Dudley Randall (1914 - 2000).


(Foto retirada da Universidade de Illinois)


14
de janeiro de 2014: centenário de nascimento do poeta afro-americano Dudley Randall (1914 - 2000).

No caso do primeiro poema, a tradução até que correu bem. Quis mesmo foi só manter um ritmo de balada, o que não é muito difícil: baladas possuem um lastro até bom em nossa terra, ainda mais quando temos a decência de dar uma espiada no que o cordel tem feito. No âmbito do segundo poema... Também tranquilo; não dá pra falar muito em duração enunciativa do verso pois os versos já são grandões; mas, de todo modo, não transformar o que já é grande em ainda mais grande. Preferi não traduzir jukebox pois, até onde sei, não existe termo que traduza direitinho e, no final das contas, o poema todo é pautado nessa coisa aqui-dentro, lá-fora.

O texto utilizado foi o disponível no Poetry Foundation e no site dedicado à obra do poeta pela Universidade de Illinois.


BALADA DE BIRMINGHAM.
(Sobre o bombardeamento de uma igreja em Birmingham, Alabama, 1963)

"Mãezinha, posso ir ali
Ao invés de tocar hoje à tarde,
Marchas nas ruas de Birmingham
Na Marcha da Liberdade?"

"Não, meu bem, não pode não.
Os cães estão agressivos.
Cassetetes e cadeia são
Ruins pra vocês meninos."

"Mas, mamãe, não vou sozinho;
Outros meninos vão também
Marchar nas ruas de Birmingham
Pelo seu e pelo meu bem."

"Não, meu bem, não pode não,
Tenho medo dessas armas.
Você vai cantar na igreja
Para ter a alma salva."

Ela penteia os cachos cor-da-noite,
Se banha de rosas,
Coloca luvas brancas nas mãos negras
E coloca as botas.

Sorria em saber que o filho
Estava em local sagrado.
E porém, aquele era o último
Sorriso a ser dado.

Pois quando ouviu a explosão,
Seus olhos, loucos, choravam.
Revirou em busca do filho,
Mas não o encontravam.

Cavou no vidro e na pedra
E achou um sapato.
"O sapato do meu filho!...
Onde está você, meu filho?!"

§

POETA NÃO É JUKEBOX.

Poeta não é jukebox: não me diga o que escrever.
Li para uma amiga um poema de amor, e ela disse:
"Você tá nessa agora, e tá bom, tá bom,
Mas por quê não falar dos motins em Miami?"

Não escrevo sobre Miami pois não sei sobre Miami.
Estive tão ocupado trabalhando no Censo, e ouvindo música a noite toda, e fazendo novos poemas,
Que até quebrei o hábito de ver TV e ler jornais.
Então não foi abstinência do Orgulho Negro que me levou a não escrever sobre Miami,
Mas simples ignorância.

Dizer para um poeta negro o que ele tem que escrever
É como um Comissário de Cultura na Rússia dizendo a um poeta
Que é melhor escrever sobre as fornalhas de aço de uma região do Novobigorsk,
Ou os feitos heroicos do lavor Soviético em cavar um Canal Transcaucasiano,
Ou a conquista sem precedentes de operários da indústria de açúcar de beterraba que excederam a quota de 400 porcento (um erro do datilógrafo, descobriram depois).

Talvez o poeta Russo veja sua mãe morrendo de câncer,
Ou sangre de um amor infeliz,
Ou exploda de alegria querendo cantar o vinho, as rosas, os rouxinóis.

Aposto que daqui há cem anos os poemas que o povo Russo lerá e cantará
Serão poemas sobre morte de mãe, amores infelizes, ou rosas, vinhos, rouxinóis,
Não poemas sobre fornalhas de aço, o Canal Transcaucasiano, a indústria de açúcar de beterraba.
Um poeta escreve o que sente, o que agita seu peito e põe a pena em movimento.
Não o que um apparatchnik dita, pra promover sua carreira e teorias.

É, talvez falarei de Miami, como já falei de Birmingham.
Mas será porquê quis falar de Miami, não porquê alguém me disse.

É, falo de amor. Que há de errado com o amor?
Se nos amássemos mais, teríamos mais bebês negros que virariam irmãos e irmãs negros que fariam famílias negras.

Quando as pessoas amam, elas se banham de sabonete cheiroso, molham seu corpo de perfume ou colônia,
Se barbeiam, se penteiam, vestem roupas lustrosas,
Falam com calma, falam doce, estudam seu amado para anteciparem cada desejo.
E após se amar estão felizes e amigos com o mundo.
Que há de errado com o amor, a beleza, a alegria e a paz?

Se Josefina tivesse dado mais amor a Napoleão, ele não teria semeado os prados europeus com crânios.
Se Hitler tivesse sido feliz no amor, ele não teria assado pessoas em fornos.
Então, não me diga que é trivial e alheante escrever sobre e amor e não sobre Miami.

Poeta não é jukebox.
Poeta não é jukebox.
Repito, poeta NÃO é jukebox pra escolherem o repertório e mandarem tocar,
Ou acarinharem a cabeça e dizerem "revolucionário bonzinho!",
Ou darem uma Medalha Liberte Kuumba!.

Poeta NÃO É jukebox.
Poeta não é JUKEBOX.
POETA não é jukebox.

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