e. e. cummings (1894 - 1962).



cummings nasceu em 1894, eua. morreu em 1962. além de poeta, ou talvez por ter sido poeta, quem sabe, foi muita coisa. o principal, contudo, não podemos nos esquecer: foi uma pessoa extremamente simples. um camarada até certo ponto rústico, que, dizem, ainda usava lamparinas ali pra metade do século. é que, avesso ao progresso, preferiu a surdina. foi, por exemplo, durante a 1gm, preso num campo de concentração. o estardalhaço que fez foi com as palavras.

aí sim é que entramos num terreno espinhento. cummings é dos poetas mais insolitamente ricos e originais de toda a tradição ocidental. não quer dizer que os outros também não sejam, é bom que se frise para que não caiamos em julgamentos parciais para com aqueloutros que não dispõem de uma pirotecnia evidente. quando digo que cummings é um autor insolitamente rico e original, me refiro em especial ao fato de que ele foi pouco imitado ao longo dos anos. não vou entrar aqui tanto nas razões disto; fique, por enquanto, posta tal afirmação. daqui a pouco voltamos nela.

o leitor que abrir um poema de cummings, e é o resumo de onde quero chegar, vai bater de cara e saber que aquilo ali é cummings. é como você ler um poema de marianne moore ou augusto dos anjos. ou emily dickinson. a pirotecnia é tão característica que não tem jeito de você confundir.

ao mesmo tempo, contudo, pelo fato da pirotecnia ser tão grande, temos que tais autores podem ser um pouco indigestos. é quando começa a incompreensão, pois você olha um poema de cummings e pensa: "mas isso é poesia?" a poesia de cummings nos dá a nítida impressão de que tem algo faltando, ou de que nossa atividade é mais a de decifrar um quebra-cabeças que de fato ler, fruir. e outra razão para o fato dele ser insolitamente rico é o fato de que ainda hoje ele produz tais reações e impressões.

primeiro de tudo é importante lembrar que cummings foi um poeta simples. e não sou eu quem está falando isso: é richard ellmann. como é possível? observe os poemas de cummings que você vai perceber. não existe aquela babel de eliot ou pound. não existe o intrincado processo metafísico de rilke. cummings fala de flores, de gafanhotos, de estrelas. é um poeta simples. pode ler e conferir. e é aí que, a meu ver, reside sua maior grandeza. pois os temas que cummings fala são os que todos nós falamos. ele não é um poeta que galga um degrau acima de complexidade, ponhamos assim, e passa a falar de grandes questões ou tudo isso. ele vai falar do que centenas de milhares de poetas ontem e hoje, neste exato momento estão falando. mas consegue a proeza de falar daquilo de tudo de maneira única. e de tal maneira que cria uma constelação própria. um universo próprio. só que um universo próprio permeado de coisas que também fazem parte intimamente do nosso. e é por isso que eu gosto de colocar cummings ao lado de emily dickinson, pois a pirotecnia dos dois, associada à temática simples dos dois, bem como à construção de uma obra poética mais do que a disposição de poemas muito marcantes (pois nem cummings nem dickinson possuem um poema que se destaque demais do resto), é  genuína, sincera.

claro que muito do que eu disse pode ser problematizado, uma vez que essa coisa de temas mais ou menos complexos é muito relativa. grosso modo, os poetas estão sempre falando das mesmas coisas, e, dentro da estrutura complexa ao quadrado dos cantos do velho pound, você vai encontrar momentos luminosos de metáforas relativas à natureza que se embebem na tradição oriental mais límpida (em especial nos cantos pisanos). assim, coisas como ser simples, falar do mundo que na verdade é nosso mundo... isso está em toda poesia. entende-se que cummings é muito bom pois ele, como todo poeta muito bom, cria um universo poético capaz de rivalizar com o mundo.

