Wallace Stevens (1879 - 1955).



Q
ue Stevens é um poeta difícil, descubra por si mesmo.

O que não quer dizer que se trata de um poeta a ser evitado, ou um poeta turbinado graças apenas aos comentários dos iniciados em literatura. Como diz James Longenbach em entrevista ao The New York Times de fevereiro de 2012, não devemos tratar os poemas de Stevens, e de maneira geral qualquer poema, como uma grande incógnita ou quebra-cabeças, mas sim como uma espécie de morada: os bons poemas são feitos para serem habitados. E de fato, como nos diz Paulo Henriques Britto em introdução a uma coletânea de poemas traduzidos do autor (infelizmente há muito esgotada), por mais que julguemos não entender o que Stevens quis dizer com determinado poema, existe ali, todavia, uma força, um algo secreto que nos diz secretamente: entendeste. É difícil chegar às raízes sobrenaturais do que seria esse "algo"; é possível que seja simplesmente o caráter genuíno daquilo que nos é apresentado, seja ele a situação banal de um homem tocando violão, seja ele o espetáculo da natureza das auroras boreais de outono... A poesia de Stevens nos permite ver o particular, nos permite ver o mundo de uma maneira única.

E é bem por aí que Stevens quer chegar. Simon Critchley, em Things merely are: philosophy in the poetry of Wallace Stevens (Routledge, 2005), nos fornece um resumo bem prático do pensamento de Stevens em 21 proposições. Vou tentar resumir ainda mais. Basicamente, a poesia é a descrição de uma coisa em particular (proposição 1), isto é, ela é contra aquilo que generaliza, vale dizer, ela traz as coisas como realmente são de maneira um tanto quanto mágica, visto que ela o faz apenas pelo som das palavras (prop. 2). Mas não quer dizer que a poesia retrate as coisas de maneira objetiva, pois, pelo contrário, ela retrata as coisas de maneira imaginária (prop. 3), ou, de forma bem resumida (prop. 5): "Poesia é vida com raios do poder da imaginação passando por ela.", ou "Poesia é a imaginação tocando a realidade." (p. 8)

Como se pode ver, a imaginação é um conceito fundamental na poesia de Stevens. No ensaio The Noble Rider and The Sounds of Words, incluso em seu livro de ensaios The Necessary Angel: essays on reality and imagination (Alfred A. Knopf, 1951), Stevens, pensando a passagem de Platão no Fedro em que Platão nos fala de um barqueiro e um anjo alado, discorre acerca da realidade e da irrealidade e, por conseguinte, da imaginação, chega a afirmações luminares, como a de que "Realidade é vida e vida é sociedade e imaginação e realidade, vale dizer, a imaginação e a sociedade são inseparáveis." (p. 28; cito também, a respeito de imaginação e realidade, "Não é só que a imaginação adere à realidade, mas, também, que a realidade adere à imaginação e que esta interdependência é essencial.", p. 33) ou a de que a função do poeta "Certamente não é a de levar as pessoas fora da confusão em que se encontram. Nem é, penso, em confortá-los enquanto levam seus leitores pra la e pra cá. Penso que sua função é fazer de sua imaginação a deles e para que ele cumpra a si próprio só quando ver que sua imaginação se tornou luz na mente dos outros. Seu papel, em suma, é ajudar as pessoas a viverem suas vidas." (p. 29)

Em tal processo imaginativo a metáfora ocupa um papel central, pois esta, "a criação de uma semelhança pela imaginação" (p. 72 do ensaio Three Academic Pieces, do mesmo livro), é o mesmo que dizer: vida (p. 73). Creio que é certamente graças ao processo metafórico unido ao processo imaginativo que Stevens pode enfrentar não só a excessividade enceguecedora do mundo, mas também aquilo que Harold Bloom denominou de "metaphorical tradition of the 'blank'" (em sua Introdução ao Modern Critical Views dedicado a Stevens): isto é, de que Stevens, como antes vários poetas como Milton, Coleridge, Emerson ou Dickinson, se depararam com o Branco.

Creio que minha seleção de poemas pode dar relevo a tais aspectos ao leitor. Você irá encontrar desde poemas do primeiro livro de Stevens, Harmonium (1923), de um frescor nunca mais alcançado em sua poesia (conforme diz Paulo Henriques Britto), até os momentos mais graves e filosóficos de sua última fase, representada aqui por poemas retirados de Parts of a World (1942) e de The Rock (deste último, o poema The river of the rivers in connecticut, penúltimo do Collected Poems do autor, de sobriedade e lucidez impressionantes). Seria o caso, por exemplo, do leitor comparar os três primeiros poemas traduzidos abaixo, leves e soltos (e de onde destaco o segundo, a meu ver um dos mais belos poemas de amor jamais escritos), com a densidade filosófica de The pure good of theory e sua capacidade de converter experiência EM linguagem, conforme nos diz Edward Ragg em Wallace Stevens and the aesthetics of abstraction (Cambridge UP, 2010).

