James D. Corrothers (1869 - 1917).




NOS PORTÕES FECHADOS DA JUSTIÇA.

Ser negro hoje em dia
      Requer esquecer. Golpe após golpe enterrado,
Traído, olhos escuros que bendiziam,
      Que auxiliam o outro, ainda humilhado,
Ser negro hoje em dia.

Ser negro hoje em dia
      Requer a espera — espera que pode esperar
Em trevas proferidas. É um erro sem saída,
      Isso de ir no portão, quietinho, e lá bater,
Ser negro hoje em dia.

Ser negro hoje em dia
      Requer lealdade. Servimos à bandeira
Que só reitera uma branca soberania.
      A verdade e a justiça atrasarem, quem não queira?,
Ser negro hoje em dia.

Ser negro hoje em dia —
      Meu Deus! Por Deus, mas que mal nós fizemos?
O portão, cravejado, ainda reluzia,
      Mas eu passava, a glória, a glória que perdemos,
“Só um negro” — hoje em dia!

§

PAUL LAURENCE DUBAR.

Ele chegou, jovem, cantando a vinda
      Da liberdade, a lira reluzindo
      Como o fogo de Apolo e instituindo
Canções, dádivas a seu povo. Ainda,
      Este cantor Negro ao Helicon vindo
      Coagiu seus mestres de forma linda,
Encarando a voz deles, que se finda,
E se pondo a correr rumo ao fascínio
Com rosto de ébano e glória máxima.
      Homens maravilhados com seu canto,
      Provendo júbilo à noite harmônica,
Encaram a manhã arquitetônica
      Sombras do oeste derrubar, lá em cima,
      E laurear seu povo, com seu encanto.

Dunbar, hoje ninguém mais te laureia;
      Ninguém mais canta ou corre como você.
      Imortal melodista escuro, em ser
      No teu cílio que cedo o orvalho adeja,
É que o pathos do alcedo se enfeita
      E pede por bravura. O bem-querer,
      Em ti, em paz. Ou se uns o mal-querer
      Buscam, se teu povo não te presenteia,
Como a Malícia massacra o escolhido
      Dos deuses? Se foi baixo o teu voo
      E teu canto fez cumes submergidos;
      Se assim foi, o mundo todo te amou
E, ouvindo o que cantaste, se aquieta,
De modo que hoje aplaude, hoje se alegra.

§

O CANTOR NEGRO.

Passa por meu poema uma face
      Que dorme, como a sombra no jardim.
      É o sonho, o êxtase que instiga a mim
      Como se a luz da lira abençoasse
A graça de um cantor de qualquer raça.
      O quanto me humilhou!, horas sem fim
      Se luziam Hera e Cíntia no jasmim
      Ou longe a fé, em vermelhas pilastras!
Mas cavarei mais, mais fundo que o ouro.
      Buscarei gotas de água no deserto
      E, no Nilo, quererei ter por perto
O amor que canto e que não nego ao outro.
      Assim me saberão e se lembrarão:
      Minha cor não denigre minha canção.

§

A ESTRADA PARA A CURVA.

Sempre e sempre em breve,
      A eterna curva agora que a chuva acabou!
Irmão, à rósea névoa além do arco, alegre
      Eu vou.

Minha cabeça os homens laurearam
      E em minha lira, heras de som ondulante;
Meu “Lar de Folhas d'Ouro” “ardoroso” chamaram —
      Mas como a estrada é grande!

Em frente!, em frente!, entendeu?
      Embora o medo crave a dor no peito,
E eu tropece, ei!, o dia de Orfeu!
      Avante!, de qualquer jeito!

Estes signos aqui: “Medo”,
      “Perigo”, “Inédito” ou o negro “Não”,
Ou “Igreja”, ainda troam. Meu caro, aqui me deito, —
      E rumo à curva, então!

Mais próximos Ódio e Fúria,
      Erro, trigueira Servidão, Vergonha amarga,
O pé de um Negro não percorrerá as ruas
      Por onde um deus passa.

Assim, meu Irmão, sonhador,
      Evito o anátema, e segue passeio.
Ergo a cabeça, sabendo que eu sou,
      E me vangloreio.

§

EM MATÉRIA DE DOIS HOMENS.

Um faz o que o outro não faz,
      E ambos fazem direito;
Faça frio ou sol, aliás,
      O branco manda no negro.
E isto enquanto o branco, oh!, enfraquece,
      E o negro fortalece!
E porém, sei quem fica bem,
      Sei sim; sei bem, sei bem.

