Eileen Myles (1949 - ).



Você sabe o que é a ironia? Você sabe o que é a ironia fora do discurso? Você sabe com quantas negações se faz uma afirmação? Eileen Myles é uma das poetas mais importantes lá fora. Aqui também deveria, se querem saber. Nascida em 1949, continua afiadíssima. Sabendo que um dos desafios da poesia contemporânea é o de como trazer à tona o sujeito em tempo de homens partidos (The importance of being iceland, título de um de seus mais belos livros), e isso sem barateá-lo a partir de uma poesia mansa, Myles consegue nos dar excelentes pontapés. Muitos dos quais me lembram Ana Cristina César, em tudo que Ana Cristina César se punha a escrever para ver um filete de sangue saindo da gengiva. Compare-se:

                    O HOMEM PÚBLICO N. 1

      Tarde aprendi
      bom mesmo 
      é dar a alma como lavada.
      Não há razão 
      para conservar
      este fiapo de noite velha.
      Que significa isso?
      Há uma fita 
      que vai sendo cortada
      deixando uma sombra 
      no papel.
      Discursos detonam.
      Não sou eu que estou ali
      de roupa escura
      sorrindo ou fingindo
      ouvir.
      No entanto
      também escrevi coisas assim,
      para pessoas que nem sei mais
      quem são,
      de uma doçura
      venenosa
      de tão funda.

Note-se o uso explosivo da subjetividade banhada em sarcasmo. Note-se o confessionalismo turvo veiculado numa tensão que transforma até mesmo o que não aconteceu (o sonho, a vida, a alegria, sei lá) num alvo. Compare-se:

                    PSICOGRAFIA.

      Também eu saio à revelia
      e procuro uma síntese nas demoras
      cato obsessões com fria têmpera e digo
      do coração: não sou e digo
      a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
      na vida) e demito o verso como quem acena
      e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Com trechos do poema The Perfect Faceless Fish (aqui) de Myles:

      É um milagre
      que eu deva falar
      pra te entreter.
      Me sinto bandeira
      mais ou menos
      o canto é minha brisa
      tenho vários amigos
      tá de boa.
      Você me deu
      minha água
      e por isso eu
      te agradeço. Você
      é descrito como
      elegante em seu tempo
      e é longa
      a estrada
      me sinto honrada em
      te acompanhar. Uma
      pintura é só o que sou
      um vinco antigo
      um livro perfeito
      você vai sentir minha falta
      na sua estéril antecipação
      de algo pra erguer
      esta pintura. Eu vou
      & venho. Uma santa comestível.
      Mas se você me comer
      vai ficar faminto.
            (...)
      (...) Tivesse mãos
      e tocaria a todos
      eu sumo no verde
      do fundo
      que vai e vai
      feito por quem
      o reconhece assim
      há sempre algo melhor
      pra fazer
            (...)

De maneira geral,  é uma característica da poesia confessional o uso tão poderoso de um "você" dentro do poema. Não é, óbvio, apenas uma ode ao "eu". A principal característica motora do poema confessional, e isso Myles trabalha como ninguém, é o fato de que, todo feito ao redor do umbigo, ele precisa que o leitor compartilhe aquelas experiências descritas. E contudo, o poeta tem a consciência de que o leitor não vai. Por isso ele chama, por isso ele ironiza. Por isso ele escreve.

Visita você o site da autora (aqui). O cantinho dedicado a ela no EPC (aqui) é bom também. Acompanha você a poesia dela. Você vai saber do que estou falando.


UM POEMA AMERICANO.

Nasci em Boston,
1949. Nunca quis
que viesse à tona,
de fato passei
parte da vida
tentando varrer
minha juventude
pra debaixo do
tapete e ter uma
vida que claramente
fosse independente
do fato histórico
de minha família.
Você pode
imaginar como
era ser um deles,
construir como eles,
falar como eles
ter os benefícios
de nascer numa
família americana tão
rica e poderosa. Fui
às melhores escolas,
tive vários tutores
e treinadores, viajei
muito, vi famosos,
os controversos, e
os não-tão-admiráveis
e soube desde cedo
que se havia qualquer
chance de escapar
ao fado coletivo desta famosa
família de Boston
eu devia pegar
a estrada e eu fui.
Viajei de Amtrak a
New York nos anos
70 e aí acho que
você pode dizer que
meus anos sombrios
começaram. Pensei
Bem, serei poeta.
Coisa mais tola
e obscura. Virei
lésbica. Toda
mulher em minha
família era como
uma só mas na
verdade fugimos
do assunto quando
viramos uma.
Enquanto guardava esta
pose ignominiosa
eu vi e aprendi e
comecei a pensar
que não havia
saída na história.
Uma mulher que
estou pegando agora
me disse sabe
você parece uma Kennedy.
Senti o sangue
subir à cabeça.
Sempre riram
de meu jeito
de falar rápido
confundindo “suporta”
por “sua porta”, “infesta”
por “festa”. Mas
quando esta mulher
insuspeita evocou
o nome de minha família
pela primeira vez
eu vi a merda
rolando. Sim, sou,
sou uma Kennedy.
Busquei esconder
mas não serviu bem.
Começando como poeta
humilde eu logo
subi ao topo de
minha profissão
assumindo uma posição
de liderança e honra.
Beleza que uma
mulher me chame pra
sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
Aguardo
ordens.
Vocês, os Novos Americanos.
Mendigos vagabundeiam
pelas ruas de nossa
metrópole. Mendigos
com AIDS estão
entre eles. Não é?
Que não há lares
pros mendigos, que
não há medicamentos
para esses homens.
E MULHERES.
Que captam essa
mensagem — enquanto
agonizam —
este não é o seu lar?
E como vão seus
dentes? Importa-se
em arrumá-los?
Se a arte é o topo
e a mais honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e o
artista quando jovem
não pode mais vir
aqui e falar de seu
tempo... Sim, eu posso,
mas foi há 15 anos
e me lembro — eu devo,
eu sou uma Kennedy.
Não devíamos todos ser?
Esta metrópole nacional
é o lar do trabalho —
lar e homem dos artistas
ricos. Pessoas com
belos dentes que não
estão nas ruas. Quê fazer
desse dilema?
Olhem, fui educada.
Sei da Civilização
Ocidental. Sabem qual
a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou
sozinha.
Estou sozinha hoje
à noite? Acho que não.
Sou a única com fogo
hoje à noite. Sou a única
homossexual neste quarto
hoje à noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
morrem agora.
E minha arte não
pode ser ajudada até
ser gigante, maior
que a de todos, confirmando
o que a audiência sente:
estar sozinha.
Estar sozinho é bom,
honra o bilhete comprado.
Estão trabalhando,
sadios, sobreviverão,
são normais. Estão
normais hoje à noite?
Todos aqui, todos somos
normais. É normal
pra mim ser uma Kennedy.
Não me envergonho
mais, não estou mais
sozinha. Não estou
mais sozinha pois
somos todos Kennedys.
Eu sou sua Presidente.

**

AN AMERICAN POEM.

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

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