tudo uma forma de dar particularidade ao que se expande e tende a apagar as semelhanças entre uma coisa e outra. Corsaletti à priori dá a entender que perdeu esta habilidade. Mas é possível que ele esteja trabalhando nas raias da ironia. Brinca com a possibilidade de que, em não poder nomear o nome da amada, ele já o esteja nomeando, visto que o nome, por si só, tem e não tem muita importância. Ele é gravado com mais força e vivacidade em nossa memória, aquilo de ser vivo e fugaz que Corsaletti se refere em Aprendizado. Mas não é a coisa. Podemos até apalpar o nome nos recantos de nossa língua ou apalpar as marcas que ele deixa em praticamente tudo, como Corsaletti bem demonstra. Mas não é a coisa. A certa inocência desesperada de Éluard não está presente aqui no que tange a operação mágica de que, gravando o nome, a coisa surja (se bem que podemos ler também no sentido de que, gravando o nome, a ilusão da coisa pelo menos nos acalente). Pelo contrário, conforme dito, podemos observar que Corsaletti não tem ou a força necessária para uma atividade tão extensa, ou não tem o fôlego. Ou não tem a consciência de para onde uma atividade assim o poderia levar. O poeta diz tanto do nome que, no final das contas, está dizendo muito sobre ele próprio. O que é bem possível, visto que em muitos versos ele se volta sobre seu passado. Não é mais uma atividade predominantemente presentificada como em Éluard, mas uma atividade retroativa que tenta alimentar de esperança o que passou. Daí a não-necessidade de revelar o nome, pois o poeta, revelando a si próprio, revela aquilo que dá sustância ao nome.

Ou alimentar de vanidade. É também possível. Muitas coisas, pode-se ver, são possíveis no poema de Corsaletti, mas a que me parece mais evidente é o fato de que, como ele nos diz no poema Uma camisa, uma mulher alegre, a apreensão do Outro nem sempre é uma apreensão literal ou mesmo uma apreensão evocativa. Você apreende o outro por seus detalhes, pelo que ele causa em nós. O poema de Corsaletti eu continuo defendendo se tratar de um poema de amor; mas é certo que ele expande uma análise assim e pode servir como um poema de amor próprio (não num sentido egótico, mas num sentido de evocar sua vida e, logo, pois Corsaletti deixa bem claro esse "logo" em livros como King Kong e Cervejas, evocar todos aqueles que passaram por sua vida e estão vivos nele). O poeta tem domínio sobre o nome da amada, mexe com ele pra lá e pra cá, brinca com possibilidades. Talvez não haja nada disso de discurso de incompetência manifesta. Talvez seja tudo um truque. Um truque doloroso, é claro. Pois o tema de seu poema Seu nome e o tema de Uma camisa, uma mulher alegre, são basicamente os mesmos, vale dizer, o de uma viagem rumo à essência das coisas em tempos apinhados de coisas.



(Poema de Pedro Xisto, 1971.)


O poema de Ana Martins Marques possui uma "moral da história" parecida. A diferença é que a escrita de Ana Martins Marques em raros casos é irônica. Na maior parte das vezes, é dolorosa. A presença de objetos em sua poesia é mais constante que em Corsaletti, e, de maneira geral, creio que existem poucos poetas tão "substantivos" quanto Ana Martins Marques no cenário nacional. Algo que, na tradição literária, me lembra pelo menos Walt Whitman, quando o autor americano apinhava seu poema de coisas que era conectadas a ele como a nós e como a todos, por vezes dando a entender que o que nos une deixa de ser uma essência em comum para ser o fato de que eu e você povoamos o mundo juntos.

Em seu poema, Ana Martins Marques opera no sentido de partir da figura do Outro para dizer o como ele se assemelha a uma gama de outras coisas. Imaginemos, sendo assim, que seu poema é o antes do poema de Corsaletti. Se Corsaletti fala acerca dos efeitos, Ana Martins Marques fala do como isso tudo começou. Resumidamente, podemos dizer que seu poema fala de como uma outra pessoa vai povoando nossa vida dela mesma, isto é, de como, pouco a pouco, vai se tornando impensável viver sem aquela pessoa a nosso lado, visto que ela grava sua presença em tudo. E Ana Martins Marques vai mostrando esse processo de gravar.