Divirtam-se.

Sobre as traduções...

A métrica das traduções buscou seguir o original, com o decassílabo heroico para o verso de cinco pés, o octossílabo para o de quatro, o hexassílabo para o de três etc. Mas existem rupturas. No poema The pure good fo theory, por exemplo, temos 4 decassílabos gaita moinheira, 13 versos alexandrinos (1 deles com cesura na 7) e 2 versos hendecassílabos.

Contudo, isto não deve ser visto simplesmente como defeito, apesar de ser uma verdade, como já notava Onestaldo Pennafort ao traduzir Romeu e Julieta, que, posta abaixo a disciplina da rima, é comum que a disciplina da métrica ou da unidade de sentido do verso também seja posta abaixo. Desta última disciplina, a da unidade de sentido, Onestaldo quer dizer: em traduções de versos brancos, e em versos brancos de forma geral, é comum que se use e abuse dos cavalgamentos. Um perigo verídico que em minhas traduções não pude me furtar de incorrer. Pois, observando o verso como praticado ao longo dos anos, é interessante notar como o cavalgamento é uma exceção, mesmo nos versos livres. No caso dos modernistas de língua inglesa, basicamente só Moore e Carlos Williams se valeram do cavalgamento, Moore bem mais do que Williams. Em Stevens ele é raro. Mas ocorre, e o leitor poderá observá-lo em especial em The well dressed man with a beard. Em minhas traduções, como disse, tive que me valer do cavalgamento aqui e ali, às vezes numa situação mais excessiva que do original, que seria, a saber, os cavalgamentos entre estrofes: por exemplo, entre a terceira e a quarta estrofe de The river of the rivers of connecticut. Ou entre a sexta e a sétima estrofe de A post-card from the volcano. (Deste, Eleanor Cook em A reader's guide to Wallace Stevens, Princeton/Oxford UP, 2007, se refere a seus "intricately rhymed tercets"; não consegui nem de longe perceber qualquer coisa do tipo no original; de todo modo, fiz por bem traduzir tendo um olho na criação de uma espécie de cadeia de sonoridades escondidas). Sendo assim, os cavalgamentos que vocês notarem provavelmente são adição minha, configurando, por conseguinte, um defeito.

Voltando à vaca fria das variações métricas, o que deve ser sopesado é que, conforme estudos de William Judd (ou, em vias transversais, em textos como Prosody and Outside: some notes on Raskosi and Stevens, de Kent Johnson na Jacket Magazine), a base da poesia de Stevens é o blank verse calcado no iâmbico. Mas isso não quer dizer que Stevens tenha sido um poeta muito ferrenho neste aspecto, dado que trabalhou com as variações de maneira inteligente ao longo de sua carreira, e isso mesmo em seus últimos livros, onde existe uma grande variedade métrica posta ao lado de estruturas estróficas mais fixas, como seria o caso de The pure good of theory ou de textos como Notes toward a Supreme Fiction. É, bem se pode ver, um trabalho eminentemente moderno no que tange não digo a ojeriza às formalidades ou ao clássico (essa suposta ojeriza é uma das maiores mentiras já contadas se observarmos a poesia moderna de forma mais ampla), mas no que tange as potencialidades de trabalho do que Kent Johnson muito bem denomina "marked peridicities of iambic rythm".

Por fim, outro cuidado de minha parte se deu no que tange os termos usados por Stevens, em especial aqueles que simplesmente não podem ser substituídos, como "metáfora" em The pure good of theory, e dando também uma atenção maior para aqueles que se repetem (e mais uma vez podemos citar o caso de The pure good of theory). Alguns detalhes formais e linguísticos dos poemas de Stevens, tendo como ajuda principalmente o texto de Eleanor Cook, também buscaram ser traduzidos. Por exemplo, no título The pure good of theory, Eleanor Cook nota a ambiguidade do termo "of", vale dizer, podendo ser subjetivo e objetivo, como no caso de seu exemplo "The love of X" (O amor DE X) que pode ser tanto o amor de X por Y quanto o amor de Y por X. E é por isso que a autora diz (p. 320): "Is theory in and of itself a pure good, as in some Platonic realm of Ideas? Or is this some person’s sense that theory can be a pure good? (The adjective complicates things, by raising the question of whether some theory is relatively good, while Theory is purely good.) Again, the quiet work of a preposition catches the interaction of outside and inside."

