Belinha Barreto + Vincent Millay.

E
m textos passados pude apresentar estas grandiosas mulheres ao leitor: aqui aqui. Mas foi só apresentação. Ainda há muito o que ser dito, e estes outros que dou a lume apenas buscam suprir estas confortáveis lacunas.

Antes, contudo, um momento de reflexão. Autocritiquemos.

Os 13 sonetos, ao todo, que o leitor tinha em mãos, são das minhas primeiras incursões no campo da tradução. Mesmo com os méritos que porventura tenham, são irregulares formalmente (25% dos versos de cada uma das coletâneas é), pois eu não só não entendia os meandros, a mecânica do processo, como não entendia os paranauês da poesia inglesa e não tinha uma filosofia de trabalho, um modus operandi. Assim sendo, alguns dos resultados acabaram por se distanciar do esqueleto original, e, por mais que aqui e ali tais discrepâncias venham a ser aceitas, eu não tinha muita noção disso. Deixei tudo isso claro nas respectivas notas introdutórias aos poemas, no caso de Vincent inclusive com a honestidade de apresentar dados percentuais; mas é bom que se revisite e se expanda o campo de interesses.

Expandamos.

[P.S. Março de 2015. Translator here: Posteriormente, revisitei as traduções passadas de Vincent Millay, corrigindo alguns versos e excluindo dois sonetos. Assim, isso que me referi dos dados percentuais já não existe, e os deslizes formais, creio, foram corrigidos em sua maior parte.]

Quem foi Elizabeth Barrett Browning? Ou, também me valendo da licenciosidade de Mário de Andrade, quem foi Belinha Barreto? Ao traduzir um poema de Robert Browning (aqui), pude abordar um pouco a bela história de amor que os dois travaram. Pois a história de vida de Belinha não tem nada de mais. Infelizmente, não pôde ter. Nascida em 1806 e filha de um grande agricultor (e um crápula), possuía graves problemas de saúde. Teve uma educação bem consolidada, tendo lido as peças de Shakespeare, as traduções de Pope, passagens do Paraíso Perdido e a história da Inglaterra, Grécia e Roma antes dos dez, para não dizer que, nos anos seguintes, leria obras latinas e italianas no original (mais tarde, seria tradutora de Ésquilo e Bion). E sempre seguindo os meandros da poesia, incentivada pelos pais: no aniversário de 14 anos, publicaram um poema épico seu denominado A Batalha de Maratona, em heroic couplets. A ideia de publicar um longo poema nunca abandonou Belinha, tanto que sua obra mais audaciosa, Aurora Leigh (1856), possui nove livros e faz um retrato da artista enquanto mulher, com tudo o que o tão glorioso machismo do século XIX era capaz de dar. É um poema que se insere numa tradição romântica de revisitações à epopeia, enfatizando o Indivíduo ao invés do Herói, como Wordsworth no The Preludes, além de servir a leituras feministas engrandecedoras.

Sua mãe faleceu em 1828. Conheceu vários poetas importantes durante a vida, como Wordsworth, Coleridge, Tennyson, Carlyle. E, com a morte do irmão de Belinha, afogado em 1838, ela passou mais ou menos 5 anos como uma inválida, deitada na cama e vendo no máximo uma ou duas pessoas por dia. Mas sua fama enquanto poeta já era praticamente consolidada; seu volume Poems, de 1844, granjeou a simpatia de Robert Browning que, em 1845, passou a visitá-la e a cortejá-la: uma das mais belas histórias de amor da literatura. Ele escreveu-lhe: "Amo seus versos com todo o meu coração, minha cara Barrett". Foi durante essa época que Belinha escreve seus imortais sonetos (Sonnets from the portuguese), todos dedicados a Robert, que a chamava de "minha portuguesinha". Em 1846 se casaram secretamente (pois o pai de Belinha era o pai de Belinha, repito: um crápula) e passaram a viver na Itália. Em 1849, tiveram um filho, Robert Wiedemann Barrett Browning, apelidado Pen. É muito bonito que alguém com saúde tão frágil tenha conseguido dar a luz. Era a volta por cima — seguida do declínio: em 1861, com a saúde agravada graças aos impactos da morte do pai e de seu amigo de juventude G. B. Hunter, Belinha morreu nos braços de seu amor.


(Belinha e Pen. Um ano antes da morte da autora. Créditos.)

