Oscar Wilde (1854 - 1900).


(Oscar Wilde, direita, e Bosie. Foto retirada do Capitu with Lasers [?])


O primeiro rascunho do soneto The New Remorse foi encontrado recentemente na parte de trás de um velho guarda-roupa ("a dusty box in the back of a wardrobe", de acordo com o Telegraph, 19/03/13). Junto com ele, uma carta de 13 páginas de Oscar Wilde a um jovem escritor. De acordo com o blog da LPM (02/04/13): "Junto com a carta foi encontrado o primeiro rascunho do soneto 'The New Remorse' ('O novo remorso'), publicado por Oscar Wilde – sob outro título – em 1887. O esboço do poema foi escrito por Wilde para seu novo amante na época, Lord Alfred Douglas, depois de terem acabado de se conhecer em 1891."

Latuf Isaias Mucci, em Oscar Wilde ou a Identidade Poética Encarcerada, reitera a informação: "Em 1891, Oscar Wilde compôs, em homenagem a Bosie [i.e. Alfred Douglas], o poema 'The new remorse' ('O novo remorso'), que, numa leitura atenta, recheia-se, a partir do próprio título e do verso inaugural, de maus agouros." Faz acompanhar, em nota de rodapé, a tradução de Oscar Mendes (Nova Aguilar, 1986), aparentemente literal. Mas é possível que haja uma imprecisão de Isaias Mucci quanto à data do poema, se considerarmos que, de acordo com o Cambridge Companion to Oscar Wilde (Cambridge UP, 1997), o soneto foi publicado previamente em 1887, mas com outro título, e depois em 1892 no periódico Spirit Lamp, editado por Alfred Douglas e com uma "homossexual orientation". Para pontuar a questão, uma passagem de The Secret Life of Oscar Wilde: An Intimate Biography (de Neil McKenna, editora Basic Books, 2005) é bem elucidativa:

Oscar had presented Bosie with the sonnet a year earlier during their courtship. Bosie was flattered and believed that Oscar had written it specially for him as a love token. In fact, Oscar had published the poem four years earlier as 'Un Amant de Nos Jour'. But its distinctly Uranian tone clearly signposted the Spirit Lamp's future direction.

Em carta citada no livro The trials of Oscar Wilde (de H. Montgomery Hyde, editora Dover, 1962), Alfred Douglas diz: "He flattered me, gave me presents, and made much of me in every way. He gave me copies of all his books, with inscriptions in them. He wrote a sonnet to me, and gave it to me one night in a restaurant. That was after I had known him about six months ago."

Sobre o poema em si, pouco há que ser dito, afora, é claro, de sua invulgar beleza. Ou vulgar beleza, para a época (não tão distante d'hoje em dia). Pode-se buscar alguns paralelos entre o verso "So now is music prisoned in her cave" com o verso de Alfred Douglas "I am the love that dare not speak its name" em Two Loves. Ou, de acordo com o "Cambridge Companion", esse mesmo verso que, dito como sugestivo, "(...) reveals the necessity of concealment, which readers of the 'Spirit Lamp' would presumably grasp." Ou, o que é apontado por Isaias Mucci, criar paralelos entre o trágico destino de Wilde com a construção metafórica dos quartetos: coisa comum nos sonetos de Wilde, construir um ambiente metaforizado nos quartetos e desenvolver os sentimentos propriamente ditos nos tercetos (nestes, Wilde, com uma dicção bíblica, ecoaria Isaías 63:1 ["Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes tinta (...)"]).

Por fim, o poema é um ótimo expoente do sentimento de remorso que permeia muitas produções de Wilde como The Harlot's House ou The Sphynx (sentimento esse sempre associado ao pecado e ao sofrimento, de acordo com Edouard Roditi em "Oscar Wilde" [New Directions, 1986]). Talvez o que Olavo Bilac diz na terceira parte (O Remorso) de seu poema Lenda do Reno, Grandmougin, é um bom correspondente para o remorso wilderiano:

                    Delira. Mas, depois do delírio sublime,
                    O remorso, imortal, nasce com o arrebol.

Mas certamente Wilde não soube, como diz Bilac em outro poema, o soneto Remorso, tornar-se "Mártir da hipocrisia ou da virtude", lamentar

                    Os beijos que não tive por tolice,
                    Por timidez o que sofrer não pude,
                    E por pudor os versos que não disse!

Foi este rascunho recém-descoberto do texto que segui em minha versão do poema. Versão; não creio que tradução, visto que me vali de algumas liberdades na estrutura e sentido do poema (as rimas toantes para as rimas B dos quartetos, o desvio nos versos 7, 8, 11 etc). Mas espero que sejam suplantadas se o texto for, no mínimo e no máximo, fiel ou não, atenuado ou não, agradável de ser lido, memorável de ser relido.


O NOVO REMORSO.

