Gwendolyn Brooks (1917 - 2000).




O SONETO-BALADA.

Oh mãe, mãe, onde encontrar a alegria?
A guerra leva o garbo de meu bem,
Deixa-me em prantos. Já não há valia
Para um peito que nem coração tem.
Ele não voltará. Um dia a guerra
Acabará; mas saber que o retorno
Trará meu bem de volta à sua terra
Não muda o fato que ele será outro.
Um outro. Desleal. Que cortejara
Morte namoradeira, cuja mão
Possessiva e (depende) graça rara
Muda os homens e causa hesitação.
Será um dos que dizem Sim, quem diria.
Oh mãe, mãe, onde encontrar a alegria?

§

NÓIS NEM SE ESQUENTA.
Os sinuqueiros.
Sete no Golden Shovel.

Nóis nem se esquenta. Nóis
nem mesmo tenta. Nóis

fere o combinado. Nóis
curte o baseado. Nóis

canta finin'. Nóis
bebe té cair. Nóis

abala na pista. Nóis
se acaba.

§

RAPAZES ALEGRES NUM BAR.

... e os rapazes que conheci na América, jovens oficiais, voltavam do front chorando e tremendo. Rapazes alegres num bar em Los Angeles, Chicago, Nova York ...
Tenente William Couch no Pacífico Sul.

Sabíamos pedir. Só o que bastasse.
O gozo na medida certa. Fosse
Haver curtição, só que algo atraente,
Verde, gelada ou quem sabe até quente...
Se sabíamos dar para as garotas
Todo um verão de amores imediatos!
Ou quando insistir, quando dar pra trás.
Ser como brancos. Ser um bom rapaz.
Nada, porém, nos ensinou ser ilhas.
O currículo, a esta hora, não perfilha as
Maneiras de esportista ou o papear
A morte com destreza. Pois não há,
Em meio a nossos dons, o de tenor
Que atenue os leões deste lugar.

§

a mãe

Abortos nunca te deixarão esquecer.
Você vai se lembrar das crianças que teve mas não veio a ter,
Os pequenuchos com pouco ou sem cabelo,
O que seria trabalhador ou a que seria modelo.
Não vai rejeitá-los ou dar uma surra,
Ou dar um doce quando um deles emburra.
Você nunca vai chupar o dedo
Ou afastar o mais infantil dos medos.
Você nunca vai deixá-los, de olho em seu saboroso olhar,
Mas, com olhos de mãe, sedenta por eles você vai voltar.

Ouvi na voz do vento a fraca voz de minhas crianças mortas.
Contraí. Acalmei
As crianças que não tive no peito que não mamaram.
Disse, Queridos, se pequei, se tomei
Seus futuros
E vidas de seus percursos,
Se roubei seus nomes e aniversários,
Suas lágrimas de bebês e abecedários,
Seus amores amáveis ou falsos, suas bagunças, seus casamentos, doenças e falecimentos,
Se envenenei o início de seus alentos,
Acreditem: mesmo em minhas deliberações não fui deliberada.
Pois embora eu lamente...
Pra quê, se o crime é meu somente? —
A vida de vocês está acabada.
Ou talvez, ou de fato,
Sequer foram feitos.
Mas isto me deixa aflita
Também: oh, o que direi, como a verdade será dita?
Vocês nasceram, vocês tiveram corpos, vocês morreram.
É só que nunca riram ou choraram ou quereram.

Acreditem, amei vocês todos.
Acreditem, eu soube, embora pouco, e amei, e amei vocês
Todos.

§

pra Diáspora

você não sabia que você era a África

Quando foi procurar a África
você não sabia que estava indo.
Pois
não sabia que você era a África.
Não sabia que o Negro Continente
que tinha de chegar
era você.

Não pude então te dizer que algum sol
viria,
nalgum lugar da estrada,
viria evocando os diamantes
seus, do Negro Continente —
nalgum lugar da estrada.
Você não acreditaria em mim.

Quando te disse, após te encontrar nalgum lugar perto
do mormaço e primórdios da estrada,
curtindo minha lealdade, curtindo minha crença,
você sorriu e me agradeceu embora pouco acreditando.

Aqui algum sol. Algum.
Agora, rumo aos lugares difíceis de chegar.
Mesmo seco, mesmo sonolento, tudo indispostamente invacilante,
rumo à dissonância e perigoso crescendo.
Seu trabalho, que foi feito, a ser feito a ser feito a ser feito.


THE SONNET-BALLAD.

Oh mother, mother, where is happiness?
They took my lover’s tallness off to war,
Left me lamenting. Now I cannot guess
What I can use an empty heart-cup for.
He won’t be coming back here any more.
Some day the war will end, but, oh, I knew
When he went walking grandly out that door
That my sweet love would have to be untrue.
Would have to be untrue. Would have to court
Coquettish death, whose impudent and strange
Possessive arms and beauty (of a sort)
Can make a hard man hesitate—and change.
And he will be the one to stammer, “Yes.”
Oh mother, mother, where is happiness?

§

WE REAL COOL
The Pool Players.
Seven at the Golden Shovel.

We real cool. We
Left school. We

Lurk late. We
Strike straight. We

Sing sin. We
Thin gin. We

jazz june. We
Die Soon.


§

GAY CHAPS AT THE BAR.


