Acerca do caos.

I.

Em Hesíodo, a linhagem do caos é gerada por divisão, o contrário da linhagem de Eros, gerada por união. Isso implica basicamente que o caos se expande desordenadamente, e até aí não há nada de novo para com o significado que damos ao termo. Contudo, o fato da linhagem de caos ser gerada por divisão também implica que todos os seus descendentes possuirão um contato primordial e inseparável com seu ancestral, mas isso num nível no mínimo aterrorizante, uma vez que, por mais que se expanda, as características primeiras de caos continuarão intactas nos seus mais remotos descendentes.


II.

Luísa acorda, toma leite no gargalo, lava o rosto na pia da cozinha, põe e esquece a água fervendo, toma uma bebida que não sei o nome, toma banho e mija no banheiro, baila na sala, se senta perto da janela e toma vinho (acho), rega as plantas com a água que havia fervido. Eis o filme da Polly.

Cadê o barato nisso de ver a "rotina" de uma menina bonita?

O filme foi inscrito num concurso que propunha a seus participantes o tema: como seria um mundo sem regras? A primeira coisa que encuca no filme da Polly começa pelo título. Um bom título não bem deságua naquilo que você aprende nas aulas de redação, de coerência-clareza com o conteúdo exposto. Os bons títulos sempre deixam um incômodo que, óbvio, te impele a começar a ler o texto, mas não só isso: ele possui uma força secreta que te impele a querer reler, a querer recomeçar tudo de novo pois ele te põe sob sua "jurisdição" de estranheza. Ele exerce sobre você um certo encanto, uma força de concisão que parece redundar mais em condensamento de possibilidades que apontamento de caminhos ou estalos repentinos. Isso implica que nem mesmo o próprio artista possui domínio completo sobre o título de sua obra, o que deveria ser a coisa mais evidente do mundo.

Penduremos o título um pouquinho. O que quero comentar de princípio é o fato de que Luísa acorda e faz o que faz. Logo, Luísa estaria num mundo sem regras. No plano do filme, isso seria o clássico esqueceram-de-mim. Só que tem um aspecto importante aí. Tudo bem, Luísa acorda e, por exemplo, lava o rosto na pia da cozinha. Seria um mundo tão sem regras assim? Afinal de contas, por mais que ela lave o rosto na pia da cozinha, ela lava o rosto.

Assim sendo, o que Polly quer mostrar não é, de todo, um mundo sem regras. Ela demonstra que algumas regras ainda persistem, e, acreditem, esta é uma visão muito sutil e muito profunda de se olhar para o tema; bem o contrário de mostrar a confusão, a balbúrdia. Polly, formada e sacramentada em Direito, sabe bem que o buraco é mais embaixo pois o caos não necessita negar a lei ou um estado primordial de coisas. Na concepção de Hesíodo, aliás, é o contrário: caos é tudo que gera, é tudo que subdivide, formando uma espécie de pirâmide cujo ápice é o próprio caos. Seguindo o raciocínio, isso levaria à tão famosa pirâmide normativa:





Creio que a imagem é bastante elucidativa. O que fundamenta uma norma individualizadora? Uma norma geral. E o que fundamenta uma norma geral? A constituição. E o que fundamenta a constituição? A tal da norma hipotética fundamental. Como o leitor pode ver, é um quem-fundamenta-quem que funciona de maneira gerativa divisora, tudo vindo de uma mesma fonte normativa principal. A analogia com o processo caótico hesiodiano é nítida e tentadora. Pois ninguém até hoje deu uma resposta muito satisfatória para o que seria essa norma hipotética fundamental. Norberto Bobbio dizia que era o poder primeiro. Kelsen, o criador do raciocínio todo, no final da vida chegou a reconhecer que ela era apenas uma ficção.

Não sei bem se quero implicar com isso que a norma hipotética fundamental seria o caos ou que o Ordenamento Jurídico seria a mesma coisa que o processo gerativo caótico. Se por um lado o antes da norma hipotética fundamental era certamente uma bagunça que só, o simples surgimento dela é um jeito de pôr ordem no galinheiro que se mantém nos primeiros momentos e, quanto mais se afasta, mais parece retornar ao estágio inicial, bastando que se cite o maremoto infindável de normas individualizadoras do Ordenamento Jurídico. Todavia, no poema hesiodiano, caos é o que preside o não-ser e o ser, ao passo que o Ordenamento Jurídico repousa entre o dever-ser e o ser. Diferença essencial, onde quero chegar é que certamente as implicações do filme da Polly a esse respeito abordam uma estrutura geral de delegação e legação de atributos. Não importa o quão longe estejamos do que sacramentamos conceitualmente como cumprimento normativo. Existirá sempre uma luz no começo do túnel. Pois, de resto, o processo hermenêutico de interpretação da norma lembra o processo gerativo caótico, uma vez que toda a interpretação judicial dos fatos ligados às normas (e não, não estou falando em subsunção) possui seus limites estabelecidos pelo Estado Democrático de Direito (e não o oba-oba que às vezes transparece).

