Ted Hughes (1930 - 1998).


(Foto retirada do E-Verse Radio)


Todos fazem parte do ciclo de poemas Crow: From the Life and Songs of the Crow (1970), quarto livro de poemas do autor e, para alguns, sua grande obra. Difícil falar do livro... Como o nome diz, ele conta a história de Corvo, naturalmente que Corvo permeado de estratos histórico-alegóricos, ou seja, Corvo que por si só é uma metáfora e que funciona como mensageiro, metáfora de todas as metáforas sobre Corvo que já foram feitas ao longo da história. Assim, você pode fazer um mix de corvos que vão desde Edgar Allan Poe a Matsuo Bashô, de Noé à mitologia nórdica e por aí vai.

O desespero, o fatalismo, a escuridão, a morte... indo de encontro a momentos de um humor, de uma ironia e ouso dizer até mesmo de uma felicidade estranhas, como se todos esses sentimentos, essas sensações boas e más conseguissem chegar à proeza de serem reinventadas por Hughes.

Em minha tradução, acho que pela primeira vez não me preocupei muito com o tamanho dos versos... Isso contribui para aumentar o espaço, a diferença brusca, a fenda em que Hughes construiu alguns poemas da coletânea, tipo o Crow and the Sea. Em aumentar o espaço dos versos grandes (mas tentando diminuir o dos pequenos), acabei ressaltando, no caso dos grandes, aquela tonalidade que a meu ver é bíblica, uma tonalidade solene ou apocalíptica.

Outro exemplo de diferenças bruscas que busquei não salgar foi o da mudança de vocativos, de nominações que permeiam a trajetória de Corvo. Assim, é comum que Hughes chame Corvo de Corvo ou no começo ou no fim de cada poema, deixando, no restante, para chamá-lo apenas de "he". Trata-se, a meu ver, de um processo de humanização bastante eficiente, o que tentei manter apagando o rastro de qualquer artigo antes do termo "Corvo" (assim, ao invés de "o Corvo fez X", uso apenas "Corvo fez X") e usando, às vezes até de forma um pouco mais repetida que o original, o "ele" do original.


Abaixo, uma série de vídeos em que Hughes lê, ao todo, 12 poemas da sequência. São 4 vídeos. Posto o primeiro:





CORVO PRETO COMO NUNCA.

Quando Deus, enojado do homem,
Voltou-se ao céu,
E o homem, enojado de Deus,
Voltou-se a Eva,
As coisas pareciam desmoronar.

Mas Corvo . . . Corvo
Corvo os examinou,
Corvo examinou Céu e Terra —

Então o homem chorou, mas com o choro de Deus.
Então Deus sangrou, mas com o sangue do homem.

Então céu e terra rangeram as juntas
Que ficaram gangrenadas e estanques —
Horror além da redenção.

A agonia não diminuía.

Homem não podia ser homem nem Deus Deus.

A agonia

Crescia.

Corvo

Gargalhou

Gritando: "Minha Criação!",

Voando a bandeira preta de si mesmo.

§

CORVO E O MAR.

Ele tentou ignorar o mar
Mas o mar era maior que a morte assim como o mar era maior que a vida.

Ele tentou falar ao mar
Mas seu cérebro se fechou e seus olhos se encolheram como se de um fogo aberto.

Ele tentou gostar do mar
Mas o mar o jogou pro lado — tal como coisa morta te joga pro lado.

Ele tentou odiar o mar
Mas logo se sentiu como cocô seco e escroto de coelho no despenhadeiro ventoso.

Ele tentou estar no mesmo mundo que o mar
Mas seus pulmões não eram profundos o bastante

E seu sangue jovial se trancou
Como gota d'água da fornalha

Finalmente

Ele deu as costas e marchou pra longe do mar

Como o crucificado que não pode se mover.

§

CORVO VAI CAÇAR.

Corvo
Quis tentar palavras.