... and guys I knew in the States, young officers, return from the front crying and trembling.  Gay chaps at the bar in Los Angeles, Chicago, New York ...
Lt. William Couch in the South Pacific

We knew how to order.  Just the dash
Necessary.  The length of gaiety in good taste.
Whether the raillery should be slightly iced
And given green, or served up hot and lush.
And we knew beautifully how to give to women
The summer spread, the tropics of our love.
When to persist, or hold a hunger off.
Knew white speech.  How to make a look an omen.
But nothing ever taught us to be islands.
And smart, athletic language for this hour
Was not in the curriculum.  No stout
Lesson showed how to chat with death.  We brought
No brass fortissimo, among our talents,
To holler down the lions in this air.

§

the mother

Abortions will not let you forget.
You remember the children you got that you did not get,   
The damp small pulps with a little or with no hair,   
The singers and workers that never handled the air.   
You will never neglect or beat
Them, or silence or buy with a sweet.
You will never wind up the sucking-thumb
Or scuttle off ghosts that come.
You will never leave them, controlling your luscious sigh,   
Return for a snack of them, with gobbling mother-eye.

I have heard in the voices of the wind the voices of my dim killed children.
I have contracted. I have eased
My dim dears at the breasts they could never suck.
I have said, Sweets, if I sinned, if I seized
Your luck
And your lives from your unfinished reach,
If I stole your births and your names,
Your straight baby tears and your games,
Your stilted or lovely loves, your tumults, your marriages, aches, and your deaths,
If I poisoned the beginnings of your breaths,
Believe that even in my deliberateness I was not deliberate.   
Though why should I whine,
Whine that the crime was other than mine?—
Since anyhow you are dead.
Or rather, or instead,
You were never made.
But that too, I am afraid,
Is faulty: oh, what shall I say, how is the truth to be said?   
You were born, you had body, you died.
It is just that you never giggled or planned or cried.

Believe me, I loved you all.
Believe me, I knew you, though faintly, and I loved, I loved you
All.

§

to the Diaspora

you did not know you were Afrika

When you set out for Afrika
you did not know you were going.
Because
you did not know you were Afrika.
You did not know the Black continent
that had to be reached
was you.

I could not have told you then that some sun
would come,
somewhere over the road,
would come evoking the diamonds
of you, the Black continent--
somewhere over the road.
You would not have believed my mouth.

When I told you, meeting you somewhere close
to the heat and youth of the road,
liking my loyalty, liking belief,
you smiled and you thanked me but very little believed me.

Here is some sun. Some.
Now off into the places rough to reach.
Though dry, though drowsy, all unwillingly a-wobble,
into the dissonant and dangerous crescendo.
Your work, that was done, to be done to be done to be done. 




O TIGRE QUE VESTIA LUVAS BRANCAS,
OU,
O QUE VOCÊ É, VOCÊ É.

Era uma vez um tigre bem horripilante,
que disse: "O tigre não é estiloso o bastante.
Mistura listra cor laranja com cor preta,
mas não entende nada de moda e etiqueta.
Pois se ele rosna
e sua voz na
mata é ouvida,
cheia de vida —
E a bicharada,
amedrontada,
logo se afasta —,
isto não basta."
Depois, a meditar,
tendo lambido a pata,
o tigre vai pra mata
se arrumar.

E chega o espanto
a todo canto:
o elefante espanta
e espanta a elefanta!
"Por tudo o que é sagrado!",
diz o lobo — assustado.

O jacaré chora.
O leão deplora.
O jaguar ri alto.
O lince dá um salto.
O cervo festeja.
A onça esbraveja.
A mata grita:
"Quem acredita
que esse dia
viria?
Um tigre que ama
vestir luvas brancas!
Coisa de tigresa
e delicadeza:
vestidos, cetim.
Nunca foi assim!
A ordem natural
ordena, afinal,
que o tigre embruteça
(não que se enterneça)
e ponha na cabeça
só a agressão.
Esqueça o coração!"

A bicharada troça, troça —
o que simplesmente o destroça:
com olhar triste,
ele desiste
das luvas
e aceita a moral da
história:
Para o tigre, a glória
reside somente
na sua cauda
e no seu dente.

§

The Tiger Who Wore White Gloves,
or, What You Are You Are

There once was a tiger, terrible and tough,
who said "I don't think tigers are stylish enough.
They put on only orange and stripes of fierce black.
Fine and fancy fashion is what they mostly lack.
Even though they proudly
speak most loudly,
so that the jungle shakes
and every eye awakes—
Even though they slither
hither and thither
in such a wild way
that few may care to stay—
to be tough just isn't enough."
These things the tiger said,
And growled and tossed his head,
and rushed to the jungle fair
for something fine to wear.

Then!—what a hoot and yell
upon the jungle fell
The rhinoceros rasped!
The elephant gasped!
"By all that's sainted!"
said wolf—and fainted.

The crocodile cried.
The lion sighed.
The leopard sneered.
The jaguar jeered.
The antelope shouted.
The panther pouted.
Everyone screamed
"We never dreamed
that ever could be
in history
a tiger who loves
to wear white gloves.
White gloves are for girls
with manners and curls
and dresses and hats and bow-ribbons.
That's the way it always was
and rightly so, because
it's nature's nice decree
that tiger folk should be
not dainty, but daring,
and wisely wearing
what's fierce as the face,
not whiteness and lace!"

They shamed him and shamed him—
till none could have blamed him,
when at last, with a sigh
and a saddened eye,
and in spite of his love,
he took off each glove,
and agreed this was meant
all to prevail:
each tiger content
with his lashing tail
and satisfied
with his strong striped hide.

Comentários