Adá Limon (1976 - ).


(Foto retirada do Kentucky.)


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ESTA PRÁTICA.

Dizem que primeiro, primeiro é a memória
curta. Você esquece as chaves,
você esquece seu próprio endereço,
você esquece o nome do presidente.
Gosto de pensar que é questão de prática ―
tivemos mais tempo de praticar a memória
de luz favorita, rosto de irmão, córrego
que passa no centro de cidade-natal.
Gosto de praticar. Como soldado russo
que procurou termos pra falar quão
árdua foi a batalha, até dizer que lutou
"bravamente", é assim que vou te relembrar,
é assim que vou praticar ― "bravamente".

§

A COLEIRA.

Depois do nascimento das bombas e forquilhas e medos,
das libertas armas automáticas frenéticas,
das bombas de gás em multidões de mãos dadas,
do céu selvagem se abrindo em bocarra de ardósia metálica
que só devora o indizível em nós, restou
o quê? Até o rio escondido nalgures foi envenenado
pelo ácido das minas de carvão. Como não
temer a humanidade, querer lamber o córrego
todo até secá-lo e chupar a água fatal pra dentro
dos pulmões, igual veneno? Leitor, eu quero
dizer: Não morra. Mesmo que argênteos saltem
peixes de barriga pra cima, e a nação mergulhe
numa crepitante gruta de ódio, não fica mesmo assim
algo cantando, ali? A verdade é: Não sei.
Mas, às vezes, juro que ouço a ferida fechando
como portão de garagem enferrujado, e movo, ainda,
meus membros vívidos mundo afora sem tanta
dor, e me encanto em como a cadela corre
em direção à rabeira das pickups, arriscando-se
na estrada porque acha que o carro a ama,
porque, é claro, é claro, o ronco alto
das coisas vai amá-la de volta, o ser pequenino
dela querendo partilhar a porcaria do entusiasmo,
até que eu puxo a coleira de volta pra salvá-la
porque quero que viva pra sempre. Não morra, eu digo,
e decidimos falar um pouquinho mais, estorninhos
acima de nós adoidados, o vento vindo pra deitar
seu frio cadáver neste pedacinho de chão.
Talvez, estamos sempre arremessando nossos corpos
rumo ao que vai nos obliterar, clamando amor
pra rápida passagem do tempo, e talvez como
o cão obediente em minhas pernas, podemos andar juntos
pacatamente, pelo menos até a próxima pickup.


THIS PRACTICE.

They say the first thing that goes
is the short-term memory. You forget
your keys, you forget your address,
you forget the name of the president.
I like to think it’s just a matter of practice—
we’ve had more time to practice the memory
of our favorite light, our brother’s face, the
creek that runs down the center of our town.
I want to practice. Like the Russian soldier
who had to make up a word to say how
hard he would fight, said he would fight
“fiercefully,” that’s how I will remember you,
that’s how I will practice—“fiercefully.”

§

THE LEASH.

After the birthing of bombs of forks and fear,
the frantic automatic weapons unleashed,
the spray of bullets into a crowd holding hands,
that brute sky opening in a slate metal maw
that swallows only the unsayable in each of us, what's
left? Even the hidden nowhere river is poisoned
orange and acidic by a coal mine. How can
you not fear humanity, want to lick the creek
bottom dry to suck the deadly water up into
your own lungs, like venom? Reader, I want to
say, Don't die. Even when silvery fish after fish
comes back belly up, and the country plummets
into a crepitating crater of hatred, isn't there still
something singing? The truth is: I don't know.
But sometimes, I swear I hear it, the wound closing
like a rusted-over garage door, and I can still move
my living limbs into the world without too much
pain, can still marvel at how the dog runs straight
toward the pickup trucks break-necking down
the road, because she thinks she loves them,
because she’s sure, without a doubt, that the loud
roaring things will love her back, her soft small self
alive with desire to share her goddamn enthusiasm,
until I yank the leash back to save her because
I want her to survive forever. Don't die, I say,
and we decide to walk for a bit longer, starlings
high and fevered above us, winter coming to lay
her cold corpse down upon this little plot of earth.
Perhaps, we are always hurtling our body towards
the thing that will obliterate us, begging for love
from the speeding passage of time, and so maybe
like the dog obedient at my heels, we can walk together
peacefully, at least until the next truck comes.



ALTERAÇÕES.

01/01/16: Adicionado o poema The Leash.

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