Alex Dimitrov (1984 - ).



E que tal uma lida no blog do autor? Aqui. É um dos poetas contemporâneos que mais admiro. Uma lírica fabulosa... Espero que se encantem. Dmitrov é realmente muito bom no que faz. É um dos gringos contemporâneos mais traduzidos aqui, em especial pelo trabalho de Rubens Akira Kuana: aqui. Não há como ler Dmitrov e não se lembrar do discreto da poesia de Kaváfis, aquele discreto que assim, miúdo e na boca miúda, faz um estardalhaço que só (o primeiro poema é especialmente kavafiano). Poesia de calmaria e algazarra mediada pelo corpo, calmaria e algazarra ao mesmo tempo. Dmitrov, repito, é realmente muito bom no que faz.

O texto utilizado foi o disponível no The Paris-American.


CORTINAS AZUIS.

Um quarto de cortinas azuis, o daquele dia.
Sempre que eu ia falar,
erguiam o pano pálido, translúcido,
e eu via o rapaz no balcão circular,
algo novo, algo sem forma.
Era tarde da manhã.
Para nós já era tarde pra tudo.
Então fui pro canto do quarto
e o fiquei olhando. E entre nós
havia uma cama e mesa e coisas
de hotel — sabe,
coisas que são anônimas
e de ninguém.
Como o mar ou a vida.
E eu me lembro quão caras.
Não o quarto. O sentimento.

§

COMO CARTA, NÃO VOLTAREI NUNCA.

Nada lá fora, nada
pra ler no outono.

O vento, tão rápido,
lembra que dissemos de tudo.

Os animais no geral preferem silêncio.
As distâncias com que nos conhecemos

dizem pouco dos mortos e da terra.
“Restrição” pra você é sentimento

que se mira quando exangue no centro?
Pensa que tem tempo?

Não sei mais o que é importante,
nossa América ontem ou amanhã. Hoje,

uma teia há tempos em minha boca.
Sua cor se dissolveu na língua.

Já não lembra o pano de que veio
e nem quer se lembrar de todo.


BLUE CURTAINS.

That day we were in a room with blue curtains.
Every time I wanted to speak
some hand would lift that pale, translucent fabric
and I’d see him standing on the circular balcony 
which held something old and shapeless.
It was late morning. 
We were already late for everything.
So I stood at one end of the room
and watched him. And between us
was a bed and a table and things
in a hotel—you know, 
things that are anonymous
and belong to no one. 
Like a sea or a life.
And all I remember is how expensive it was.
Not the room, but the feeling.

§

LIKE A LETTER, I'M NEVER COMING BACK.

No signs outside my window,
nothing to read into autumn.

The wind with such velocity,
it reminds me we’ve said too many things.

Most animals, most animals prefer silence.
The distances at which we know each other 

tell us little of how the dead know the earth.
Do you think restraint is a feeling you can aim with

when it’s bloodless at the center?
Do you think you have time?

I’m not sure what’s more important anymore,
our American past or future. And today is a thread

I’ve had in my mouth for too long.
Its color has dissolved on my tongue.

It no longer remembers the fabric it came from,
it no longer wants to remember at all.

Comentários

  1. Supimpa a forma como ele usa com maestria a forma do poema ou até mesmo a própria composição pra passar a ideia que quis. Por exemplo, no verso

    "Os animais no geral preferem silêncio."

    o "preferem silêncio" sem usar o artigo "o", dá uma sensação súbita e leve de um silêncio, não há pausa para o silêncio, o silêncio vem e permanece com o ponto. Genial.

    Já nos versos

    "As distâncias com que nos conhecemos

    dizem pouco dos mortos e da terra."

    ele para o verso onde para a estrofe mas continuando o verso normalmente, pior, com um verbo logo depois da pausa, que denota uma ação, de modo que a "distância" foi amplificada duplamente.

    Só bons poetas têm esse domínio do poema. Você tinha se ligado nisso, Mavs?

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  2. Já no verso

    "O vento, tão rápido,"

    acho que ele deu uma escorregada, deveria ter tirado as vírgulas pra passar a impressão de realmente rapidez e de vento, dar uma pausa não achei uma boa escolha.

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    1. Ah, não, esse bagulho do vento foi tradução tua. Se vira aí, mané. Brinks, Mavs. <3

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Restrição entre aspas é uma outra, pra dar a ideia, realmente, de restringir. Muito bom!

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