Ele imaginou algumas palavras para o serviço, amável pacote
Arguto, retumbante, bem treinado,
Dentes fortes.
Você jamais vai encontrar coisa melhor.

Ele apontou a lebre e indo embora deixou palavras
Retumbando.
Corvo é Corvo sem falha, mas o que é uma lebre?

Tornou-se em fortaleza concretada.
As palavras circularam protestando, retumbando.

Corvo transformou as palavras em bombas — detonaram a fortaleza.
Os pedacinhos da fortaleza voaram — um bando de passarinhos.

Corvo transformou as palavras em escopetas, e elas abateram os passarinhos.
Os passarinhos caindo se transformaram aguaceiro.

Corvo transformou as palavras em reservatórios, coletando as águas.
A água se transformou em terremoto, engolindo os reservatórios.

O terremoto se transformou numa lebre e saltitou até a colina,
Tendo comido as palavras de Corvo.

Corvo ficou olhando a lebre saltitando
Sem fala e com admiração.

§

TEOLOGIA DE CORVO.

Corvo pensou que Deus amava Corvo —
Caso contrário, teria caído morto.
Estava provado.
Corvo recostou-se, maravilhado, nas batidas do coração de Corvo.

E ele compreendeu que Deus falou Corvo —
Apenas existir era Sua revelação.

Mas Quem amou as pedras e falou pedra?
Elas pareciam existir também.
E quem falou aquele silêncio estranho
Após seu clamor de grasnadas acabar?

E o quê amou as balas de chumbinho
Dispersadas nestes corvos mumificados e nervosos?
Quem falou o silêncio de chumbo?

Corvo compreendeu que haviam dois Deuses —

Um deles muito maior que o outro
Amando seus inimigos
E senhor de todas as armas.

§

CORVO COMUNGA.

"Bem", Corvo diz, "Primeiro o quê?"
Deus, exausto da Criação, roncava.
"Como?", Corvo diz, "Primeiro como?"
Os ombros de Deus eram a montanha em que Corvo pousou.
"Vem", Corvo diz, "Vamos discutir a situação."
Deus jazia, abismado, grande carcaça.

Corvo rasgou o repasto e Corvo traçou o repasto.

"Será que essa cifra vai ser bem digerida
Ouvindo apenas o além da compreensão?"

(Esta a primeira piada.)

E porém, é verdade, ele se sentiu de repente muito mais forte.

Corvo, o hierofante, corcunda, impenetrável.

Quase-iluminado. Sem fala.

Horrorizado.

§

CORVO QUEDA.

Quando Corvo era branco Corvo decidiu que o sol era muito branco.
Ele achou que o sol luzia muito alvamente.
Ele decidiu que o sol era um alvo a ser derrotado.

Ele teve sua força revigorada e resplandecendo ao máximo.
Ele arranhou e esculhambou sua ira inteira.
Ele mirou seu bico em direção ao centro do sol.

Ele riu de si mesmo no centro de si mesmo.

E atacou.

Durante sua batalha árvores cresceram subitamente velhas,
Sombras encurtavam.

Mas o sol luzia —
Luzia, e Corvo voltou carbonizado.

Ele abriu sua boca mas o que saiu de sua boca era carbonizado e preto.

"Ali em cima", ele resolveu,
"Onde branco é preto e preto é branco, venci."

§

CORVO ADOECE.

A doença dele era algo que não podia vomitá-lo.

Domando o mundo como uma bola de novelo de lã
Com a ponta atada ao pé.

Decidiu morrer, mas o que quer que
Caísse em sua armadilha
Era sempre o próprio corpo.

Quem é este alguém que me tem preso?

Ele mergulhou, ele viajou, desafiando, ele subiu e com luz
Em seu pelo finalmente se encontrou com o medo.

Seus olhos se fecharam de pasmo, se recusando a ver.

Com toda sua força ele foi golpeado. Ele sentiu o golpe.

Aterrorizado, caiu.

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