Allen Ginsberg (1926 - 1997).



Lhes apresento um dos projetos tradutórios mais bem sucedidos que conheço. Entenda-se: de corpo e alma, algo que certamente extrapola o sentido de tradução mas que é uma tacada daquelas, das mais válidas. Golpe de mestre. É aqui, ó: Transcurtição: GinsenGinsberg, na Modo de Usar, por Fabiano Calixto.

Pois Calixto entendeu tudo. Entendeu que Ginsberg não é autor pra ser apenas traduzido. Entendeu que Ginsberg é, como disse ao publicar 4 poemas seus, um autor literalmente presente. Tem que falar na cara. Não pode ser conteúdo importado... Eu já havia pensado em fazer algo parecido, mas nem de longe com a radicalidade e o sucesso de Calixto. E eu só louvo, muito mesmo, os resultados que ele chegou, além, é claro, de torcer ansiosamente por seu Uivo. Totalmente irrequieto... Em polvorosa. Que venha. My body is ready.

Ainda na Modo de Usar, destaco as versões de Reuben da Rocha: Allen Ginsberg, um poeta na companhia de santos. Traduções-traduções. Obviamente que não numa perspectiva fria; são excelentes traduções, todas com o grau necessário de radicalidade, com uma dosagem, digamos, tecnicamente, palavraporpalavramente ou transcurticionavelmente aceitável.

Espero que apreciem. Melhor dizendo. Que não apreciem. Não fui tão transcurticionador como Calixto; mas fui. Não minto. Talvez uma transcurtição meia boca...

Agora sim. Podem ter.


BALADA DOS ESQUELETOS.

Disse o esqueleto-presidente
Quero que se exploda
Disse o esqueleto-espectador
Sanciona, porra

Disse o esqueleto-representante
Objeção!
Disse a suprema-corte-esqueleto
Qué o quê então?

Disse o esqueleto-militar
Mete bomba
Disse o esqueleto-alta-patente
Fodê as solteirona

Disse o esqueleto-coxinha
Crise da arte
Disse o esqueleto-bronco
Deve fazer parte

Disse o esqueleto-gnóstico
O ser humano é divino
Disse o esqueleto-evangélico
Divino! Divino!

Disse o esqueleto-budista
Compaixão é pobreza
Disse o esqueleto-corporativista
É sinal de fraqueza

Disse o esqueleto-Cristo-de-tudo
Cuida dos pobres
Disse o esqueleto-filho-de-Deus
A tal da AIDS é um porre

Disse o esqueleto-homofóbico
Viado viado
Disse o esqueleto-das-finanças
Negro? Negado

Disse o esqueleto-machão
Família família
Disse o esqueleto-fundamentalista
Decorar a homília

Disse o esqueleto-pró-vida
Feto é vida
Disse o esqueleto-pró-escolha
Raspa a periquita

Disse o esqueleto-desempregado
Maldito maquinismo
Disse o esqueleto-leis-duras
Sem vandalismo

Disse o esqueleto-governador
Corte a merenda
Disse o esqueleto-presidente
Volta pro mar oferenda

Disse o esqueleto-neo-conservador
Polí-cia!, polí-cia!
Disse o esqueleto-livre-mercado
Me-ri-to-cra-ci-a

[To be continued...]

§

NOITE PASSADA EM CALCUTÁ.

Noite quieta. O velho relógio bate,
duas da manhã. O canto dos grilos
desperta no celeiro. O portão tá fechado
na rua lá fora — sonolência, bigodes,
nudez e nada de desejo. Alguns mosquitos
dão coceira, o ventilador quase parando 
um carro voa no asfalto preto,
o boi bufa, algo é esperado 
E o tempo, entre quatro paredes amarelas
Ninguém tá aqui, o vazio se enche de comboios
assobios & latidos, algo lá fora.
Pushkin dorme na estante, as obras de Shxpr
bem como as de Blake, ambas não lidas 
Ó Gênio da Poesia, pra quê te chamar
pra falar merda neste vazio mobiliado
sob o espelho oval? — noite perfeita
pra quem vai dormir e vai se dissolver em
treva tranquila por umas oito horas
— Acordando pra dedos sujos, boca amarga
e pulmão ensacolado de câncer,
quê fazer com esse dedão?, este braço?
este olho? na fome esqueletenchida
cavalo machucado ferro-velho de Calcutá
Eternidade — suor e dentição podre podre 
Rilke ao menos tinha sonhos sobre amantes,
o velho comichão do peito e do saco,
tipo isso? E o espaço vastamente estrelado 
Se a mente muda muda o peito
com medo do homem — Mas agora
o grande choque de prédios e planetas
arrebenta os muros da linguagem e me afoga
na sua profundeza Gi-Ganges para sempre.
Sem escapatória pr'essa morte em Bangkok e NY.
A pele basta pra pele, e sempre foi assim
e é tudo, apesar dos urros de dor do rim
que tá ruim mesmo, sonho sinuoso
morrendo pra finar em célebre mistério
— Deixe a imortalidade prum otário aí se ferrar,
nem vá se encurralar nos cantos do universo
injetando morfina na veia e rapando o prato.

