"O Tygre", de William Blake.

T
odo aprendiz de tradutor acaba topando com uma tentativa de traduzir o The Tyger de Blake. Ou esboçar uma tradução pro The Raven, de Poe. Esses chavões que são muito salutares, pois você entra aos tapas na parada toda e acaba entendendo quão lindo é que a tradução exista.

Meu desejo definitivo de trazer minha versão à tona veio depois de reler o capítulo 5 de Watchmen: Fearful Symmetry. Estruturalmente, é o ápice da obra. Uma coisa bem sucedida ao extremo, como, de resto, a saga toda é. Caso o leitor queira entender direitinho do que estou falando, pode ler a resenha da Anica lá no Hellfire Clubaqui. E pode ler também a dissertação de Rafael Soares Duarte, Watchmen, página 97: aqui (na verdade, a dissertação toda; ela é espetacular).


E além disso tudo, há a citação do poema de Blake. A partir daqui, entramos num dos universos poéticos mais insolitamente ricos de toda história da literatura. O mínimo que poderia ser feito é o de falar um pouco do livro em que o poema está incluso, Songs of Innocence and Experience, discorrer sobre o correlato do poema, The Lamb... Tudo, absolutamente tudo no poema é debatível. Desde o "y" até a utilização do metro, da rima. Ou a diferença sutil entre o "Could frame" do final da primeira estrofe e o "Dare frame" da última, tão bem assinalada por Northrop Frye. E por aí vai. O leitor poderá ter uma ótima noção disso tudo em duas postagens no escamandroaqui aqui.

De minha parte, me arrisco a ser conciso: o barato do poema é a cadeia de perguntas retóricas sobre quem ou o quê fez a proeza de criar uma máquina de matar. Fica explicitamente implícito que Blake se dirige a Deus, o que só aumenta o nível, a potência do poema: como o Supremo Bem pode gerar um signo tão feroz do Mal?

Em Watchmen estas questões são elevadas a um nível de profundidade... Enfim. Sem comentários. Fica pra próxima.

Lá no escamandro algumas traduções são citadas. O leitor pode conferir outras aqui. Cada verso do poema de Blake se bifurca. Mas o geral do poema é o tom agressivo, é Blake dando voz, transformando a Ira, a Ferocidade, a Mortandade em caracteres palpáveis. Por exemplo, o R ríspido, explosivo que permeia a primeira linha. Ou a repetição dos "what" ao longo do poema, o paralelismo sintático de muitos versos, a estrutura cíclica do poema...

Busquei uma tradução com soluções diferentes. Tentando apontar novos caminhos. E tendo como válvula de escape tanto um ritmo com um compasso o mais próximo do original, quanto uma cadeia de aliterações que denotem o maior irritamento possível, como, por exemplo, o T dos dois primeiros versos seguido do M dos outros dois ou os R's que buscaram ser salpicados ao longo do percurso, procedimento que, em língua portuguesa, encontra um correspondente funcional no Drummond de Oficina Irritada.

Fatalmente, existiram deslizes. Do ponto de vista da métrica, só um verso da minha tradução fugiu do padrão de sete sílabas, que foi o 15. Mas o original aceita esse pequenino deslize (só escandir o 20º do original). Do ponto de vista da rima, a meu ver, sem problemas. O mais grave foi o quesito das adições no verso 2 e no verso 5. Das operações básicas de toda tradução, a adição é das mais perigosas. Calibre suficiente pra afundar navio. Fiz o possível pra que fossem as mais tênues possíveis, que se aproximassem do alongamento, como esse "existente" que tá aí só pra rimar e que, fosse extirpado do verso, remeteria à mesma ideia. Já o "a princípio" é adição mesmo; fica por conta do leitor pesar até que ponto ela escorregou. E por fim, o verso 10, uma solução bastante ousada que não resisti em sugerir. Outra opção, mais comportada, seria "Deu às fibras do coração?".

Eventualmente, aqui ou ali minha tradução coincidiu com a dos companheiros de jornada. Por exemplo, os versos 9 e 10, bem próximos de José Paulo Paes. Mas isso é normal.

