Entre Línguas Multifábulas: a posição de Angélica Freitas na poesia contemporânea.



20 de julho de 2013.

T
em-se dito, com uma insistência digna de questionamento, que falta lirismo à poesia contemporânea. No entanto, analisando o que se tem traçado nesta segunda década do milênio, vemos que issaí tende a se restringir a uma voz insistente, mas solitária.

Podemos começar falando que os acontecimentos que presenciamos já não permitem traçar com a mesma facilidade, a mesma crítica o panorama de uma sociedade plenamente apática. Mas, para me restringir ao conteúdo da poesia, resta indagar o que essa crítica entende por lirismo. Se se trata apenas da expressão do eu da forma como comumente a conhecemos (o que geralmente é uma contingência em relação à poesia amorosa), é provável que falte a esta mesma crítica um olhar mais amplo. Por exemplo, da poesia que é publicada anonimamente na internet, vemos uma predominância de poemas transbordantes, muitas das vezes destrambelhadamente líricos. Claro que, em contraposição a esse panorama de autores anônimos que se acendem e se apagam, teríamos o "alto escalão literário", os autores prestigiados por grandes editoras que, em seus textos, apresentariam uma obra distanciada desse lirismo que, pelo que dá a entender a crítica de poesia, é a verdadeira panaceia (e no entanto, o descompasso entre a poesia do baixo e do alto escalão literário nunca é plena).

Desse alto escalão literário, uma pesquisa não muito aprofundada demonstra que a poesia até então se pautou majoritariamente pelo teor metalinguístico, o que não deixa de ser uma verdade se pontuarmos suas devidas ressalvas. E, graças a este caráter, muito se foi comentado a respeito de uma espécie de alheamento, de uma falta de criatividade, de uma crise, em suma, dos paradigmas literários. Até aí, não nego.

No entanto, relacionar a poesia metalinguística a uma poesia feita de forma fáustica, isto é, trancafiada em meio aos livros, com a condição de que seu autor seja um Übersmench desiludido e misantrópico em relação ao que ocorre lá fora, ao que os sinos dobram — relacionar a poesia metalinguística a tal equação simplificada não deixará de ser uma inocência. Muito antes de representar um mero chocalho de palavras, ou de apontar pura e simplesmente à dicotomia traçada entre concretistas versus marginais (o que, conforme tem-se notado mais recentemente, é empobrecedor [aqui]), a poesia metalinguística é também um questionamento do mundo que o cerca e do poeta que a faz. Afinal, como dito por Saussure, a rigor a língua não existe, mas tão somente a manifestação da mesma. Assim, comentário análogo posso fazer aos instrumentos artísticos, que, se o pau não rola, não rolam.

Pois se a poesia metalinguística nada mais é que um discurso poético voltado a si mesmo, não podemos levar isto de forma tão literal. O discurso poético é uma manifestação; ele, a rigor, não existe. Logo, a poesia metalinguística não deixará de ser uma manifestação voltada para a própria manifestação, o que, por mais que seja feito de forma mais ferrenha e restrita, não deixará de trazer consigo idiossincrasias inegáveis, como a própria idiossincrasia do indivíduo que a maneja e a relação técnico-subjetiva, instrumental-subjetiva, da manifestação que cada pessoa dá para uma atividade que não se resume, mas se manifesta.

Dito por Paulo Henriques Britto, poeta consagrado por seu escopo de análise metalinguístico, em livro recente: "Ninguém busca a dor, e sim seu oposto, / e todo consolo é metalinguístico." O que podemos extrair disto, além de uma referência à fórmula eliotiana já clássica de que a poesia é a fuga da emoção, é que, se a dor que o poeta deveras sente é manifesta na instrumentação poética, mesmo a poesia metalinguística não prescindirá dessa forma de consolo.

Além do mais, se esse foi o quadro literário que se delineou entre a década de 90 e a primeira década do presente século, nota-se que, nesta segunda década, em especial 2012, uma nítida desconstrução do panorama metalinguístico ou "objetivo", "cabralino" ou vá lá saber o quê mais, vem sendo evidenciada. É hora de encontrarmos uma grande manifestação de poetas influenciadas por Ana Cristina César, poetas como Alice Sant'Anna ou Bruna Beber, e ao mesmo tempo vermos aqueles que sempre se pautaram pela busca de formas genuinamente líricas, como, por exemplo, um Ricardo Domeneck que lança um ciclo de poemas sobre o amor ou um Eucanaã Ferraz que, em seu livro mais recente, ostenta o expressivo título Sentimental.