§

EMENDA A SEGURA NAS MÃOS DE DEUS.

Sonhei estar no vale das sombras
Onde eu me desgarrei
O dali de cima deu de ombros
Deus de pedra salve rei

Ó desgarrados mundo afora
Aceitem que mudei
O amor é bom demais agora
Caridade salve rei

Chore o trabalhador que chora
Pobre pobre como eu sei
Não encare quem sofre agora
Tranque o cu salve rei

Rico e pobre gana e grana
Segure na de Deus salve rei
Desgarrados e sacanas
Seguram na de Deus salve rei

Sonhei estar no vale das sombras
Onde eu me desgarrei
O dali de cima deu de ombros
Deus de pedra salve rei


§

CANÇÃO.

O peso do mundo
é amar.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso,
o peso que levamos
é amar.

Quem nega?
Nos sonhos
ele toca
o corpo,
na mente
constrói
milagres,
na imaginação
aflige até
que nasça
humano —
o fardo da vida
é amar,

mas levamos o peso,
exaustos,
devemos descansar
nos braços de amar
por fim,
descansar nos braços
de amar.

Sem descanso
sem amar,
sem dormir
sem sonhos
de amar —
louco, doente,
obcecado por anjos
ou máquinas,
o último desejo
é amar
— não é amargo,
não nega,
não recusa
se negado:

o peso é grande

— deve dar
sem receber
como a mente
é dada
na solidão
em toda excelência
de seu excesso.

Corpos mornos
brilham juntos
no escuro,
a mão se move
ao centro
da carne,
a pele treme
na alegria
e a alma vem
alegre ao olhar —

sim, sim,
é isso que
eu queria,
que sempre quis,
que sempre quis,
retornar
ao corpo
em que nasci.

§

ESFÍNCTER.

Espero que meu cuzão aguente
60 anos e tá até OK
Numa operação lá na Bolívia
'guentou o tal hospital do planalto —
um sanguinho, pólipos, às vezes
uma hemorroidazinha
ativa, ardente, boa pra porra
garrafa PET, vela, cenoura
banana & dedos —
Hoje a AIDS o envergonha,
inda doidão em se dar todo —
fora do entulho, no preservativo
amigão orgásmico —
ainda músculo vermelhinho,
sem-vergonha aberto pro gozo
Porém mais 20 anos quem sabe,
os chapas têm problemas sempre —
pescoço, próstata, estômago, juntas —
Espero que o velho cuzão aguente
relaxe, até morrer

§

QUANDO A LUZ VEM.

Você vai despir os ossos crescer rezar só saberá
Quando a luz vem, rapaz, quando a luz vem
Você vai cantar & amar exaltar o céu azul aí
Quando a luz vem, rapaz, quando a luz vem
Você vai lamentar & chorar adoecer e suspirar
Você vai dormir & sonhar só saberá o que disse
Quando a luz vem, rapaz, quando a luz vem
Você vai vir você vai , vai vagar pra lá e pra cá
Você vai pra casa imaginar porquê se importou
Você vai gaguejar & mentir e perguntar porquê
Você vai tossir calar chamar os amigos pra sair
Você vai berrar e negar & anunciar teus olhos secos
Você vai rolar curtir mostrar teu caralho duro
Você vai amar e se doer & um dia vai crer
E vai assobiar & sorrir o senhor te fez prestar
Você vai pregar e vazar do púlpito teu orgulho
Esgueirar & patinar no palco tipo maré alta
Ir rápido vir devagar como sempre nunca soube
Quando a luz vem, rapaz, quando a luz vem

Comentários