Livro das semelhanças, sendo assim, à maneira das quatro similitudes que regiam a compreensão de mundo até o Renascimento, conforme Foucault. Ou seja, tudo tinha uma semelhança com tudo, e observar, por exemplo, a sociedade dos homens é de certa maneira observar a sociedade celeste. A inclusão do termo "Livro" certamente embasa uma leitura comparativa assim, mas não quero com isso implicar que o poema de Ana Martins Marques possua uma temática medieval ou coisa do tipo. Seria muito difícil sustentar uma leitura assim, e não digo nem tanto pelo fato da autora ser contemporânea e a tradição medieval ser, sei lá, embalsamada. Para tal, basta citar que uma leitura comparada entre sua obra e a de Ovídio é algo que ainda há de ser feito (cruzemos os dedos). Se nos lembrarmos do nome daquele que é com certeza seu livro mais sólido, Da arte das armadilhas, podemos ao mesmo tempo nos lembrar da abertura dAs Metamorfoses ou simplesmente da poesia didática de Ovídio, nos ensinando a cair com mais garbo e menos desespero nas reentrâncias do amor.

Deixemos, todavia, tal leitura para depois. Fique dito aqui o fato de que as semelhanças aludidas por Ana Martins Marques, o livro que ela folheia, mais uma vez é o livro do corpo escrito em liames inesperados que podem à priori nos surpreender, mas que, se pensados atentamente, não deveriam. Ao dizer, no primeiro verso, que o nome dito bem baixinho pode ser confundido com a palavra xícara, Ana Martins Marques não está querendo pressupor com isso uma espécie de semelhança escondida entre o nome sussurrado e a xícara. Está fazendo basicamente uma elipse para com toda uma história que se passou. Estamos também folheando o livro das semelhanças que a autora alude, mas não pudemos acompanhar seu processo de escrita. Assim, a semelhança entre o nome sussurrado e a xícara é uma semelhança que pode ser praticamente tudo, desde, sei lá, uma noite de carícias que terminou com uma xícara espatifada, até vai saber o quê. Não interessa saber o quê. As semelhanças estão implícitas e, ao contrário da tradição hermética acima apontada, não nos compete tanto descobrir qual o liame que une uma coisa à outra. Até podemos tentar fazer algo assim, no que podemos pegar também a porcelana trincada do verso três e por aí vai. A questão simplesmente não é essa. Pois o poema nos deixa muito explícito qual o liame que une todas essas coisas: o afeto, o carinho. Estar vivo ao lado do outro. E de tal maneira que por vezes o poema de Ana Martins Marques parece simular o convívio entre os dois e ao mesmo tempo o modo como parece simular o afastamento.

E se por um lado o poema de Ana Martins Marques guarda semelhanças com o de Corsaletti, desde já é forçoso ver que ele se separa especialmente no trato que dá sobre o tema das palavras e das coisas. Senão vejamos:

       o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
       que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
       o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
       que você acabou de inventar

Isso parece absurdo. Mais uma vez, todavia, é importante que deixemos uma certa esperança metafórica de lado e observemos o quão direto e, por isso mesmo, o quão bom e preciso é o poema da autora. "Sim" é claro que é "sim"; mas é muito mais do que isso, guarda em seu bojo um número muito maior de coisas. "Sim" não é só "sim". Após o convívio, simplesmente deixa de ser. E é aqui que o poema de Ana Martins Marques se distancia do de Corsaletti. Em Corsaletti, pudemos ver como a distância entre as palavras e as coisas é carpida pelo eu lírico, visto que ele à priori parece dar uma importância maior ao nome mas, de maneira irônica, está dando uma importância maior ao objeto. Como, porém, o poema se dá partindo do princípio ou de um afastamento (isto é, os dois se separaram ou simplesmente estão distantes) ou de um afastamento no momento da escrita como que dizendo "veja como minha vida ficou melhor com você"; como o poema se move nestes princípios, o nome ganha uma conotação maior que a coisa, pelo menos à priori e pelo menos no plano poemático mais direto.