não é a única razão, todavia. cummings é bom pois consegue criar uma linguagem capaz de rivalizar com a linguagem do mundo também. assim, quando você começa a ler mais sobre o funcionamento da poesia, vai ler muito que o terrorismo poético é peculiarmente um terrorismo linguístico. cummings, não preciso nem dizer, foi uma das peças-chave na jornada da poesia ao longo do século xx, desarticulando a linguagem e a expondo com aquilo que seus poemas, já ressaltamos, nos demonstram de forma muito clara: as tripas da poesia.

aqui já podemos voltar ao quesito de cummings ter sido pouco imitado. de certa maneira, a técnica dos poetas modernos é difícil de ser imitada pois elas não só se tornam cada vez mais idiossincráticas, como, aos poucos, vão se pautando em panoramas maiores de imitações/pastiches ou simplesmente atuam no sentido de arrancar a tampa. em cummings podemos ver especialmente o primeiro e o último processo, ouso dizer que mais o último. o segundo seria o processo de grande parte da geração de 22, sem exclusão dos momentos mais inventivos como o miramar de oswald ou o macunaíma de mário (que, na verdade, chegam a mesclar os três).

assim, por mais que tomemos o caso do bandeira que foi lá e imitou cummings, o que pudemos ver é que o poema do bandeira foi quase que totalmente devorado pela obra de cummings. não o foi totalmente pois bandeira não deu bandeira e foi poeta maior e seu poema está bem incrustado em sua obra, de modo que, pra me valer de uma imagem, a obra de cummings, querendo fagocitar aquele poema pra dentro da sua, teria que fagocitar a de bandeira toda, tarefa essa, é claro, impossível (pois os dois são grandes poetas), resultando, no final das contas, numa intersecção enriquecedora entre ambos.

a lição de cummings, sendo assim, não é a de ser imitado (e por isso os poetas insolitamente ricos costumam ensinar mais para os poetas novos). é a de que os poetas apreendam os processos de sua poesia e consigam retirar o melhor que ela tem a oferecer. e é nesse sentido que a vanguarda concretista se saiu muito bem, pois, ao invés de imitar cummings, eles retiraram o que de melhor ela tinha a oferecer, vale dizer, a desmontagem da linguagem poética de maneira a revelar seu funcionamento interno: ou seja, a linguagem ligada à sua máxima voltagem, onde até mesmo espaços em branco e pedaços de palavras conseguem ser uma carga semântica tão (na verdade, mais) forte quanto a discursividade corriqueira.

nos sonetos que apresento aqui o leitor vai poder perceber bem onde quero chegar. ainda nem tanto, pois existem poemas de cummings mais radicais, muito mais radicais que os sonetos que aqui apresento. todavia, a presença maciça de sonetos na obra de cummings é digna de nota, de modo que decidir focar em tal aspecto.

assim sendo, você vai poder observar a sintaxe tortuosa, os jogos de palavras, a disposição do soneto, a simplicidade dos temas que são tratados, sem a argumentação muitas vezes complexa que a estrutura silogística do soneto apresenta... é sério, tá tudo aí. richard ellmann estava realmente certo quando dizia que cummings era um poeta simples. a persistência no soneto é só um exemplo que o reforça essa característica que por si só é mais uma razão da genialidade de cummings, ou seja, o poeta que conseguiu tornar o simples numa coisa complexa não no sentido de tornar o simples difícil, mas no sentido de tornar o simples em algo único, irrepetível.

sobre as traduções, eu vou destacar o primeiro soneto, que recebeu uma linda paráfrase de manuel bandeira e uma ótima tradução de ivo barroso. tradução esta de barroso, inclusive, de grande importância em sua vida, pois foi com ela que barroso granjeou a simpatia de mário faustino. destaco também o empreendimento tradutório de augusto de campos, um verdadeiro patrono não só da tradução poética em solo nacional, como de cummings em específico. não tive acesso à edição mais recente de suas traduções; tenho aqui comigo a de 40 poemas; assim, não sei se dos sonetos que traduzi, augusto traduziu alguns.