E assim aportamos a Angélica Freitas. Sua poesia é reconhecidamente cômica, uma poesia que se vale de instrumentos clássicos da poesia (a rima por exemplo) para brincar com a objetividade. E, brincando com essa objetividade, Angélica quebra mais uma vez o discurso tão enviesado de que a poesia contemporânea se reduz a formas pétreas de expressão. Entendendo que o riso é também uma forma por excelência de se alcançar a sentimentalidade, a poesia de Angélica tem se encaminhado para uma análise dos preconceitos vigentes em nossa sociedade, o que, de pronto, pode nos levar a duas conclusões:
  1. o humor de Angélica vai se tornando sério, corrosivo, num processo que deixará tão somente ao leitor a última risada, risada talvez solitária e desesperadora. Trata-se de um processo de evolução literária que poderíamos traçar em paralelo ao de poetas como Carlos Drummond ou Manuel Bocage;
  2. o preconceito é uma forma de objetividade que acua a subjetividade da pessoa. Assim, Angélica, e graças mais uma vez ao humor, consegue alcançar ambas as esferas num processo interessante: é comum que o humor inverta a camada de preconceitos (o que, por si só, não é algo bom nem ruim). Assim, com base no humor é natural que a esfera da subjetividade seja posta em primeiro plano, virando ao avesso a equação que o preconceito esboça. Por exemplo: ao falar dos vários tipos de mulher em determinada passagem de Um útero, Angélica faz uma reviravolta e, ao invés de tratar da objetividade desse preconceito, trata da subjetividade dessa mesma mulher, da subjetividade do preconceito (o que é o bastante para anular o preconceito, é claro).
Combinadas as duas possibilidades, e aliadas a uma poesia que possui um fácil acesso, Angélica Freitas consegue alcançar múltiplos êxitos que vão desde a vendagem a abrir espaço para outros poetas, até o vislumbre de se fazer política, por exemplo, sem se valer das formas enviesadas que o século XX apontou. É uma poesia que se comunica constantemente com tradições no geral desapercebidas em nossa língua, arrisco-me a dizer com toda uma tradição trovadoresca que, pondo de lado os galanteios amorosos que permeavam essa poesia (e que não podem ser resumidos a tal), tomam como esteio as canções de escárnio e maldizer para, a um só tempo, entreter, demonstrar o lúdico e, a partir do lúdico, desaguar no vexame.

Desse modo, reafirmo mais uma vez que a posição singular de Angélica no cenário literário contemporâneo não é uma posição de ruptura calculada conforme muitos críticos propuseram — o retorno ao lírico. Antes, e entendendo que o lírico possui uma gama de possibilidades muito mais ampla (o lírico povoa a poesia metalinguística ou mesmo a concreta), a poesia de Angélica brinca com a objetividade de fato e a objetividade de sua construção para afetar o lírico, como se entendesse, numa perspectiva que se principia num viés sociológico, que a identidade do indivíduo vai de encontro direto à sua personalidade social, aos preconceitos e conceitos que o indivíduo forma e que dele são formados.

Graças à comicidade, Angélica consegue uma verdadeira faca de dois gumes: ataca tanto as instituições de opressão quanto os opressores, dá um alívio ao oprimido quanto atinge sua individualidade e propõe uma forma de emancipação lúdica, é verdade, mas nem por isso menos válida.


P.S.: Originalmente publicado no Fórum Valinor (aqui), e aqui reescrito, há que se dizer mais sobre Angélica Freitas e ampliar os caminhos que tentei apontar neste texto. Como, por exemplo, os caminhos satíricos da poesia de Angélica, já apontados por Ricardo Domeneck (aqui), e uma leitura comparada com um Drummond efetivo para com a poesia contemporânea, isto é, sem a babaquice de "cade-o-novo-Drummond-dos-dias-d'hooje?".

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