Se Luísa lava o rosto na pia da cozinha, isso quer dizer que ela interpreta uma norma à sua maneira, e não que essa norma deixa de existir. A norma persiste, pois, como disse, Luísa ainda assim lava o rosto. Não existir regra significaria nem mesmo lavar o rosto. Certo que paulatinamente essa regra seria executada à sua maneira, como se o que o ato de Luísa lavar o rosto na cozinha quisesse dizer, na verdade, fosse que uma regra, desvinculada das outras (ou desvinculada só no momento da execução), gerasse o caos, ou seja, o cada um faz do jeito que quiser. E isso progressivamente levaria a uma destruição das normas, ao caos como nós o entendemos.

O caos como nós o entendemos, entenda-se: o ressurgimento do momento primordial, o momento onde papai emerge das sombras e se reencontra com todas as suas crias para, à maneira de Cronos comer Zeus, comê-las para depois gerá-las. Pois se o caos gera seus descendentes a partir de divisões sucessivas, ele está condenado a repetir o ciclo para sempre, não importa quantas vezes ele ressurja. E aqui poderíamos pensar na filosofia em ciclos viconiana. Mas não vamos tão longe assim. Sobre essa questão da norma existindo apenas num estágio de dever-ser, como que desvinculada de qualquer maneira de execução...


III.

O poema de Ronaldo Ferrito é dos mais fortes que tenho lido. Uma prova viva de que não, não estamos em crise.

Todo feito de comandos seguidos de uma explicação, progressivamente o que existe é um resto, um nada, um trapo. A utilização de um metro curto e com rimas extra-estróficas (ou, se intra-estróficas, jamais no final de versos — na verdade, em posições praticamente fixas) dá uma concordância maior aos enunciados, fazendo com que teçam uma corrente. Uma corrente, dado que frente a tantas necessidades e tantas ordens, o homem se encolhe. Buscar por uma explicação face a uma ordem, se nunca deixou de ser uma forma de explicar a si próprio, mostrar que você está lá, que você existe e é capaz de demonstrar um descontentamento que seja; buscar por uma explicação, aqui, no poema de Ronaldo, não é mais suficiente. Ronaldo demonstra isso muito bem pois todas as explicações são complementos semânticos dos significados normativos. Como se, na hora da prática, a norma topasse com um sujeito.

Um puro espelho, sejamos mais claros. Como no soneto rilkeano, o animal que não existe só existe no espelho, pois não lhe deram outro alimento que não a possibilidade de viver. A imagem, cômoda, media a relação entre o ser e as coisas. Ela imprime a memória da coisa na mente do ser de tal maneira que o ser, depois, não precisará se encontrar fisicamente com a coisa para relembrá-la. É uma forma de manter vivo o contato com o mundo, o que é muito bem visto quando fazemos uma viagem e contemplamos o crepúsculo marítimo. Contudo, no âmbito de nossa própria imagem, melhor dizendo, no âmbito da imagem de um espelho, a coisa muda de figura.

Melhor dizendo, de novo: em não mudar de figura, muda tudo. Estamos olhando para o mundo e não precisamos de um espelho para nos mostrar exatamente a mesma coisa que olhamos ou já olhamos. Exceto um objeto incômodo: nós mesmos. Nossa imagem ali, fascinante, que embriaga e nos dá a certeza de que de fato existimos e não somos apenas um processador de sensações. Nossa imagem ali, a nos mostrar que possuímos um corpo e que ele é daquele jeitinho.

Daí a última estrofe do poema de Ronaldo, tão impactante:

         É preciso confessar ao menos
         ao espelho que eu sou
         espelho. Apenas ele
         sem imagens.

Dizer ao espelho que se é espelho implica dizer que você é aquilo que você é mas que você nunca soube que era. É afirmar o reconhecimento da existência de uma maneira carnal, pés-no-chão, o que os versos "Apenas ele / sem imagens." confirmam: ou seja, o que é um espelho sem imagens? — o próprio mundo. O que Ronaldo, no poema Saciedade - em dois atos, diz: "Aquele homem semeia para ser / entre as coisas, / como as coisas já são / entre si." E que, no poema Anjo encorpado, encontra toda uma construção recheada de paradoxos que, entre o estar e o não estar, afirmam a preponderância do corpo: "Bem como duvido de ter evitado com esta minha vida uma outra vida (minha) possível. / Sinto que se não tivesse de levar o corpo, o pensamento seria cavalo solto como o tempo." O final de seu Auto-crítico, para terminarmos as indicações de poemas do autor que trabalham o tema, pode muito bem ser um exemplo de como a poesia de Ronaldo consegue guardar um pendor tão forte para o abstrato (seja por seu caráter de auto-refutações constantes, seja por suas imagens neoclássicas, como os centauros e tridentes de Saciedade), e ainda assim demarcar com força sua presença no mundo: "'você' - meu nome agora.", fecha o poeta em Diário de um dia.