Os Sonetos da portuguesa não são apenas célebres pela intensidade e grandiosidade do amor abordado. A forma como foram escritos é também poderosa. A técnica de construção de Belinha é simplesmente revolucionária. O leque de imagens que ela se utiliza é uma atualização inteligentíssima de um vasto punhado de lugares-comuns da literatura de sua época, literatura desgastadamente aburguesada que, nas mãos de habilidosos poetas vitorianos como Belinha e seu marido Robert, puderam ser transformados em novos conteúdos acima de tudo humanos como, de resto e justiça seja feita, a grande literatura sempre fez.

Espiritualmente, são baseados nos sonetos de Camões, donde a homenagem a nossa língua. Mas não são versões inglesas de um camonianismo tardio. Pelo contrário. O que mais salta aos olhos são os inúmeros enjambements que percorrem a obra, além das pausas e das sinuosas e intrincadas estruturas sintáticas, o que aproximam os sonetos dos movimentos espirituais e mentais da poeta e ao mesmo tempo lhes dão uma leveza e uma densidade realmente incríveis.

Tudo isso tem que ser traduzido. O ideal mesmo seria o de traduzir a sequência inteira, como Leonardo Froés, pois muitos sonetos da autora guardam intimidades externas, como, por exemplo, ao terminar um soneto com uma palava X e iniciar o outro com essa mesma palavra X. Mas não deu. Limito-me a apresentar mais estes três sonetos. Mais tarde deixarei mais claro o porquê dos três. Comentemos, de relance e por hora, alguns aspectos essenciais dos sonetos de Belinha que devem constar em toda tradução. Pois, ao encarar um determinado texto, o tradutor deve esmiuçar o maior número de características e traçar a rota de colisão também a maior possível, obviamente que elencando os aspectos detectados: por exemplo, se um conceito central na obra desse autor é mais ou menos importante que a aliteração naquele mesmo verso. Se o tradutor conseguir traduzir os dois, duplamente ótimo; mas se tiver de optar entre um e outro, eis a razão do elencamento.

Começando do fato de que são sonetos petrarquianos. Como disse em minha introdução à poesia da autora, o soneto petrarquiano, camoniano, possui um modelo fixo nos quartetos (rimados de modo abraçado) e algo muito maleável nos tercetos. E mesmo que o tradutor transponha os quartetos num esquema com quatro ecos rímicos, ABBA/CDDC, como Leonardo Froés, ou de modo alternado (ABAB/ABAB) ou abraçado-invertido (ABBA/BAAB), ele vai se distanciar apenas um pouquinho do original, pois continua sendo soneto italiano.

Já falando em rimas, elas no original são castiças. Só o soneto 24 estampa um still-acessible-hill. E quem fala em rima fala em métrica. Métrica que, no original, também é castiça e que, em minhas traduções anteriores, com exceção dos sonetos 21 e 41, possuíram graves problemas, conforme comentei. Isto é: algumas quebras são até aceitáveis, mas desde que se mantenham num baixo nível, pois é o que o original possui. Qualquer coisa acima da média dos originais de Belinha (algo como 2 versos, estourando) passa a cordinha. E além do mais, são quebras e quebras. Um verso decassilábico fora da cesura, como um acentuado na 5, não é a mesma coisa que um verso hendecassilábico, o que é bastante óbvio mas que deve ser seguido de perto no sentido de que, se o original possui um emaranhado de pés diferente do esquema jâmbico, o ideal é que se embaralhe as cesuras da tradução, e não que se estenda a medida, caso em que um verso de onze ou doze sílabas poderia entrar e ser acentuado de maneira análoga ao original.

Outro aspecto é o dos enjambements, que não podem ser domados em versos comportados. Mas, das traduções que conheço, não conheço nenhuma que tenha passado o trator em cima disso. Há também o aspecto dos jogos linguísticos, referências sacras ou parecidas que, mais uma vez, não conheço ninguém que tenha ignorado. Mesmo porque Belinha não foi muito disso. Um dos poucos casos é o do presente soneto 38, verso 10, em que a autora diz: "O beyond meed!", trocadilho entre meed-mead. Nosso "gozo" é sempre uma opção nessas horas. E há, no soneto 22, minha homenagem a Manuel Bandeira, primeiro desbravador de Belinha no país com suas incontornáveis paráfrases: isto é, minha solução de verter "bitter wrong" em "mal sem mudança".