Para citar outro exemplo, no poema The well dressed man with a beard, o uso que Stevens faz do Sim e do Não como substantivos e como penetras, digamos assim, em expressões como "No more than" também buscou ser transposto, de modo que qualquer expressão que não fosse algo como "Não mais que" simplesmente não servia. E, para citarmos um terceiro exemplo de peculiaridades linguísticas, cito o uso do "the" bem como sua ausência (o mesmo servindo para o termo "a"), fato que ganhou minha atenção em The pure good of theory. Veja-se, deste, a sexta estrofe da segunda parte: o original diz "(...) A capable being may replace / Dark horse and walker walking rapidly." A supressão, de minha parte, dos artigos, o leitor pode ver, possui total respaldo no original ― mas nem sempre foi assim, e para tal basta que o leitor observe a próxima estrofe da mesma parte: "(...) Time is the hooded enemy, / The inimical music, the enchantered space".


DA SUPERFÍCIE DAS COISAS.

I.

Em meu quarto, o mundo é além de meu entendimento:
Mas quando saio vejo que consiste em três ou quatro colinas e uma nuvem.

II.

De minha sacada, inspeciono o ar amarelo,
Lendo o que escrevi,
"Primavera: mulher despindo-se."

III.

A árvore dourada é azul.
O cantor pôs a capa na cabeça.
A lua está nas dobras da capa.

§

DUAS FIGURAS NUMA DENSA NOITE VIOLETA.

Quis que o porteiro do hotel fosse me abraçar
Pra já não ter mais nada do luar
Que não tua mão úmida.

Seja pra mim a voz noturna e Flórida.
Use imagens e frases turvas.
Escureça a voz.

Fale como se eu não tivesse ouvido,
Mas fale pra você em minha mente
Palavras concebidas

Como a noite concebe o mar, calada,
E, fora de seus próprios silvos, faz
Uma serenata.

Diga, ingênua, que as águias pousam nos poleiros
E dormem com um olho vendo estrelas cadentes
Sob Key West.

Diga que as palmas são puras e azuis,
Puras e obscuras; que isto é noite;
Que a lua brilha.

§

TEORIA.

Sou o meu redor.

As mulheres sabem.
Não se é duquesa a
Cem metros da carruagem.

Estes, então, são retratos:
Vestíbulo preto;
Cama alta abrigada por cortinas.

Estes são apenas exemplos.

§

UM POSTAL DO VULCÃO.

Crianças catam nossos ossos
E não saberão que eles foram
Ágeis quais raposas monteses;

E que no outono, quando o odor
Da uva aguçou o ar agudo,
Estes foram, passando frio;

E pensar que com eles deixamos
Muito mais, deixamos as coisas
Como ainda são, e o que sentimos

Quando as vimos. As nuvens sopram
Sobre mansões fechadas, frente
Ao portão a ventania grita

Um desespero literário.
Sabíamos bem da mansão
E o que dissemos dela virou

Parte do que ela é... Crianças,
Tecendo ainda auréolas flóreas,
Dirão o que dissemos, sem

Saber, dirão que a mansão tem
Algo que ali vivera embora
O espectro nas paredes brancas,

Uma casa em meio a ruínas,
Rasgo de sombras, cume branco,
Suja do ouro do sol esplêndido.

§

A POESIA É UMA FORÇA DESTRUIDORA.

É o que é a miséria é:
O coração vazio.
É um ter ou não ter.

É uma coisa a se ter,
Um leão ou cordeiro
No peito. Respirando.

Corazón, cão imenso,
Novilho, urso arqueado,
Prova sangue e não cospe.

Ele é como um homem
No corpo de uma besta.
Os músculos são seus...

O leão dorme ao sol.
Nariz e patas juntos.
Pode matar alguém.

§

O BARBUDO BEM VESTIDO.

Após o não final irrompe um sim
E é deste sim que o amanhã depende.
Não era a noite. Sim, o sol de agora.
Se as coisas rejeitadas e negadas
Deslizam da cascata ocidental,
Uma, uma só, só uma era firme,
Não maior que a asa de um inseto, não
Maior que a ideia o dia todo elaborada,
Fala de si mesma que a si mesma sustenha ―
Uma só coisa que restar segura
Bastava. Ah!, douce campagna de tal
Coisa! Ah!, douce campagna, mel na alma,
Verde no corpo, além das frasezinhas
E do que cremos, ó coisa afirmada:
A almofada a zunir quando alguém dorme,
A auréola sobre as casas mais humildes...
Nunca está satisfeita, a mente, nunca.

§

O PURO BEM DA TEORIA.