IV.

Nós, o mundo... Isso é um tema pra lá de fértil na filosofia. No filme da Polly, há todo um clima calmo, certamente favorecido pela quase que total ausência de som ambiente (som ambiente = som lá de fora do apartamento) e pelas cores predominantemente amarelas. Numa proposta de como seria um mundo sem regras, é muito interessante ver como Polly enxergou isso tudo como um paradão, o que pode ser interpretado como um after-the-chaos, um nem o caos basta pra perturbar essa ordem toda, um clima intra-uterino, de dentro da individualidade. Essa individualidade que Ronaldo passa o poema todo tentando definir enquanto a vê escapar de seus dedos.

O quadro da mulher sorrindo é a tia da Polly. No âmbito do filme poderíamos interpretá-la como mãe de Luísa. Mas não existem bases firmes para uma interpretação assim. Podemos destacar seu sorriso, a felicidade incômoda que ela representa num filme que, revestido de uma película surreal, perpassa o tédio que apascenta e excrucia. O mais correto será voltarmos ao bilhete de "vou à missa" no comecinho do filme e que segue o percurso solar (um sol que nunca se põe). Esse comando normativo tão forte que lhe basta apenas a imposição, não vejo outra maneira de ser interpretado senão como sendo um comando normativo superior. Deus.

Ou, mais uma vez, não sei se quero chegar a esses paralelos que guardam amplidões maiores do que as que abarcaríamos. Bastará falar numa coisa que é capaz de gerar regras que, mesmo desobedecidas, ainda assim se encontram dentro de seu âmbito de execução. Podemos dar o nome a isso de poder-de-mãe. Dentro do que estamos desenvolvendo, podemos chamá-la de algo como comando normativo ancestral fundamental, sei lá. (Mas não sejamos babacas.)

Estar debaixo da asa desta força primordial e ainda assim descumprir suas regras redunda na calmaria. Um certo prazer próprio, a possibilidade de auto-descoberta. Luísa não sorri o filme todo. Só quando ela baila. Só quando a arte nos dá a certeza de que estamos vivos, como um espelho sem imagens. Se pensarmos em como o filme se abre, nas imagens, nos cortes de cena que são habilmente postos, podemos observar isso tudo de maneira bem clara, uma vez que, enquanto Luísa baila, a música fala da emancipação feminina — emancipação feminina para ela que, em seu quarto, dormia entre os extremos de uma boneca e um crucifixo. Emancipação feminina quando a segunda tomada de cena imita um olho mágico, um observador secreto e onisciente o bastante.

Dia de missa não é só dia de missa para quem vai na missa. Há toda uma preparação. Há, para quem crê, até mesmo uma atmosfera propícia. Dia de missa implica ambiente. Se para Luísa o dia de missa implicou na negatividade do próprio dia de missa, da possibilidade de poder aloprar pela casa toda, em Ronaldo existem implicações até parecidas:

         É preciso confessar a Deus
         que Lhe rezo incrédulo
         de deus. Apenas creio
         nas passagens.

Ronaldo proclama um credo e o chuta pra longe. Tudo passageiro (e, é claro, "passagens" pode significar também morte, o que, no poema de afirmações mórbidas de Ronaldo, é a meu ver mais acertado), a faceta mais clássica do caos se aproxima da definição de Deleuze e Guattari, velocidade absoluta que cria e esvazia todas as formas possíveis, ou seja, não é nem tanto uma questão de desordem, mas de reinvenção frenética de paradigmas, um virtual que contém todas as possibilidades que surgem e depois desaparecem, sem referência ou consequência alguma.


V.

Só o poema de Érico Nogueira chega perto do que é o caos na boca do povo. A sinuosidade sintática das frases de cada estrofe, que me lembra muito a longinquidade de Raduan Nassar, e de tal modo que, mesmo muito bem pontuadas gramaticalmente, elas extrapolam seu quadrado, são aspectos que apontam para esta sensação de maneira bem clara. Além, correto, do movimento argumentativo que o poema todo apresenta, tanto pra demonstrar o nada em que tudo redunda, quanto pra demonstrar que uma pequena distância dentro do a nós apresentado é o bastante pra que cheguemos à outra baia.

