Samuel Taylor Coleridge (1772-1834).



O
leitor que desejar ler outras traduções e um ótimo comentário acerca do poema, poderá conferir esta postagem no escamandro. É um dos casos em que considero que o poema já foi mais-que-maravilhosamente vertido para nosso idioma. Mas, by a darker purpose, me impus a tarefa de traduzi-lo, mesmo com tantas versões excelentes na jogada.


Não vou nem cair na discussão improfícua do "se tem muitas traduções, então não precisa traduzir mais". Óbvio que é preciso; óbvio que é preciso que se traduza sempre. Mas comigo geralmente não acontece assim, e, se encontro um poema muito bem traduzido, minha tendência é a de seguir outros caminhos, outras sendas, seguir os preceitos daquela tradução tão bem realizada para trazer outras facetas de um autor.

Com Coleridge, contudo, não foi bem assim. Kubla Khan, completo em 1797 e publicado em 1816, é um de meus poemas preferidos. Coleridge é, dos românticos ingleses, meu preferido, especialmente por sua vida tão porra-louca e ao mesmo tão sóbria, tão decidida, sem um escravismo da boemia que marcaria outros nomes. Coleridge foi preguiçoso, como dizia Borges, mas um preguiçoso que matou a cobra e mostrou o pau. Um preguiçoso que gravou seu nome nos para-sempres da História, o que só angaria minha profunda admiração por ele, visto que também sou um.

Enfim. É preciso comentar sobre o Kubla Khan? A introdução de Scandolara disse tudo. E eu sou preguiçoso, né? O máximo que posso fazer é transcrever a nota inicial que o autor escreveu pro poema, elucidativa por si só, na tradução de Alípio Correia Neto, publicada no livro A Balada do Velho Marinheiro (Ateliê, 2006), um dos melhores livros de tradução de poesia de nossa história. O resto é isso mesmo, psicodelismo, um poema de uma modernidade gritante, muito mais moderno que toneladas de modernices. Você provavelmente vai passar um bom tempo lendo o poema sem saber o que comentar; a descoberta de textos de gente como Harold Bloom vai ser a tacada certa, mas posso garantir que, quando você começar a  entender-não-entendendo, quando aquela lâmpada acender sobre sua cabeça, aí sim você vai se encantar ao triplo e entender a genialidade poderosa do poema. E, demore um bom tempo chegar até lá, reler o Kubla Khan é um prazer maravilhoso. Não vai ter tortura nenhuma, isso eu também garanto.

Quero só destacar na forma tão apurada do poema, na sua musicalidade praticamente insólita. Se a tradução de Scandolara se aproximou, e muito mesmo, da sonoridade do original, de seus meandros, de sua passo-a-passo, a tradução de Alípio, como o próprio Scandolara reconheceu, está mais clara semanticamente, ao passo que a de Décio é a mais inventiva: cada uma delas deu, a cada estrofe, o momento certo, a batida certa, a singularidade radicalmente outra na superfície e incrivelmente a mesma em seu íntimo.

Sendo assim, que espaço restaria para a minha tradução?

Responder a esta pergunta me pareceu essencial. Meu objetivo foi o de um meio-termo entre Scandolara e Décio, unindo um passo mais perto do do original e, ao mesmo tempo, me distanciando. Para tal, fiquei de olho na estrutura sonora do original, especialmente no ritmo da última estrofe, e busquei manter a variação de metros que Coleridge trabalha, num espectro realmente amplo e que, em minha tradução, vão de 4 a 10 sílabas. Além disso, há o trabalho da rima. No caso desta, não me preocupei tanto em traduzir as perfect rhymes do poema praticamente todo, e da obra de Coleridge também, tendo antes preferido fazer um trabalho inventivo com a rima, estando de braços abertos para os casos em que a rima toante, ou parcial ou imperfeita, aparecesse, ou então mudando o esquema rímico do original para tentar captar a música do original. Certo que a "música do original" é algo muito vago, e o ideal é seguir o passo-a-passo, como Alípio e Scandolara fizeram. Mas, como disse, minha tradução é um meio-termo. E, se isso não deixa de ser uma ousadia pautada num critério abstrato, em outros momentos tentei fazer uma leitura atenta do original, como, por exemplo, na repetição das rimas "-an" (em minha tradução, "-ana") na primeira e na segunda estrofe. Tentei também manter a repetição de termos, o que, se foi possível com uns ("sacred river", por exemplo), não foi com outros ("pleasure-dome").

