Silêncio, de Edgar Allan Poe.


(Foto retirada do FanPop!)


O
soneto Silence de Edgar Allan Poe possui um estrambote de um verso, coisa perfeitamente natural se considerarmos a história da fôrma (cf. Aretino [1492-1556]). O leitor observará que a frase "No More" possui correspondência direta ao famoso The Raven (1845), e o tom geral do soneto possui uma interioridade parecida, de perscrutação metafísica da existência que se encerra com o silêncio. Escrito em 1839, foi publicado pela primeira vez no Philadelphia Saturday Courier, em 1840, e posteriormente no Broadway Journal, em 1845.


SILÊNCIO.

Há qualidades — coisas incorpóreas,
Donas de vida dupla que dão vida
A uma dupla entidade da matéria
E luz, em sombra e sólido esvaecida.

Há um silêncio duplo — oceano e costa —
Corpo e alma. Um reside em campos ermos,
Nascido com a relva; divinais termos,
O folclore e a memória recomposta

Rendem-no sem temor: ele é o "Não Mais."
É o silêncio corpóreo: não temais!
Ele não tem poder no mal que têm;

Contudo, se um destino urgente (impróprio!)
Te mostra a sombra dele (elfo exótico
Que assombra áreas ermas — sem ninguém,

Sem rastro humano), entrega-te pra Deus!

§

SILENCE.

There are some qualities—some incorporate things,
That have a double life, which thus is made
A type of that twin entity which springs
From matter and light, evinced in solid and shade.

There is a two-fold Silence—sea and shore—
Body and soul. One dwells in lonely places,
Newly with grass o'ergrown; some solemn graces,
Some human memories and tearful lore,

Render him terrorless: his name's "No More."
He is the corporate Silence: dread him not!
No power hath he of evil in himself;

But should some urgent fate (untimely lot!)
Bring thee to meet his shadow (nameless elf,
That haunteth the lone regions where hath trod

No foot of man,) commend thyself to God!


T
rata-se dum soneto de forma no mínimo apurada, a começar pelas constantes referências à Dualidade que percorrem as quadras e que devem ser reproduzidas, "no mínimo", em três ocasiões: "double life" (verso 2), "twin" (verso 3) e "two-fold" (verso 4). Não apenas isto, mas conceitos que se repetem e se enriquecem ao longo do poema devem igualmente ser apontados, como a referência ao "lonely places" (verso 5) que reaparece no 14º verso: "the lone regions"

Outro quesito a ser observado é o das aliterações, mais especificamente a do final da primeira quadra com a segunda, criando um conectivo que apenas intumesce o caráter paralelístico da obra: refiro-me ao S que aparece em "evenced in solid and shade" do verso 4 (mas que já possuía registros no final do verso anterior, com "springs") e reaparece nos versos 5 e 6: "Silence—sea and shore— / Body and soul". A construção destes últimos contêm também em seu bojo um trocadilho fônico notável, mais especificamente pela aliteração em S anteriormente citada e pelo uso de monossílabos contrapostos. 

Como este segundo efeito é impossível em língua portuguesa, resta reconstruí-lo da forma como nos cabe e nosso engenho permite: isto é, com a sonoridade fricativa de "oceano e costa", bem como na letra C forte de "costa" que se conecta com o termo "corpo" (e "alma", nesse jogo conectivo, é partícula sem importância como o "Body" original). 

Deste modo, meu norte tradutório está traçado, e o leitor que desejar comparar os dois textos já possui seus alicerces.

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