Deu branco. Dar branco diz: o conteúdo tá lá. Só não veio à tona. E eu me esforcei. Se o homem na cidade moderna, desde Baudelaire, demonstra um incômodo pelo fato de que essa nova ordenação não é mais capaz de guardar a lembrança, o carinho, mas apenas os extremos de um "É sempre assim", em Érico a situação não muda muito (no poema A caminho, de Ronaldo, o mesmo tema da impossibilidade/insuficiência da lembrança é retratado: "Seus olhos fitos nas mudanças das nuvens / entreolha o que lembra e o que finge esquecer / enquanto está a caminho."):

         a praia é uma promessa, mas um mal-estar,
         o velho mal-estar de sempre, ameaça tudo,
         insiste em ser imune a tudo o que tem sal;
                           (...)
         um vento chega, tu já quase em casa, e o bosque
         em frente (sempre esteve ali?) chama o teu nome,
         o nome de verdade, que não tem crachá;

A velocidade absoluta de que falavam Deleuze e Guattari está aqui mais do que presente. O que caracteriza o caos urbano de Érico, o caos urbano de autores passados como um Joyce, é a velocidade potente das mudanças, a possibilidade da cidade conter tudo e, no fundo, tratar esse mesmo tudo da mesma forma a todos. O poeta que em Baudelaire brandia a esgrima da rima entre a multidão para encontrar o que de fato valia a pena, em Érico parece estar ainda mais enfraquecido: "isso, a vida, não cabe na boca, ah, não cabe". Dá a entender que nem a vontade de dinamitar a Ilha de Manhattan existe mais: "mas não sabe o que faz com isso tudo que tem”". Ele incorpora o caos de maneira mais poderosa, certamente pelo fato de que não se trata apenas de uma questão de concreto. O espírito que preside o poema de Érico é o espírito da navegação hipertextual, onde uma ideia leva à outra e logo apreendida, é virtualizada. Virtualizada, entenda-se: uso-me do conceito de Deleuze e Guattari de que o atual é o que foi apreendido ou o apreensível, enquanto o virtual é a problematização de um estado de coisas. Se leio todas as notícias da página principal de um site, a página principal desse site se torna atual. Dando F5, ela se problematiza, ela virtualiza.

No quesito das distâncias, isso pode ser visto muito bem. Numa viagem de trem passando de A até C, o que era uma enorme distância fica pequena. E contudo, se se encurtou tanto, a distância entre A e B, próximos, dilata-se. A mudança ocorrida na terceira estrofe do poema é capaz de mostrar o que estou dizendo. O que ganha relevo na viagem do eu lírico não chega a ser a viagem em si, uma vez que o fluxo de consciência do eu lírico ou demonstra sua excitação ou demonstra um lapso de tempo maior do que podemos apreender — nós, os de fora daquele turbilhão virtual, imersos neste turbilhão virtual chamado texto.

É o caos. Velocidade absoluta, pai de todas as coisas, salamandra que se ramifica inventando a cura e o corte. É tanta coisa pra ser feita que o eu lírico de Érico parece se recostar e deixar que a montanha de afazeres o leve junto:

         uns ciprestes, terreno rochoso, montanhas,
         cinco meias-colunas, ou seis, muita pedra
         e uma imensa vontade de ter um porquê;
         “O melhor, água pura, mas ouro, de noite,
         como fogo fervendo arrebata, supremo...”
         – bom agouro, talvez: uma águia bem longe,
         uma brisa soprando o segredo que esconde.

De novo esse tipinho de esperança de que a natureza guarde algum segredo (aqui destruída como Ronaldo Ferrito, no poema Diário de um dia, destrói com processos paradoxais parecidos: "O dia mesmo se torna um contrassenso, se levarmos em conta o unívoco senso comum"). De novo essa temerosidade de que, se ela porventura guardar um, ele é inapreensível. Nós não temos mais tempo pra parar e contemplar o campo. Luísa abre a janela, senta perto da varanda... Luísa precisa confessar a si mesma que só vive de miragens. Nem ela nem eu e nem você somos árcades; o momento de indecisão entre o campo e a cidade, diz Marhsall Bermann, foi um descompasso do século retrasado. Assim como no filme da Polly, o poema de Érico é todo clareado pela luz do dia, o que sem dúvidas é mais impactante uma vez que o poeta diz, no final da segunda estrofe, que a luz não conforta, pois ela mostra o mundo, produz imagens e nos dá a certeza de que estamos sitiados. E venha a ser nosso destino quebrar o que nos prende, é tempo de homens partidos: "e me sinto feliz, é a cidade, ou sou eu".



VI.

Luísa está feliz, mas ser feliz, se brincar, é não ser Luísa. Sombra de uma força primordial maior do que ela, tudo o que ela faz é ser torrão de açúcar, é bailar ao redor da fogueira, uma fogueira, qualquer fogueira, a fogueira:

         e o segredo que escuto (ou ao menos suponho)
         não comove a dureza de ser pedregulho.

