Para o sijô em português.

Jóng Tchór (1536 - 1593), trad. Yun Jung Im e Alberto Mariscano.
Meu sijô favorito...

         Dois budas de pedra
                  frente a frente
                           sem roupa
                                    sem comida
         sob vento
                  sob chuva
                           neve
                                geada
         Ainda assim os invejo pois não conhecem
                  a dor humana
                           da separação



I.

Sijô. Poesiacanto.

Advindo da tradição vernacular, abundante de poemas para serem recitados e cantados, e ao contrário da tradição hanshi (poemas escritos em chinês), o sijô, também chamado de kagok-ch'angsa ou tan'ga, é uma forma poética coreana que se imiscui talvez indissoluvelmente da música. Kyong Ja Ahn e Yun Jung Im:

Tradicionalmente, o Sijô Clássico – o Sijô Moderno, da forma como é praticado neste século [XX], este sim, é um gênero estritamente literário – foi, sempre será, canto.

Kichung Kim:

O shijo é a mais popular e a mais Coreana de todas as formas poéticas Coreanas.

Kevin O'Rourke:

As canções vernaculares deveriam tocar o coração, mais do que a mente, para gerar um estado de hung, aquela formigante excitação mencionada por muitos poetas Coreanos. A inferência é óbvia: o shijo era mais para o entretenimento do que para propósitos literários. O fato de que eles eram compostos em onmun (linguagem coloquial) e que o Chinês se manteve como a linguagem literária até o final do século dezenove aumenta a força do argumento de que o shijo era entretenimento.
Creio que alguns comentários formais são interessantíssimos para que o convívio não se prejudique. “Comentários formais”, entre aspas pois o fim aqui não é o de prescrever e tratar o sijô como fôrma, mas, antes, traçar um norte para que sua prática possa ser pensada em língua portuguesa. Citando novamente Kyong Ja Ahn e Yun Jung Im: “(...) o seu rigor formal [do sijô] parte de um ditame musical, melódico-rítmico, mais do que de um ditame métrico.” No mesmo texto, os autores dizem que o sijô possui “(...) um relativo rigor formal.”. Já Richard Butt e Kichung Kim dizem que “A forma do sijô é extremamente elástica.” Kevin O'Rourke, para arremate, nos lembra que nenhum texto clássico se refere a um poema de forma fixa que hoje denominamos “sijô”. Somente depois de Ch'oe Namson [1926] é que o sijô, como o conhecemos, passou a ser rotulado e estudado. Cumpre observar que com Namson e outros autores (Yi Kwang-su, An Chasan, Yi Pyonggi, Cho Yunche), o supracitado “Sijô Moderno” ganhou corpo.


II.

A definição corrente, com base em Cho Yunche, é a de que o sijô é um poema de três versos (chang) com cerca de 45 sílabas. Cada verso é feito com uma média de quatro grupos frasais (ku) que ostentam, entre si, uma pequena pausa. O número médio de sílabas para cada grupo frasal é algo em torno de 4, podendo ser perfeitamente remanejado se nos lembrarmos, por exemplo, que o primeiro grupo frasal do terceiro verso costuma ser maior que o do restante (de 5 a 9 sílabas, o que faz com que comumente o terceiro verso tenha apenas três grupos frasais).

É esta divisão em grupos frasais que explica o porquê da tradução de Yun Jung Im e Alberto Marsicano exibir o sijô como um poema de onze versos (4/4/3). Em inglês, talvez partindo de uma interpretação errônea de que o sijô é um haicaizão, costuma-se dispor em seis. Kevin O'Rourke, buscando a agradabilidade da leitura e a individualização do sijô, além duma correspondência com a forma do kagok-ch'ang, um dos primórdios do sijô ao lado do shijo-ch'ang (que suplantaria o kagok-ch'ang com o tempo), dispõe em cinco versos.

Existem, soltas por aí, tabelas para a disposição dos grupos frasais e das sílabas de cada um para o leitor. Como meu curso de informática não contemplou este módulo, deixo-lhes a curiodade de procurá-las em fontes mais completas que a deste texto (cito, em especial, O'Rourke). A mais clássica é a de Cho Yunche [1948], constituindo o que se chama de p'yong shijo (sijô canônico, digamos assim). Existem também os chamados ot shijo e o sasol shijo, constituídos de expansões do p'yong shijo. Mas não creio que isto venha a calhar aqui.


III.