E assim, pesado o fato de que, em meu encontro passado com Belinha, minhas traduções possuíram problemas especificamente métricos, é que me reencontro com a autora e busco pôr os pingos nos i's.  Não quero desmerecer, jogar no lixo meu antigo encontro, pois ainda creio que ele possui seus méritos. Mas não posso negar seus problemas, posto que a banda não pode parar e a retroescavadeira continua ligada. Voltaremos a falar dela daqui a pouco. Fique em suspenso um pouquinho.


(Como vários autores de sua época, Vincent declamava muito bem. O leitor pode ouvir um de seus mais célebres sonetos, Love is not allaquiCréditos.)

A vida de Vincent é mais animada. De inválida ela não tinha nada. Viveu uma consistente boemia, foi uma mulher à frente de seu tempo. Ou, melhor dizendo, ela pôde ser uma mulher à frente de seu tempo. Como disse no texto introdutório aos 8 sonetos da autora, sua vida foi muito parecida com a vida do nosso Poetinha, com a diferença, é claro, de que Vincent não cultivou nenhum ranço machista. Mas o resto, especialmente no que tange a vida tortuosa e a poesia com feições clássicas, o que a escolha privilegiada do soneto só atesta, está aí, claro demais pra não ser observado.

Vincent nasceu em 1892. Sua mãe cuidou de três filhas sozinha, visto que o marido a abandonou em 1899 (bem o contrário de Belinha, filha de um rico agricultor anti-escravocrata que chegou até a dar uma bambeada das pernas economicamente, mas que nunca arredou o pé de casa — infelizmente). A mãe de Vincent, Cora, sempre encorajou suas meninas a irem fundo, baterem de frente sem medo de serem felizes. Essa mesma Cora que se mudava e se mudava, carregando um baú abarrotado de literatura clássica. E tanto é que o primeiro poema de Vincent, Renascence, título pra lá de significativo, entrou num concurso do The Lyric Year graças à insistência de Cora. Recebeu o quarto lugar, sendo publicado em 1912. Obteve uma boa crítica durante a época. Principalmente por só ter recebido o quarto.

Em sua vida escolar, Vincent se relacionou com muitas mulheres, iniciando uma longa jornada sexual (era bissexual, na verdade). Em 1917 o livro Renascence and other Poems era publicado, e em 1921 a peça em versos The Lamp and the Bell, sobre o amor de duas mulheres, estreava. Mudou-se para um subúrbio de Nova York onde consolidou sua famosa boemia, em meio à penúria e, segundo seus amigos, à mais sincera alegria. Frequentou ativamente os círculos literários da cidade, e em 1920 publicou A Few Figs from Thistles, que gerou um bafafá graças às descrições explícitas do vocês-sabem-o-quê e por sua tônica feminista. Em 1923, seu livro The Harp Weaver recebia o prêmio Pulitzer. Nesse mesmo ano, casava-se com Eugen Boissevan, viúvo e feminista proclamado. Viveram um relacionamento aberto até a morte de Boissevan em 1949 e a de Vincent, em 1950, caída da escada e encontrada oito horas após sua morte.


(Vincent e Bossevan em frente à sua casa em Nova York. Créditos.)

O soneto praticado por Vincent é um mais livre. Ela tanto praticou o modelo inglês quanto o italiano. Mais uma vez a comparação com Vinicius está presente, com a diferença de que Vincent foi um pouco menos ortodoxa que o Poetinha (que nem era ortodoxo; era músico). Não muito. Os índices de ruptura são um pouco maiores que os de Belinha. Algo perto de 2, 3 versos "defeituosos" por poema. Entre aspas pois a coisa não é bem assim, e, na maior parte dos casos, esses versos que desviam do padrão são muito bem pensados.

As rimas em Vincent possuem distribuição parecida com as de Belinha. O estilo não conta com os mesmos enjambements nem com a mesma construção tortuosa, cheia de surpresas. Caminha entre o sapiencial, entre a superação e a imersão na carnalidade, sempre conduzido por uma coloquialidade e por uma comunicação direta, cara a cara.