E:

         É preciso confessar à sombra
         que inexisto e sou
         de sombra. Apenas sombra
         de engrenagens.

Filhos do caos, não romperemos jamais os elos com esse patriarca. Quando, no final do filme da Polly, a porta se abre e Luísa se vira, é irrelevante a bronca que ela provavelmente vai levar. Nossa sensação de liberdade é a pedra-pomes que faça nosso pé caber dentro do sapato italiano. É melancólico, é claro que é, pois o caos, raciocinava Freud, pode implicar numa pulsão de morte implícita à vida. Mas, se quisermos inverter o jogo, digamos:

         (...) o sol, além do mais, o verde, o azul
         e aquele ao vivo do Pink Floyd (foi bem ali)
         dão vontade de gritar, não sei, chover
         em tudo e então secar grudado em tudo, e assim
         ser líquido e gasoso e sólido uma vez;

Virtuais, podemos ser ubíquos. Esta deixou, há muito tempo, de ser uma propriedade de Deus. Parece apenas que aquela já comentada peculiar maneira de ordenar, restringir e libertar ao mesmo tempo; isso nós ainda não manufaturamos com toda a sutileza de uma espada que antes de ser brandida é obedecida. Sentimos o jugo, é verdade, e nos debatemos. Mas nos contentamos apenas com "deixas / por vantagens." É tão extensa a cadeia de "Apenas" no poema de Ronaldo que ele também dá a entender que as necessidades são tantas, as ordens são tantas, que nem mesmo manifestar a incompetência ele poderá. É como estar a um passo da imortalidade que a cultura italiana/romana implica e não ser capaz de manuseá-la (se bem que o uso de metros longos por Érico, tradutor de Guido Cavalcanti e Catulo, é com certeza um golpe irônico a esse respeito):

         Agora, da janela deste táxi, Roma
         tão viva, tão urgente, tão imprescindível
         que nem a ciência das separações, que é russa,
         pode ajudar um pouco, se é que um dia pôde;

Imortalidade!; nem tanto. O suspense desconfortável do filme da Polly, melhor vista quando Luísa toma banho e vê a água cair, enquanto, em outras tomadas de cena, vemos a água ferver (e aqui o trabalho da sonoplastia foi muito preciso); o suspense do filme da Polly nos conduz a um irrompimento que nunca vem. Ou, vindo na dança de Luísa, é bem menor do que o clima corriqueiro que o filme emplastra, combinado com a certa apatia deslumbrada de Luísa. Se para Drummond eterno é o instante que, de tão poderoso, se petrifica e nenhuma força o resgata, resta-nos como irrelevante a questão de ficarmos frente ao eterno, ao absoluto, uma vez que o que parece importar nestas relações é a queda, o momento posterior (isso se houver momento posterior, pois momento posterior quer dizer que chegamos lá).


VII.

         É preciso confessar a tudo
         que não sei de um ser
         no mundo. Apenas sendas
         de pastagens.

Comparar o ser humano com o gado é até um lugar comum. Ronaldo inova quando coloca as tais sendas. Pois aqui o ser humano tem a possibilidade de não ser mais boi (boi, pastar no campo, na placidez, no sol à pino, conduzido por vozes engraçadas, invisíveis, superiores). Desde já, podemos incluir mais dois outros olhares sobre o caos. Em Ovídio, o caos é uma coisa rude, uma enorme massa que só tem peso e que amontoou todos os elementos discordes em si. Aqui poderíamos muito bem voltar ao poema de Érico em tudo o que ele implica de confusão e de borrões, como:

         o que é que a noite dá, por que, ninguém entende,
         foi Deus que deu, sei lá, talvez, melhor de dia
         quando a cabeça faz, não pensa, e o mundo é mais;
         agora, já sem luz, já sem barulho, é dose,
         e a vida é menos vida – ou mais – (...)

A estrofe de Ronaldo talvez vá mais direto ao ponto. Intransponível, o caos ovidiano fecha o indivíduo dentro de si mesmo e o faz "confessar a tudo / que não sei de um ser / no mundo." Se podemos enxergar as sendas de pastagens como uma forma de se sair destas mesmas pastagens, é provável que o que mais se aproxime do que foi exposto seja melancólico: ou seja, de que, na prática, o que existe não são seres humanos, mas sendas, ramificações de pastagens. O pasto se ramificando e dando não sei onde. Mas se ramificando. Prendendo à sua órbita, atulhando o mundo e reconstruindo o mundo numa instância mais pesada do que ele de fato venha a ser (mais ou menos como o Ordenamento Jurídico).