I. Todos os Prelúdios à Felicidade.

É o tempo que bate no peito e é o tempo
Que bate contra a mente, muda e altiva
E que se sabe morta pelo tempo.

Tempo é corcel à solta em nós, corcel
Sem cavaleiro numa estrada à noite.
A mente senta e escuta ele passar.

É alguém que anda com pressa. É o leitor
Na janela após ter lido seu livro,
Contando as horas pelo tardar dos sons.

E mesmo o alento é como que o ritmo do tempo:
Um retardo de seu ritmo, um corcel
Estranhamente tenso, um caminhante

Como sombra na terra-média... Pondo
Alguém livre do tempo, escultural, platônico,
E dando a ele o que dizer não pode,

Uma forma, então, salva do ritmo, matura:
Um ser passível de ser substitui
Caminhante com pressa e corcel negro.

Felicidade, ah! Tempo é capataz,
Música hostil, espaço encantador
Em que os prelúdios encantados têm lugar.


II. Descrição de uma Personalidade Platônica.

Então vem do Brasil nutrir a pálida
Romântica que sonha o seu averdupois,
Verde vão de serpentes como um rio insano.

Verde vão e hotel, mundo do futuro
De onde as memórias já foram embora
De tudo, emblema alado da nudez,

Emblema alado acima dos hotéis.
Mas lá, no verde vão, havia um inválido
E sob aquele lenço, austero, indício,

Um personagem de fora da solidão
Que era quem sempre esteve e estivera,
Que deita-se pra Oeste do oceano,

Doente de questões como doenças,
Doente de questões em sua mente,
Infeliz de sentir felicidade.

Isto era ― um senso além da inteligência?
Pode o futuro estar no senso e estar além
Da inteligência? E o agora, onde ele está?

Este platônico encontrou um ser
No mundo e o estudou em seu hotel.
Era um Judeu da Europa. Ou já foi um.


III. Monstros-de-fogo do Encéfalo-Lácteo.

Homem, que não nasceu de mulher, mas do ar,
E chega em carruagem solar, como
Retórica nas fábulas dos olhos ―

Seu parente devia ser divino,
Adão de alta patente que, de Elysia,
Deturpara a metáfora da aurora

Enquanto o orvalho era ouro. E fez a aurora,
Dormindo. E acordou numa metáfora: esta a
Metamorfose do céu, deturpado,

E o próprio mundo era um céu deturpado...
Agora, o ouvido atende à variação
Desta música pobre, a chave, outra,

Não detectada quando virou outra,
E, agora, a atender à árdua diferença.
Dizer que a carruagem solar é lixo

Não é uma variante, mas um fim.
Dizer, porém, que o mundo é uma metáfora,
É aderir-se ao conteúdo da mente

E o desejo de ter fé na metáfora.
É aderir-se ao melhor saber da fé,
O saber que se tem fé no que é falso.


IV. Pássaros Secos Pairam na Folhagem Azul.

Nunca a coisa: a versão da coisa, apenas.
O perfume da amada e não a amada,
Ela em si mesma e não o bloco sólido,

O dia em sua cor e não o tempo,
O tempo e seu clima, senhor de nós todos,
O clima em verbo e o verbo em sons do som.

Tais devastações são a distração
Da alma destruidora que entra num buraco
E chora para que os filhotes cheguem,

E salta pra trás, sendo larga, e, no pó
Sendo pequena, grava alfabetos ferozes,
Moscas como morcegos quando voam

De asas abertas, abarcando a noite;
E nunca mudam, bestas da luz, tristes,
Em guturais pela metade, o anseio

Por suas partes, o último anseio
Pelo último acesso a suas partes ―
O acesso como a página de um livro louco

Tocado pela chama universal
No instante em que lemos, redizemos
A eloquência dos poderes da luz.

§

O RIO DOS RIOS EM CONNECTICUT.

Neste lado do Estige há um grande rio
Antes de se ir às negras cataratas
E árvores sem a inteligência de árvores.

Neste lado do Estige, o simples fluxo
Das águas é contente, cintilando
E cintilando ao sol. Em suas margens,

Nenhuma sombra anda. Fatídico, o rio
É como o anterior. Mas sem barqueiro.
Ele não pode se curvar à força

Propulsora. Não é pro além das aparências
Que se conta. Luzente, o campanário de
Farmington. O de Haddam brilha e oscila.

Três as coisas comuns ao ar e à luz:
Currículo, viço e abstração local.
Chame-o de novo, rio, fluxo anônimo,

Repleto, refletindo as estações,
Folclore de seus sensos; chame-o, chame-o,
Rio que corre ao nada, como o mar.

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