minha estratégia foi a de ficar atento às especificidades da poesia de cummings acima apontadas. se o leitor, escandindo o poema, encontrar versos com cesura fora do lugar ou versos de 11 ou 12 sílabas no meio dos decassílabos, que o leitor saiba que tais defeitos possuem respaldo no próprio cummings. (mas não abusei de tal efeito, fiquem tranquilos.) o mesmo pode ser dito da rima, de grande complexidade e que buscou ser traduzida num esquema de aproximações consonantais e não vocálicas (assim, inventando um exemplo qualquer, pra rimar com "refrigerante", vou preferir "tenta" ao invés de "falange", ou seja, algo como embaralhar, adicionar um ruído aí no meio). quanto à dicção, busquei ser o mais simples possível, o mais direto, o mais claro. inclusive, em alguns momentos, pus na cabeça um cummings caipira e fui em frente, sem, é claro, me esquecer que cummings era especialista em literatura clássica. o mesmo posso dizer da tentativa de traduzir um cummings anacronicamente próximo do internetês. coisas assim que, me desculpem mesmo, mas não resisti.

os textos foram retirados daqui, daqui e daqui. um texto danado de bom sobre os sonetos de cummings é este, dissertação de david g. mead que, no final das contas, acaba provando o óbvio: cummings foi o maior sonetista do século xx. outros tradutores que também traduziram sonetos de cummings foram, além de Augusto de Campos, o grande tradutor de cummings no Brasil, Manuel Bandeira e Ivo Barroso, que traduziram, ambos, o soneto it may not always be so (que incluo junto a minha postagem), Gil Pinheiro, para a Musa rara (aqui), Jonathas Duarte, numa tradução absolutamente esplêndida (aqui), e Anderson Lucarezi (aqui), que inclusive traduziu também o soneto it is at moments after i have dreamed.


trad. eu.
ñ vai ser sempre assim; e vou além:
se tua boca, pela qual eu nutro
afeto, amar outra, e teus dedos a outro
acarinhar, comigo longe, meu bem;
se na cara d1 outro o seu cabelo
cair com a calma q só eu sabia,
ou q a alma acuada temeria
palavras do mais puro desmazelo;

se assim deve ser, e se esta é vc
dentro de mim, diz algo pelo menos;
q eu vou até lá só pra lhe dizer,
Parabéns, cara, olha, eu te saúdo.
E então me viro e escuto o importuno
canto de 1 pássaro longe de tudo.

*

trad. Manuel Bandeira.
em: Poemas traduzidos, José Olympio, 1956, p. 38
Não será sempre assim... Quando não fôr,
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando, um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se fôr trocando:

Se tal acontecer, fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei."

Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

*

trad. Ivo Barroso.
em: O torso e o gato, Record, 1991, p. 180-181.
talvez não seja bem assim; mas digo
que se teus lábios, que eu amei, beijarem
outro, e teus dedos fortes agarrarem
seu coração, tal como foi comigo;
se teus cabelos noutra tez roçarem
num silêncio que eu sei, ou se contigo
no ardor de frases tensas se agitarem
como indefesa e acuada ante o perigo;
se acaso for assim, ah! se assim for
tu que és minh'alma, dize-me que irei
em busca desse alguém, mãos estendidas,
dizer-lhe, Sê feliz com meu amor.
Na volta, ao longe, um pássaro ouvirei
cantar nas terras para mim perdida.

§

it may not always be so; and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another’s,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be—
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands


trago seu coração comigo (trago
no meu) ñ sou nada s/ ele (onde
vou vc vai) e o q é feito comigo
é 1 feito seu, meu bem) ñ temo
                                       a morte
(vc é meu destino, amor) ñ quero
mundo algum (vc é meu mundo, é sim)
é pra vc q a lua se declara
é por vc q o sol se alegra assim

é aki o q ninguém sabe (a raiz
da raiz e a semente da semente
e o céu do céu da árvore da vida;
q cresce + do q supõe a mente)
e o q mantém o céu em proporção

trago seu coração (em meu coração)

§

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
                                                      i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)


é logo após eu ter sonhado o raro
júbilo nos teus olhos q (imbecil
por nem imaginar) ponho reparo:

meu peito, foi teu lábio que instruiu;
é aí q a treva vítrea guarda o vulto

de teu sorriso genuíno (em meio
ao choro) e a calmaria molda o muito
q um pouco eu tive e q incomum me veio;

é aí q 1 vez + meu braço egrégio
transborda de fascínio, e q me inundo
do inflexível fulgor q há em teu sortilégio:

1 perpassado e diáfano segundo

— retorno ao sono e seu enorme embuste
e olho o jardim do dia, q se incrusta.