Em Ana Martins Marques é o contrário, pois a todo instante a autora não vai de encontro ao nome. Ela vai de encontro às coisas. E se disse que Ana Martins Marques é provavelmente a poeta mais "substantiva" da poesia contemporânea, é claro que isso vai muito além da presença literal de vários substantivos ao longo de sua poesia, muitos deles apinhados e trabalhados de forma inteligente (como no verso "o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas", onde "cartas" é síntese e complemento, contraponto ao mesmo tempo). O movimento geral de seus poemas é um movimento de preenchimento. Não está simplesmente operando na raiz dos substantivos e ouso dizer que nem tanto simplesmente à referencialidade direta deles. Como vimos, algumas comparações feitas pela autora são absurdas, mas absurdas só em níveis superficiais de referencialidade. Existe uma história, um estrato pressuposto ao longo de seu poema que lhe dá uma concreção que é a um só tempo substantiva e trans-substantiva.

Senão vejamos:

                     DARDO.

       Existe o corpo,
       o eixo dos joelhos, as dobras,
       a força teatral dos membros, o gosto acre,
       o extremo silêncio,
       as mãos pendentes.
       Existe o mundo,
       as savanas e o iceberg,
       as horas velozes, o falcão,
       o crescimento secreto
       das plantas, o repouso dos objetos
       que envelhecem no uso, sem dor.
       Existe o poema,
       um dardo atirado a coisas mínimas,
       à noite, às cicatrizes.
       Um secreto amor os une,
       as mãos na água, a memória do verão,
       o poema ao sol.

Retirado daqui.

Os comentários de Victor Rosa e Murilo Marcondes vão direto ao assunto. O que o poema de Ana Martins Marques diz é simples: existem estas coisas todas, estão vendo? Mas "Um secreto amor os une", e esse é sem a menor sombra de dúvidas um dos versos mais importantes de toda a poesia da autora. O objetivo do poema, sendo assim, parece ser este: o de expôr todas estas coisas ao sol, deixar claro que, "atirado a coisas mínimas, / à noite, às cicatrizes", o poema as possa revelar em seu conjunto total de objetos vivos.

Objetos vencendo o caos, ponhamos assim. Não por serem mais importantes à priori que os objetos que dão consistência ao caos. O caos não faz diferença entre esse tipo de coisa. Tanto o bar quanto o barco, a cadela e a égua imaginária são papinha pro caos. As tentativas de vencer o caos apenas jogando de lado os apetrechos eletrônicos ou as quinquilharias da indústria capitalista (& outros demônios) são baldadas. Se esquecem da única coisa que realmente pode funcionar: fazer com que os objetos vençam ganhando consistência. Ganhando vida.

Na primeira parte do ensaio expus que a relação do artista com o caos é tortuosa, pois ele pode ser, unindo as suas várias concepções, pai-de-todos, massa informe e pesadíssima, confusão. Um enorme monstro que nos sonda, nos devora, nos nocauteia e cria laços de parentesco dos quais nós não podemos nos livrar. A não ser que, retornando a Hesíodo, nós decidamos fazer parte da linhagem de Eros e decidamos apagar aos poucos o elo com esse ancestral em comum. Tarefa nem um pouco simples, em tempos onde a virtualidade destrói os paradigmas tão logo eles são esboçados, e onde o Outro se torna coisa tanto quanto a coisa que descartamos, os poemas de Ana Martins Marques e de Fabrício Corsaletti resistem à barbárie com a mesma eficiência com que os poemas de Érico Nogueira e Ronaldo Ferrito, bem como o filme da Polly, resistem. Se no primeiro ensaio destaquei a produção de autores que a meu ver retratavam o caos como ele era, seus impactos negativos, a devastação silenciosa e permeada de estardalhaços que lhe constitui, nos poemas que aqui apresento pudemos ver como o Outro deixa de ser tratado como coisa, pois ele é único e nos preenche, nos transborda, bem como pudemos ver como a intensa mudança de paradigmas por um instante cessa seu movimento quando percebemos a presença das coisas que realmente importam em todos os recantos de nossa vida. Quando começamos a folhear, sendo assim, esse livro das semelhanças que mais parece descobrimos por acaso,

       o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
       a não ser talvez com certas coisas
       similares a nada

Um nada, não preciso nem dizer, repleto de tudo. Um nada que afirma o único, o irrepetível, um nada que afirma a sua importância e, por conseguinte, possui em si a força de fazer com que o mundo, mais do que nos portar, importe.




O LIVRO DAS SEMELHANÇAS.
Ana Martins Marques.

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara
e como ele se esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados cardápios de
restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas
por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram
a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários
parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens sem
os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas
similares a nada

Retirado daqui.




SEU NOME.
Fabrício Corsaletti.

se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome

Retirado daqui.

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