Esta densidade é só pressuposta no filme da Polly. Mas, se pensarmos na teoria do caos no campo da Física, podemos chegar a conclusões julgo interessantes. Teoria do caos, ou seja, o estudo de sistemas complexos e dinâmicos através de leis embasadas numa condição inicial, e o estudo de que qualquer mudança nessa condição inicial provocaria estados posteriores diferentes e imprevisíveis. O caos na superfície, no agora, o caos no depois. Se em Ronaldo o caos está na fenda entre o que o eu lírico é e o que ele se propõe a confessar (e aqui o clima religioso é muito próximo da Polly), e se em Érico o caos já tomou conta de tudo, à guisa de Ovídio, no filme da Polly o caos pode ser entendido ou como o enredo do filme em-si, no que a ideia de um sistema complexo e dinâmico cairia bem, ou pode ser entendido como um antes ou depois, dado que o que Polly tenha retratado em seu filme pode muito bem não ser o caos em-si, mas o que conseguiu fugir dele. Afinal de contas, a teoria do caos na Física pode ser mais ou menos traduzida no famoso bater de asas da borboleta, implicando com isso, é óbvio, não a força da borboleta ou as ligações secretas ao longo da Terra, mas, antes, a frágil instabilidade de tudo.


VIII.

É óbvio que a clausura é intensa. O sentimento caótico que estas três artes demonstram vai de encontro à ideia ovidiana de que o caos é massa pesadíssima que engloba. Estar acerca do caos é ser tragado pelo mesmo. Pois se o caos é o poder capaz de gerar por cissiparidade, por divisão, já dizia Hesíodo, todos nós temos algo de caos, todos nós temos, retomando Freud, essa pulsão de morte nessa pulsão de vida. E, como dito, retornar para o caos é vê-lo ressurgir e gerar tudo de novo do modo como sempre foi. É encontrar novamente a catástrofe e reconstruir ruínas para sempre, como na estrofe 6 de Érico.

Mas o artista não pode ser um pessimista. O artista, ele resiste. Demonstrar o lado podre de tudo, leia-se: destruir aquelas grades que o olhar da pantera de Rilke "esmoreceu e nada mais aferra" (trad. Augusto de Campos). No filme da Polly, a libertação decepcionante de Luísa, no cômputo geral, foi pequena e deu a impressão de ter sido passageira. Num mundo virtualizado, líquido (não gosto muito da expressão), a velocidade absoluta do caos de Deleuze e Guattari faz de cada passo, por pequeno que seja, a busca desesperada por um porto seguro.

Nem sempre isso vai ser possível. Ter os pés no chão nunca deixou de ser uma tarefa dificílima. Quem sabe desnecessária. Quando Ronaldo diz e rediz que é preciso confessar isso, aquilo... Pretender confessar é estar confessando. Estar frente a um papel em branco e ver a vida passada a limpo pra depois ser passada em branco, e retornar à estaca zero, impensável que seja a estaca zero, é estar confessando. Afirmar o sujeito nos passos de Luísa bailando na sala de estar é estar confessando. O artista contemporâneo precisa disso. Ele precisa enfrentar esse problema. O artista contemporâneo está acerca do caos e não quer ser tragado. Ele desdenha esse sangue. A liberdade que ele almeja, como de resto a liberdade artística, é uma liberdade saudosista de um tempo onde a velocidade das coisas não arrastasse os trapos do que um dia nós fomos, mesmo nunca tendo sido.

O artista deseja Eros. Quer a união. Ronaldo, num pequeno texto intitulado Literatura, nos diz: "Não é a morte do real que a palavra anuncia, nem é o pôr e depor de sua revelação um mero representar, senão a sua vitalidade inaugural, seu permanente nascimento. (...) O que, porém, se quer pronunciar na palavra é o silencioso originário que a permite ser posta e deposta na experiência do sentido." // (...) O silêncio habita o entre das posições, pois não se pode sustentar enquanto pura deposição, pura ausência. Pela palavra nos é possível a escuta do que silencia enquanto sentido (...) O pensar que não se verga à representação é o gestar das palavras – é o nosso empenho necessário ao acontecer da literatura." Uma vez que sua obra é presumivelmente a mais escura dentre as três, o caminho para que anulemos caos, para que resistamos à barbárie não deixou de ser o de misturarmos nosso sangue, nossa saliva, nosso suor, nossas palavras para longe um pouquinho do que abafa. De caos, basta o caos de nossos cabelos juntos.




DIA DE MISSA.
direção e roteiro: polly di
atriz: luísa guimarães
fotografia: rê barbosa
montagem: ricardo alvez
continuísta: coelho nunes
som: patrícia guedes
arte: luciana faria
maquiagem: giselle sahium
still: paula repezza
trilha: beta - rafa carvalho (triozinho)





DEU BRANCO.
Érico Nogueira.