Dos oito sonetos anteriormente traduzidos, via de regra creio que os traumas foram menores. 25% dos versos fora do padrão, ou cerca de 20% (pois a gaita galega é sempre um efeito muito bom de se contar), está mais ou menos aceitável. Basicamente o que busco manter aqui, ao contrário de anteriormente, é, digamos, uma sobriedade ainda maior e um passo-a-passo com o original também maior. Mas nem tanto. Como disse, Vincent foi mais livre; não se ateve a um modelo específico de soneto. Logo, como não paira sobre ela uma égide camoniana tal qual a de Belinha, eventualmente sair do passo-a-passo é um problema de ordem menor. Assim sendo, por mais que à priori eu tenha buscado trabalhar o quesito das imperfect rhymes no sentido de colocá-las, na tradução, na mesma posição em que aparecem no original, nem sempre isso foi possível, pois, de resto, é um aspecto muito pequeno e que pode ser correspondido de outros modos. Tanto numa perspectiva quantitativa (o número de rimas parciais, com a escala rímica na mão, do original) quanto em distribuições análogas, ou manejando a própria escala rímica de maneira distinta em Belinha e em Vincent.

A coloquialidade foi buscada, com exceção dos casos em que Vincent usa-se do thou (na maior parte dos casos, ela usa o you). E com a devida ponderação, pois, apesar de prosaica, Vincent é reconhecidamente clássica, com uma linguagem às vezes comparada (num certo exagero) à de Shakespeare, Dryden e Pope. A descrição metafórica e paisagística que faz, o que me lembra muito o modo de construção dos sonetos de Oscar Wilde (aqui), assim como nos sonetos passados, buscou ser lida de modo muito atento, com todo cuidado do mundo na hora do vamos-ver. (A comparação entre Vincent e Wilde, que encontra raízes em Byron, ou seja, de cultivar a vida enquanto fonte estética, é sem dúvidas um caminho muito bom.)


(Em 1856, Barbara Bodichon, Bessie Parkes e Mary Howitt fizeram uma petição reclamando direitos iguais às mulheres e não apenas uma projeção calcada no de seus maridos. O documento contou com a assinatura de Belinha. Caso o leitor queira ler um pouco mais, aquiCréditos.)

Agora podemos ir aos finalmentes: por quê traduzir Belinha Barreto e Vincent juntas?

O patrono do soneto em língua inglesa é Shakespeare; mas tanto os sonetos de Belinha quanto os de Vincent são postos em nível de realização igual aos dO Bardo. Obviamente que possuem diferenças, mas obviamente que também possuem pontos de contato, para além da magnífica realização, como o fato de partirem de fatos corriqueiros e extraírem matéria-prima das mais poderosas. Além do fato de verem no Amor um modo de vida, uma existência mais simples, pura, grandiosa e reconfortante, uma existência universal que o percurso shakespeariano bem atesta, abordando desde a carnalidade da Dark Lady até o louvor sincero e o cortejo pacata e respeitosamente conflituoso com o Fair Youth.

No binômio Belinha-Vincent, a primeira característica é a de que Belinha viveu um amor "nos moldes antigos". Foi cortejada por um homem que se apaixonou profundamente por ela e ela se apaixonou profundamente por ele. Tradicional que seja esta forma de se pensar o amor, ela, obviamente, continua sendo válida, continua sendo linda. Mesmo quando Belinha é mais sensual, existe um decoro, uma dimensão de palavras não-ditas que, a meu ver, não indicam necessariamente aquele amor meio acanhado de nossos avós, mas um carinho bonito de se observar, como quando, no soneto 33, Belinha pedia para que Robert a chamasse por seu apelido. Ou seja: não é que os dois tenham vergonha de dizer às favas o que sentem; mas é que aquele modo de dizer é, precisamente, o como eles se amam.

Além do mais, os sonetos de Belinha possuem um lastro clássico que nem por isso se embalsama. Certo que, graças à técnica avançadíssima de construção, seus sonetos conseguem ser atuais sem muito esforço; mas o louvor do instante, do momento em que os dois estão juntos, mesclados a um amor universal e acima de praticamente tudo (bastando que se cite o soneto 43), fazem com que o namoro dos dois alcance nossos ouvidos e nos reconforte tantos anos depois. E faz com que, ao mesmo tempo que ela diz que Deus pode tanto enriquecê-los como empobrecê-los no soneto 24, ela possa proclamar um amor não necessariamente eterno, que negue a Morte, mas que possa conviver com esta incômoda certeza sem problema nenhum, conforme dito no 22. E só esse tipo de afirmação, mais uma vez posta ao lado do soneto 43, já é o bastante pra que se perceba a sinuosidade da obra toda. Mas uma sinuosidade, assinale-se, antevista na estrutura total e raramente dentro do soneto.