§

P.S. (16/01/16): Citei, no corpo do texto, links que compilam várias outras traduções do poema. Adiciono, todavia, duas outras no corpo de minha postagem, não encontráveis nos links citados.



O TYGRE.
trad. eu.

Tygre Tygre, tocha ardente
Na mata à noite existente;
Que mão eterna armaria
Tua temível simetria?

Em que céu ou precipício
Teu olhar arde a princípio?
Com que asas alçar-se ousara?
Que mão a chama ameaçara?

E que ombro, & que arte, a torção
Fez das tripas coração?
E o coração já batendo,
Que horrenda mão?, que pé horrendo?

Que martelo? em que fornalha
Teu cérebro, que limalha?
Que bigorna? que garra
Seu terror mortal amarra?

Quando os astros lançam lanças
E o céu a chorar se lança:
Quem vê o feito, sorriria?
Quem fez a Ovelha, far-te-ia?

Tygre Tygre, tocha ardente
Na mata à noite existente;
Que mão eterna ousaria
Tua temível simetria?

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
em: Poetas de Inglaterra, Sec. da Cultura, Esportes e Turismo, 1970, p. 122-125.

Tigre, tigre, que flamejas
pelas florestas noturnas,
que mão, que olhos imortais
te forjaram tão terrível?

Em que abismos, em que céus
o fogo que eram teus olhos
ousou voar sôbre que asas?
Que mão roubou êsse fogo?

Que arte e que ombros trançaram
as fibras do coração?
E quando êste palpitou,
que mãos, que terríveis pés?

Qual o malho? Que corrente?
Que forja fundiu teu cérebro?
Que bigorna? Qual o punho
que ousou côlher seus terrores?

Quando os astros dardejaram,
molhando o céu com seu pranto,
Êle sorriu vendo sua obra?
Fêz-te Quem fêz o Cordeiro?

Tigre, tigre que flamejas
pelas florestas noturnas,
que mão, que olhos imortais
te forjaram tão terrível?

§

 trad. Alípio Correia Neto e John Milton.
em: Literatura inglesa, IESDE, 2009, p. 128-129.

 Tygre, tygre, que queimas claro o
No breu do bosque solitário,
Que mão imortal ou olho podia
Moldar-te a horrível simetria?

Em que abismos ou longes céus
Queimou o fogo dos olhos teus?
Em que asa ascende em seu arrogo?
Que mão ousa pegar do fogo?

Que ombro poderia, & que arte,
As fibras do coração trançar-te?
E quando ele estava batendo,
Que horrenda mão? & que pés horrendos?

Qual o malho? Qual a corrente?
Em que fornalha ardeu tua mente?
Qual a bigorna? Que tenaz
Ousa apertar medos mortais?

 Quando estrelas lancearam tanto
O céu, e o banharam com pranto,
Ao ver sua obra, riu-se o obreiro?
Quem fez a ti fez o cordeiro?

Tygre, tygre, que queimas claro
No breu do bosque solitário.
Que mão imortal ou olho podia
Moldar-te a horrível simetria?

§

trad. Júlia Rodrigues.
em: Revista Zúnai, 5, 08/12/13, aqui.

Tigre! Tigre! luz flamejada
Na floresta da madrugada
Que mão ou olho imortal
Forjou tua temida simetria?

Em que céus ou profundezas
Teus olhos tomaram labaredas?
Em quais asas ele clama?
Que mão modelara a chama?

E que arte, & qual ação,
Torceu-te os nervos do coração?
E quando o coração bateu
Que mão? & que pé temeu?

Que martelo? que corrente?
Em qual forno fez tua mente?
Em que ferro? Que tenacidade
Ousou agarrar tua maldade?

Quando as estrelas se lançaram
E os céus lacrimejaram,
Ele então se satisfez?
Quem fez a Ovelha também te fez?

Tigre! Tigre! luz flamejada
Na floresta da madrugada
Que mão ou olho imortal
Ousou tua temida simetria?


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