1.

É sempre assim: bater o ponto de saída
e “Ufa, até que enfim” e “Hoje, só amanhã”
pensar picando a mula, o cérebro fervendo
e o ego semicheio da mão-boba a mais;
a rua até que tá bonita: o sol se põe,
a praia é uma promessa, mas um mal-estar,
o velho mal-estar de sempre, ameaça tudo,
insiste em ser imune a tudo o que tem sal;
a voz esgrouvinhada da rabeca (não,
não é hebraico, não) pendula pelo tímpano
assim como gangorra, e um soco no nariz,
mais outro soco, “Ah, dã, dã, dã – dama da noite!”;
um vento chega, tu já quase em casa, e o bosque
em frente (sempre esteve ali?) chama o teu nome,
o nome de verdade, que não tem crachá;
lá bem lá em cima a lua luz sem dar por nada,
e desse nada tu no último degrau;
um frio, enfim, a cama quente: é sempre assim.

2.

Mas que dormir, que nada, é a vida na janela,
a Via-Láctea e tanta estrela que confunde,
um pisca aqui, pisca acolá, pra quem quer ver;
o que é que a noite dá, por que, ninguém entende,
foi Deus que deu, sei lá, talvez, melhor de dia
quando a cabeça faz, não pensa, e o mundo é mais;
agora, já sem luz, já sem barulho, é dose,
e a vida é menos vida – ou mais –, é dose, eu disse,
alguém se levantar, querer ir ao banheiro
e, louco pelo espelho, ter colhão de olhar;
relógio de parede, espelho, alma penada
e tudo aquilo que ataranta e me esqueci,
vem só de noite, como alguém que não quer nada,
puxar teu pé, mané, sem dó de ti: levanta,
homem, levanta e encara, vai, olha de frente;
nada é tão feio assim, tão mau nem tão terrível
quanto um singelo sol de uma segunda-feira;
o escuro é bom, protege, o escuro é teu amigo.

3.

Dizer “Yo tengo miedo” ou “No, no puedo, gracias”
não vai salvar-te por estar em espanhol,
não vai mudar bulhufas: sim, tá sim chovendo
e tu parado aí, com tudo por fazer,
pensando – logo tu – “Sou um torrão de açúcar”;
sair de casa, então, que outro remédio, e ali
na esquina “Um táxi, um táxi, um táxi” é como um mantra
até que um táxi passa, “Aonde?”, “Aeroporto”;
“Pra Roma agora”, “O próximo demora ainda,
Atenas serve?”, “Agora?”, “Neste mesmo instante,
embarque imediato e, ah, incondicional”,
“Ah, sei, internacional”, “Cada um ouve o que quer”,
(“Mulher maluca”, “Otário) por aqui, senhor”;
aqueles versos alemães ’tão na maleta:
é só abrir e ver o mar socando a escarpa,
e aquele monte, ou aqueloutro, de coroa
de neve na cabeça, e muita uva e o brilho
da Grécia de presépio desses alemães.

4.

Presépio mais bonito, visto do avião;
presépio? ah, bem, antes salão que já foi rico
– tapete azul, móveis de mogno, algum marfim –,
meio esquisito e, o que é pior, todo antiquado;
“É tanta gente que não para de existir”
concluo, em inevitável colisão com a rua,
e nem “Tucídides... forjou obra imortal”
pode esfriar-me a cuca, não; alugo um carro,
vou dirigindo desligado das ruínas,
caindo em mim (e num buraco) já bem longe
de Atenas e a seção de estátuas telefônicas;
“Eu falo grego – ao menos li todo o Cavafy;
não vai ser fácil sem estepe, sem destino,
mas eu vou ter que me virar”, ando umas horas
até topar com um telefone, e a voz humana,
caso disponha de um contrato que a sublime,
volta a ser mágica outra vez, diz “Fiat lux”
e a luz já vem, ou, se na Grécia, não tão já.

5.

“Vai pra Delfos” – um sino, um martelo, sei lá,
ou um encosto, atacava sem trégua, moía
a cabeça, e “Aspirina, meu Deus, por favor
aspirina”, abro o vidro vazio, fecho o vidro,
“Eu tô louco”, o remédio: poesia alemã;
leio enquanto dirijo – uma noz, a palavra,
alvorece, avermelha na boca da pítia,
e do invólucro duro não dá pra escapar,
nem da hepatotomia –, tá bom, tô melhor;
sempre fico melhor perto desse alemão;
chego a Delfos; inverno; bem poucos turistas;
uns ciprestes, terreno rochoso, montanhas,
cinco meias-colunas, ou seis, muita pedra
e uma imensa vontade de ter um porquê;
“O melhor, água pura, mas ouro, de noite,
como fogo fervendo arrebata, supremo...”
– bom agouro, talvez: uma águia bem longe,
uma brisa soprando o segredo que esconde.