É o caminho contrário dos sonetos de Vincent, vida muito mais atribulada. São mais abertamente sensuais. E também proclamam um amor... Eterno? Como disse em minha introdução aos oito sonetos da autora, o "eterno enquanto dure" de Vincent já acabou. Conforme ela mesma dirá, a lembrança deste amor irá durar enquanto durar um cigarro. São sonetos que estão próximos do sentimento do indivíduo do século XX, fendido por dicotomias, e que fazem com que Vincent implique as contradições essenciais como Vida-Morte, Beleza-Efemeridade na estrutura de sua argumentação, na fissura dos versos.

Vincent aposta numa carnalidade que não chega a depender exatamente da eternidade, pois ela tem dentro de si o solene sentimento de morte. É uma carnalidade cuja sobrevida existe na lembrança, o mergulho da fonte estética, da fonte de prazer mais poderosa e embriagante que pode ser apagada nas idas e vindas da anônima turbulência amorosa. Fica claro que é algo mais "moderninho", mas também fica claro que é a típica busca moderna pelo etéreo que apareceu com tanto esplendor na obra de Belinha.

Tais pontos de convergência e de divergência, espero, são demonstrados na sequência de sonetos aqui apresentada. Se me é possível falar numa trajetória tradutória, ainda mais aqui no bloguinho, onde isso tudo veio, vem e virá tão bagunçado (ou seja, tenho traduções antigas que ainda vão ser publicadas), posso dizer que meu empreendimento de traduzi-los é uma espécie de marco. Marco de seriedade, de compromisso, sem querer dizer, é claro, que os resultados passados foram trabalho de moleque ou feito pelas coxas. Longe de mim. Apenas que, com minhas traduções de Donne (aqui), e passando por Browning e pela ideia da escala rímica, o que era seriedade e paixão meio que dobrou, tornando o ofício da tradução um compromisso e, ouso dizer, uma bem fincada fonte de felicidade para quem não passa de um aprendiz.

O texto utilizado para os poemas de Belinha foi o do Project Gutembergaqui. Já os textos utilizados de Vincent advém do sonnets.org e do Digital Library Projectaqui aqui.






SONETO XXII.

Quando estamos em plena exuberância,
Face a face, calados e mais perto
Até que as asas se incendeiem perto
De cada curva — que mal sem mudança

Retira a paz da alma que descansa?
Pensa! Em se alçarem mais alto, o aperto
Do abraço angelical é p'ra decerto
Fazer que caia em nossa mudez mansa

Um orbe d'ouro de canções perfeitas.
Fiquemos, antes, por aqui, — bem onde
Às mazelas alheias são sujeitas

E isoladas as almas puras, — onde
As horas de amor serão satisfeitas
Em meio à treva e morte que nos ronde.

§

SONETO XXIV.

Deixe que o mundo assim como uma adaga
Se feche em si mesmo e não faça mal
A nossas mãos juntas, mais que o usual
Cálidas, nem que se ouça o que nos traga

A luta humana quando ela se apaga.
Vida a vida — me curvo a ti tal qual
Um encanto me guardasse do punhal
Vulgar que tanto ataca sem que traga

A ferida. Pois, inda branco, o lírio
De nossa vida pode assegurar
Seu florescer, por si só acessível

Aos orvalhos do céu, e ainda estar
Além do alcance. Só a Deus é possível
Tanto enriquecer quanto arruinar.

§

SONETO XXXVIII.

Quando primeiro me beijou, tão só
Beijou os dedos desta mão que escreve,
No que ela cresceu pura como a neve
E lenta às saudações banais, veloz

À voz dos anjos. E a ametista, após
Este beijo, mais pobre nunca esteve.
O segundo, contudo, não conteve
A ânsia e quis beijar o rosto, só

Conseguindo errar, indo até o cabelo.
Ó gozo! Esta é a crisma do amor, coroa
De doce santidade, a precedê-lo:

Terceiro beijo que se aperfeiçoa
Em minha boca e desde o qual dizê-lo
Eu posso: "Meu amor, meu ser em pessoa".