O erro foi meu: mas eu não entendia.
E agora, presa a música em sua gruta,
Exceto quando a onda incerta e absurda
Rompe sua espiral na orla esguia,
Agora — no ermo da terra vazia,
Onde o Estio prepara a própria tumba
E onde a mão do salgueiro não reputa
A flor que a mão do Inverno acaricia.

Quem é este que caminha pela areia?
(Vê, amor, e se encanta!) Quem será,
Que ostenta um arco-íris em sua roupa?
Teu novo Senhor, ele beijará
As rosas indomadas da tua boca
Com a chama que outra vez te senhoreia.



(Wilde na Grécia. Foto retirada do tumblr No you shut up)


HÉLAS.

Deixar-me conduzir por todo amor
Até que o vento brinque com minh'alma.
Foi só por isso que busquei depôr
Minha sabedoria, minha calma?
Penso que a vida é um texto que se espalma
Num recesso infantil onde o langor
Das canções se une ao esplendor das palmas,
Tornando o todo um todo inferior.

De fato, já andei com o sol à pino
E a vida dissonante percutiu
Suas cordas até o ouvido Divino:
Isso acabou? Com um toco nanico
Eu tão somente toco o mel juvenil —
Enquanto perco o que me faz mais rico?

§

PARA MINHA ESPOSA.

Não posso escrever um proêmio
    Como prelúdio ao que jazo;
De poeta para poema
    Ouso dizer que falo.

Pois se das pétalas caídas
    Uma há que te agrade,
O vento a fará adormecida
    Na tua face.

E quando o inverno encrudescer
    Na terra sem amor,
Sei que você vai entender,
    Seja aonde for.



(Foto retirada do The Guardian. Notícia irônica, não é mesmo?)


O texto utilizado foi o de The Collected Poems, Wordsworth, 2000, com introdução de Anne Varty. No final do poema, compensa, antes que se recompensem por isso, citar o último verso do original: "Crept like a frightened girl." Não sei até que ponto, numa sociedade marcada pela insônia e pela agitação noturna, a expressão "Como quem não conseguiu dormir" guarda seus níveis de infantilidade. Mas quero crer, pois nessas horas é dar tiro no escuro e sair correndo, que não deturpei demais a coisa, se pensarmos no poema como dono de reentrâncias perversas e festivas, glamourosas e decadentes. Dito por Joschua Boscher em The Need for Contrasts in Oscar Wilde's "The Harlot House",

O narrador amargamente implica que o futuro de sua amada é o de tremer 'rua abaixo triste e quieta' como uma 'menininha amedrontada'.

Assim sendo, se agora pouco questionei a validade puramente infantil da expressão "não conseguiu dormir", agora posso dizer que ela até pode vir bem a calhar, mantendo o contraste entre dois mundos que, de resto, é uma marca do poema de Wilde. De sua poesia também, ouso dizer.


O BORDEL.

Nós pegamos os pés dançantes,
Nós cruzamos ruas cintilantes
E paramos frente ao bordel.

Dentro, sobre a rixa e o ruído,
Treues Liebes Herz foi ouvido
Num som vindo do menestrel.

Como mecânicas grotescas,
Fazendo incríveis arabescos,
O escuro irrompeu da cortina.

Vimos dançarinas que giravam
Enquanto o som as embalava,
Folhas que o vento rodopia.

Como autômatos de circuito,
Esqueletos magros, mas muito
Magros, valsam a quadrilha lenta

Pegando cada qual as mãos,
Dançando com ostentação
E rindo aguda e finamente.

Às vezes, o cuco apertava
No peito um fantasma que amava,
Às vezes parecendo cantar.

Às vezes uma marionete
Vinha e fumava no confete
Como coisa viva a fumar.

Disse a meu amor, me voltando:
"Morto com morto bailando,
O pó no pó rodopiando."

Mas ela — o som ela escutou,
Saiu de perto e logo entrou:
O amor na luxúria está entrando.

Súbito, o tom caiu em falso,
Todos se cansaram da valsa
E a horda já não ia e vinha.

E rua abaixo triste e quieta,
A aurora de sandálias-prata
Treme como uma garotinha.



(Foto retirada do Haverford College)


Traduzi os tercetos desse soneto de Wilde, uma das primeiras traduções que fiz, e saiu isso daqui:

                    Deleitando-me até que o desrespeito
                    Viole num estalo violento
                    A autoridade das nações e o Estado,

                    Enquanto ainda e ainda imaculado
                    Eu veja estes Cristos ao relento,
                    Sabendo estar com eles, de algum jeito.

O original diz:

                    Delight my discreet soul, else might all kings
                    By bloody knout or treacherous cannonades
                    Rob nations of their rights inviolate
                    
                    And I remain unmoved - and yet, and yet,
                    These Christs that die upon the barricades,
                    God knows it I am with them, in some things.

Não sei se faria algum reparo no texto... Do I dare to disturb the shit? Talvez eu já tenha até desistido de traduzi-lo. Sei lá.

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