6.

Tanta página branca, papel de primeira,
que se picha, profana, polui com detrito;
“É um rapaz de talento, polido, estudado,
mas não sabe o que faz com isso tudo que tem”;
nunca eu soube por que: teve tanta cidade,
com farol e colosso e mais biblioteca,
que ruiu, pegou fogo, afundou, o escambau,
e fizeram de novo: fizeram pra quê?
“Pra viver, animal, é o que basta” – não é;
sabe, a mula tá viva, e ninguém quer ser mula,
e o problema é bem esse; pra cima e pra baixo
e pros lados também vou medindo a ruína,
e o segredo que escuto (ou ao menos suponho)
não comove a dureza de ser pedregulho;
hoje o homem não nasce com o signo na testa,
mas com o rabo virado pra lua; anoitece;
tomo o rumo do albergue, onde tantos cuidados
se dissolvem no odor de sabão dos lençóis.

7.

Roma, enfim – chego bem, só que tarde demais;
estátua e praça e tudo não como o esperado
(o mundo é tão certinho na fotografia);
ouço “Deus mora ali, bem ali, logo além”,
mas, olhando o tamanho da fila, meu Deus,
é bom ficar de fora; um giro na cidade
e outro giro e eu já tonto e o que é miraculoso:
neva; sim, neva em Roma e no meu paletó;
tá todo o mundo tão cansado por aqui
que até me contamina: “Agora, eu mal te digo
o que não sou e o que não quero”, e mais não dá;
isso, a vida, não cabe na boca, ah, não cabe;
olho um velho, acho, o dono de certa enoteca
onde entro ao acaso: a garrafa de um litro
não aguenta a medida de um litro, o volume;
“Que cena estúpida”, vou logo dando o fora,
“pra que poeta”, exclamo então, “pra falar disso?”
e algo não entra, não encaixa e não resume.

8.
         a Carlo Eugênio Nogueira

“No dia do Juízo” – mas que coisa louca,
apocalipse não combina com Pompeia,
ou, se combina, insisto em não saber; é calmo,
é incrivelmente calmo, um deus fuma o Vesúvio,
passear por Pompeia, os afrescos, é lindo;
“Que engraçado: eu saí na loucura, nem chefe
nem mãe sabe onde é que diabos eu tô,
esqueci foi de tudo; amanhã, amanhã eu
resolvo” – o sol, além do mais, o verde, o azul
e aquele ao vivo do Pink Floyd (foi bem ali)
dão vontade de gritar, não sei, chover
em tudo e então secar grudado em tudo, e assim
ser líquido e gasoso e sólido uma vez;
chego a Nápoles – que chega ao mar em escarpas
meio abruptas, parece um pouco Salvador –
e me sinto feliz, é a cidade, ou sou eu;
“Pedra-pomes, preciso de ti, pedra-pomes,
pro meu pé fazer jus a um sapato italiano”.

9.

Agora, da janela deste táxi, Roma
tão viva, tão urgente, tão imprescindível
que nem a ciência das separações, que é russa,
pode ajudar um pouco, se é que um dia pôde;
então pago e já saio correndo, o meu voo
tá em cima, eu vou ter que embarcar, “Com licença” e
“com licença” de novo, aeroporto lotado,
e um embarque a um só tempo tão longe e tão perto;
enfim embarco “Tudo certo, agora tudo
certo” – a não ser o teu livrinho, tá no táxi,
verso alemão que para sempre vai rodar
por Roma, ah, vai, embora quase ninguém note;
“Monumento mais duro que o bronze” – que nada;
mas à luz que se acende num lábio, saliva
que se apaga num outro, e é tão limpa, e é tão doce,
o teu olho derrete então vê, só um momento,
onde a polpa da noz; vou dormir; amanhã
bater o ponto de saída, belo fim.

Retirado daqui.





PURO ESPELHO.
Ronaldo Ferrito.

É preciso confessar à vida
que não vivo mais
na vida. Apenas vivo
de miragens.

É preciso confessar à sombra
que inexisto e sou
de sombra. Apenas sombra
de engrenagens.

É preciso confessar a todos
que não durmo mais
no sono. Apenas finjo
nas viagens.

É preciso confessar a tudo
que não sei de um ser
no mundo. Apenas sendas
de pastagens.

É preciso confessar a Deus
que Lhe rezo incrédulo
de deus. Apenas creio
nas passagens.

É preciso confessar-me a mim
que engano tão mal
a ti. Apenas deixas
por vantagens.

É preciso confessar ao menos
ao espelho que eu sou
espelho. Apenas ele
sem imagens.

Retirado daqui.

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