§

it is at moments after i have dreamed
 of the rare entertainment of your eyes,
when (being fool to fancy) i have deemed

with your peculiar mouth my heart made wise;
at moments when the glassy darkness holds

the genuine apparition of your smile
(it was through tears always)and silence moulds
such strangeness as was mine a little while;

moments when my once more illustrious arms
are filled with fascination, when my breast
wears the intolerant brightness of your charms:

one pierced moment whiter than the rest

— turning from the tremendous lie of sleep
i watch the roses of the day grow deep.

*

apenas lembrando que esse daí de cima recebeu tradução de Anderson Lucarezi, aqui, e Raphael Soares, aqui. de se lembrar, claro, a versão do grande john cage:





este o jardim: as cores vêm e vão,
frágeis azuis flutuam noite afora,
vívidos verdes vagam com demora
e áureos montes de neve as luzes são.
Este o jardim: lábios franzinos dão
alento à flauta em vasta treva, e ora
canta (de etérea harpa à merencória
nota) o oculto rosto da assombração.

Este o jardim. O Tempo a tudo sega
e flores, flores prendem-se na foice
em terras onde a canção é inexata:
mas Eles ficam, no êxtase que os cega,
tal como em meio à mata inerte foi se en-
-tranhando em tudo uma argêntea cascata.

§

this is the garden:colours come and go,
frail azures fluttering from night’s outer wing
strong silent greens silently lingering,
absolute lights like baths of golden snow.
This is the garden:pursed lips do blow
upon cool flutes within wide glooms,and sing
(of harps celestial to the quivering string)
invisible faces hauntingly and slow.

This is the garden. Time shall surely reap
and on Death’s blade lie many a flower curled,
in other lands where other songs be sung;
yet stand They here enraptured,as among
the slow deep trees perpetual of sleep
some silver-fingered fountain steals the world.



qm de coração tão negro ñ fala,
1 pouco de inocência o faz cantar;
a qm ñ sabe olhar basta ensiná-lo
— um todo luminoso vai se alçar

da realidade do tudo nada;
indo do desespero à alegria,
nunca ao belo, lugar algum pra cá:
1 pouco de inocência cria o dia.

e algo pensado ou feito ou desejado
sem 1 pouco de inocência, por mais
q rubro igual terror, verde igual fado,
cinzento cai e ñ retorna mais —

poder da morte imensa altiva jamais vence a
força de 1 pouco de inocência

§

who were so dark of heart they might not speak,
a little innocence will make them sing;
teach them to see who could not learn to look
—from the reality of all nothing

will actually lift a luminous whole;
turn sheer despairing to most perfect gay,
nowhere to here,never to beautiful:
a little innocence creates a day.

And something thought or done or wished without
a little innocence,although it were
as red as terror and as green as fate,
greyly shall fail and dully disappear—

but the proud power of himself death immense
is not so as a little innocence 



MUDANÇAS.

11/01/16 Postagem remodelada. Adicionada a tradução de who where so dark of heart. Adicionadas as traduções de Manuel Bandeira e Ivo Barroso para it may not always be so.

Comentários

  1. Por um acaso feliz cheguei aqui. Muito bom. O mundo parece melhor com coisas assim.

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    Respostas
    1. Opa, obrigado Nivaldete! A primeira leitora do bloguinho que chega aqui por acaso =)

      Você disse bem: o mundo parece melhor com coisas assim. A poesia de cummings consegue fazer isso muito bem... Pretendo trazer mais coisas dele no futuro.

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