Somente enquanto dura este cigarro,
Um breve instante antes do fim total,
Enquanto as cinzas caem sobre o barro
E a luz do fogo, tão descomunal,

Une-se à música de modo bizarro
E faz dançarem sombras, eu afinal
Recordo meu passado e a ele me agarro,
Vendo que você deu-me o essencial.

E então adeus! — o sonho chega ao fim.
De teu rosto dá pra esquecer a cor
E os atributos, muito embora isto

Não se dê com teu riso e teu valor:
Para você, o agora é um sol visto
Nas colinas, após o sol se pôr.

§

Não, não és mais amável que as boninas
Nem mais que a madressilva. Teu encanto
Não é como as papoulas pequeninas —
Teu encanto eu suporto. E entretanto,

Se me curvo a ti, sem ter pra onde ir,
Lanço olhares aflitos aqui, ali —
Na névoa ou luar querendo fugir
De ti, como a mim mesma eu prometi.

Tal qual ele que dia a dia engole
O seu doce veneno a conta-gotas
Até que tome a morte de outros três,

Ainda assim, ébria, tomo num gole
Cada hora, mais intensa do que as outras,
E vivo — o que arrasou alguns de vez.

§

O que é a morte a quem não morrerá?
Você acha que o pulso que modela
E o dedo que empurrou o Nada pela
Tua garganta e tapou esse olhar

Vigoroso no rosto irá deixar
Rota, pisada e esquecida aquela
Parte invencível tua e à corruptela
Jogada, o que o iria eternizar?

Eu te digo: o que quer que pó a pó
Se vá, o que quer que das cinzas retorne
Ao íntimo de suas estações,

Encanto como o teu não vai se pôr,
Mas, posto numa urna que o adorne,
Se dirá Rei, e por boas razões.

§

Quando você, que agora me é mais caro
Que os versos no papel, se for embora
E não cuidar de mim, eu irei, por hora,
Guardar a mim e em mim achar amparo.

Não mais serei, como você, é claro,
O dia claro em que a excelência aflora
Próxima ao limbo, nem serei a demora
Do luar sobre o mar mil vezes vário.

Irei me lembrar só deste momento —
E chorar, como agora choro — o pathos
De teu amor que, como a flor temendo
A morte e amando os sonhos imediatos,

É derrubada e encara, consternada,
O vento que a desfaz, despetalada.

§

Aqui: uma ferida que não sara.
Sei que não vem da morte ou do carinho,
Mas de um amor que há pouco abandonara
Sua beleza. Sei que em meio ao espinho

Não nascem rosas, mesmo que a seara
Seja plantada ou o céu legue um pouquinho
De suas chuvas: ainda que o legara,
É longe a dor amarga em seu caminho.

Aquele Abril, que a ventania esmague
E aquele Agosto a tempestade afogue.
Posso aguentar que estas lufadas todas,

Humanas, novamente a terra trague;
Mas que o sonho morra!, faz com que eu afogue
Num ardor para sempre em minhas coxas.




Da mesma lavra, da mesma proposta e método de execução, mais dois sonetos de Belinha Barreto, pra fechar o 5x5.



SONETO XV.

Não me acuses de usar face tão calma
E triste face a ti — aparentamos
Ser de dois modos, e assim não brilhamos
À luz de um mesmo sol que em nós se espalma.

Olhaste para mim com toda a calma
Da abelha na crisálida. Mas, no tálamo
Da angústia presa ao deus do amor, os ramos
Suplantar não posso, e, se o tento, a alma,

Ave que suas asas vai abrindo,
Falha. Olho pra ti — pra ti — defrontando,
Frente ao amor, o fim do amor, e ouvindo

Lá na frente a memória se apagando
Como quem senta, apenas refletindo,
Sôbolos rios rumo ao mar nefando.

§

SONETO XVI.

E porém, porque tu sobrepujaste,
Porque tens mais nobreza que um monarca,
Suplanta meus temores e me abarca
Até que meu peito jamais se afaste

Do teu e nunca mais saiba o contraste
De quando era sozinho. Pois que um marco
Da conquista comprova aquele arco
De glória à coisa erguida e o desgaste

Da coisa envilecida! E, à maneira
De quem rende a espada a quem o ergue
Da terra em sangue, assim, Amor, à beira

Do fim dou fim à luta. Mas se por
Teu chamado eu vier a me erguer, ergue
Teu amor pra que ele erga meu valor!

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