Sobre o conteúdo do sijô, dum posto de vista histórico antes que restritivo, cito Kevin O'Rourke:

Shijo são canções. Isto dá a eles uma qualidade particular: são leves, pessoais e frequentemente informais [conversational]; a linguagem é simples, direta, evita elaborações ou ornamentos. O poeta de shijo fornece em primeira mão sua experiência de vida e sua emoção: a ascensão e queda das dinastias; a lealdade ao rei; a amizade, o amor e o despojamento; as delícias do vinho; a beleza e a transitoriedade da existência humana; o avanço inexorável da velhice.
Vê-se, sendo assim, que sijô não é haicai. Pode ser comparado com um, naturalmente e da mesma forma como se compara a estrutura do sijô com o sprung rythm de Hopkins ou com o dístico dos sonetos shakespearianos; no entanto, querer dizer que um é igual ao outro é um erro grosseiro e desrespeitoso. Kichung Kim, mas com alguns preceitos errôneos para com o haicai:

Ao invés dos lampejos de sugestividade e fragmentaridade do haicai, de seus semivelados vislumbres da realidade, o sijô oferece sinceridade, plena claridade matinal. É esta despretensão, este desinibido lirismo [unselfconscious lyrism] que parece dar ao sijô uma espécie de constância que lhe cabe bem, pois que fala sempre com a mesma voz clara toda vez que o encontramos.
Recomendo ao leitor uma consulta aos livros citados na bibliografia para um maior entendimento dos temas tratados pelo sijô ao longo dos séculos.


IV.

O'Rourke depois nos explica que comumente o primeiro verso do sijô fornece uma imagem ou uma ideia; o segundo desenvolve o primeiro (contextualizando, introduzindo coisas novas, detalhando) e o primeiro grupo frasal do terceiro verso é o twist, a tornada, a surpresa que serve de contraponto ao final do verso e do poema. Este final é, como diz Richard Butt, frequentemente epigramático ou espirituoso. O'Rourke:

A forma básica do shijo é a simplicidade. Nisto ele lembra todas as formas artísticas Coreanas tradicionais, onde a ênfase estava não na decoração e na elaboração mas na simplicidade e beleza da execução. (…) o poeta tem apenas espaço para introduzir uma imagem, desenvolvê-la e apresentar um depoimento de sua própria experiência.


V.

Seja como for, e considerando os objetivos expostos até aqui, faço por bem redefinir, melhor dizendo, adaptar o sijô em língua portuguesa como um poema de três versos e cerca de 45 sílabas (muitas novidades até aqui) feito de aproximadamente três grupos frasais em cada verso, cada qual com cinco sílabas, ou, mais especificamente, seguindo o esquema abaixo:
5-5-5 / 5-5-5 / 10-5.
A razão é simples: a língua portuguesa necessita de um mínimo de espaço para poder ser enunciada com liberdade e dignidade. Assim, como a redondilha menor é um cânone em nossa versificação, ei-la. Somente friso que cada verso deve ser tratado como verso, e, ao contrário do que a disposição do sijô em mais de três versos pode incutir no efebo, as sílabas pós-tônicas de cada grupo frasal devem ser consideradas, visto que não estamos tratando cada grupo frasal como um verso separado.

E as pausas entre os grupos frasais. Ah, as pausas entre os grupos frasais. Pois bem: eu me recuso (re-cuso) a comentar isso. Apesar da Língua espraiar-se e acomodar-se com facilidade ao longo das sílabas, é de se notar que ela se utiliza com uma impressionante lucidez e perícia das pausas, sejam elas sintáticas, sejam elas gráficas. Mesmo porque, citando Richard Butt: “Frequentemente as pausas subsidiárias [isto é, entre os grupos frasais] num verso são tão fracas que praticamente desaparecem.

De resto, o remanejo das sílabas métricas ou dos grupos frasais pode ser perfeitamente realizado pelo poeta (e até mesmo deve ser feito). Se ele possui a disciplina de não ultrapassar muito as 45 sílabas, ou fazer algo muito abaixo delas, e se ele se lembra que o sijô possui toda uma fundamentação musical antes que meramente ideogramática, o sijô por ele praticado respeitará o sijô coreano e somente depois enriquecerá a cultura. Ambas as culturas.


P.S.: Isto é, respeitará ao menos formalmente. Estudar e aprender com os mestres (Im Che, Ch'om Kum, King Tchón-teg, Jóng Tchór, Bank In-lo, Kim Su-jang, Yóng-jo, Yi Saek, Kim Ch'ont'aek, Hwang Jin-i etc), não resta a menor dúvida, é IMPRESCINDÍVEL. Como qualquer coisa na vida.


BIBLIOGRAFIA.

*: IM, Yun Jung; MARSICANO, Alberto. Sijô: poesiacanto coreana clássica. São Paulo: Iluminuras, 1997.
*: BUTT, Richard. The bamboo grove: an introduction to Sijo. Michigan: Ann Arbor, 1998.
*: O'ROURKE, Kevin. The Book of Korean Shijo. USA: Harvard East Asian Monographs, 2002.
*: KIM, Kichung. An introduction to classical korean poetry: from hyangga to to P'ansori. New York: M. E. Sharpe, 1996.

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