O branco quer moleza e fartura,
      E por isso ele manda.
A raça ingênua o atura,
      Ensinada a ser branda.
E isto enquanto o branco, oh!, semeia,
      E o negro peleja!
E porém, sei quem fica bem,
      Sei sim; sei bem, sei bem.

O branco anda de carrão,
      E o negro, se virando.
Dane-se o outro, como um trovão,
      Se o outro vai se arrastando!
E o nariz do opressor, oh!, se atola,
      E o peito humilde, transborda!
E porém, sei quem fica bem,
      Sei sim; sei bem, sei bem.

O branco aluga sua terra,
      E o Negro... O Negro, Negro.
Um não faz nada, e decreta.
      Quem vence? Quer um tempo?
E enquanto a terra do branco, oh!, encolhe,
      A do negro só melhora!
E porém, sei quem fica bem,
      Sei sim; sei bem, sei bem.

O branco vota branco no branco,
      E o Negro... Negro não vota;
(“Ignorância” é o que estão “fabricano”),
      Mas o Negro se esforça.
E enquanto o branco, oh!, descuida,
      Perdendo influência, e muita,
Meu caro, sei quem fica bem,
      Sei bem, sei bem, sei bem!

§

UM JANTAR IGNORANTE.

Tempin' difícil no Natal daquele ano, lá na vizinhança;
Bolamo' um encontro secreto, enquanto os branco tá que descansa,
Pra discutir a situação e o que dá pra fazer a respeito
De um jantar no capricho e um Natal dos bons, mas só daquele jeito.

Ruffus Green, que chamou nóis tudo, se ergueu e disse: “Nessa bagaça
De cidade aqui, só tem branco torcendo pela nossa desgraça.”
E aí: “Eles comprou, vendeu, bateu em nós; e agora enche o saco
Pois tamo livre; e agora nos irrita, quer nos jogar nos buraco;

“Tô errado?” “Issaí, tá certinho!”, o pessoal berrou furioso.
“Se nego bota a mula pra trabalhar, não se meta em seu almoço.
É por aí”, e aí depois, “Mas esses brancos de hoje em dia
São tão murrinha, que você não vive do que pagam, mixaria.

“É Natal, meus amigos, não dá pra continuar nessa miséria.
Que vai ser do Natal se não dá pra pagar nem uma janta séria?
Eu tenh' nem copo d'água ou palito de dente. É, que merda, sacam?
Acho bom que esses brancos sejam bonzinho. Vão ter que ser. Sacam?”

Bem, zuaram os brancos pra valer, até que o Ti' Simmons,
Se apoian'o na bengala, e com um reumatismo dos bons,
Disse: “Meu fi', o quê que aquele vento fri' diz lá no mei' da rua
D'ocê gastá seu dinheirin'? Não importa. Come e num tumultua.

“O fato é que criei esse peru com muito amor e carinho.
Ele cresceu pimpão, bonito pra daná e todo gordinho.
Galinhas, porcos, ovelhinhas — essas tranqueira tão tudo boa.
Nóis só precisa é nos juntá pra pegá e ir pro oba-oba.”

Bem, aí nóis se uniu e votou que era ideia boa pra lascá,
E então tivemos um Natal que daria pra qualquer um invejá;
E comemos de tudo, de todos os tamanhos, não casdiquê
Nós fomo' desonesto, mas por ignorância.
                                                                   Fim.

§

ENCANTO E CANTO.

Sempre o peito, amado som,
Em seu assombro emudece;
E olhamos, em semitom,
O amor que não se descreve.
A paixão é vã... E quanto!
O encanto é melhor que o canto.

A rosa, ao ser dita, vira
Pó. E, da urna da lembrança,
A rosa a nossa poesia
Contradiz, feroz e mansa.
A beleza é falsa... E quanto!
O encanto é melhor que o canto.

Quer Shelley na chama áurea?
Deixar Keats na graça falsa,
“Risco n'água”? Deplorável!
Esta dor, vaga, das fadas.
Minhas pombas voam... Quanto!
O encanto é melhor que o canto.

Construir torres de aurora
Se a ave de ouro voara,
Trêmula e amarela flora,
Se só o pardal na calha.
A arte, ela abarca o quanto
Do encanto melhor que o canto?

Bruxaria, asa e canção,
Todo encanto vive em nós.
Sua realização,
Porém, não é dada a nós.
Só os deuses conseguem tanto.
O encanto é melhor que o canto.

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