Mas enfim. Em traduções passadas já comentei sobre esses casos e é bom que repita (afinal de contas, este meu espaço é pra isso mesmo): são ossos do ofício tratados com todo carinho do mundo e toda uma busca coerente, nada que alopre o poema nem que sacaneie o leitor. E, mesmo com uma tradução mais radical aqui e ali, ou uma tradução mais castiça também lá ou cá, você pode ter certeza que aloprar não foi o que nem mesmo a tradução radical de Décio Pignatari quis. Mesmo porque, verdade seja dita, ela é espetacular. Como também são espetaculares as outras 2, de Scandolara e Alípio, é bom que se repita pois é uma honra poder me intrometer, nem que seja pra depois ser escorraçado, entre elas.



Tradução de: Alípio Correia Neto.

O fragmento que se segue ora é publicado a pedido de um poeta de grande e merecida reputação, e, no que tange às opiniões do próprio autor, mais como uma curiosidade psicológica do que com base em quaisquer supostos méritos poéticos.


No verão de 1797, o autor, que se achava então enfermo, recolheu-se a uma casa de fazenda entre Porlock e Linton, na fronteira de Somerset com Devonshire, na região de Exmoor. Em consequência de uma ligeira indisposição, foi-lhe prescrito um anódino [anodyne; analgésico], cujo efeito o fez adormecer em sua cadeira no momento em que ele estava lendo a seguinte oração, ou palavras do mesmo teor, na Purchas Pilgrimage: "Aqui o Cá Cubilai [Khan Kubla] ordenou que se construísse um palácio, e para ele um soberbo jardim. Assim, dez milhas de terra feraz foram encerradas por uma muralha." O autor continuou por cerca de três horas em sono profundo, pelo menos no que concerne ás sensações exteriores, período durante o qual ele tem a mais vívida certeza de que não poderia ter composto menos do que duzentos ou trezentos versos; se é que se pode na verdade chamar de composição aquilo em que todas as imagens se ergueram diante dele como coisas, com uma produção paralela de expressões correspondentes, sem nenhuma sensação nem consciência de esforço. Ao despertar, pareceu-lhe ter uma distinta recordação do todo, e, tomando da pena, da tinta e do papel, escreveu rápida e avidamente os versos que aqui se acham preservados. Nesse momento, infelizmente foi chamado para fora por uma pessoa de Porlock para tratar de um negócio, a qual o deteve por mais de uma hora; ao voltar para seu quarto, descobriu, para sua não pequena surpresa e mortificação, que, apesar de ainda reter certa recordação vaga e obscura do conteúdo geral da visão, no entanto, à exceção de uns oito ou dez versos e imagens dispersas, tudo o mais se desvanecera, como os reflexos na superfície de um regato em que se lançasse uma pedra, porém, ai!, sem poder se recuperar posteriormente como ele!



                                             Então todo o encanto
         Se rompe... todo o mundo de ilusão tão belo
         Passa, mil círculos se espalham
         E cada um deforma o anterior. Espera um pouco,
         Pobre jovem, que mal ousas erguer o olhar...
         Breve o arroio recobrará sua placidez,
         Voltarão as visões! Ei-lo que permanece,
         E os fragmentos obscuros de ternas formas
         Retornam trêmulos, se unem, e ora uma vez mais
         O lago vira espelho.
                              [Coleridge, The Picture; ou, The Lover's resolution, II, 91-100]

No entanto, em virtude das recordações que ainda sobrevivem em nossa mente, o autor por vezes tem-se proposto terminar por si mesmo o que, por assim dizer, lhe fora dado originariamente. Σαμερου αδιου ασω: mas o amanhã ainda está por vir.


KUBLA KHAN
ou
UMA VISÃO EM UM SONHO.

Em Xanadu, Kubla Khan manda
Erguer um domo do prazer:
Onde Alph, rio sacro, mana
Por grutas sem mensura humana
       Aonde o sol não se vê.
São duas vezes cinco milhas férteis
Com torres e com muros que as acerquem:
Ali haviam parques cintilantes
Com rios onde flore o incenseiro;
Bosques antigos como os montes d'antes,
Cingindo a grama onde a luz vem primeiro.

Ó romântico abismo que se inclina
Indo ao tronco do cedro, p'la colina!
Lugar selvagem!, sacro e encantado
Qual se a lua minguante amedrontado
Houvesse a amante do mal-assombrado!
E deste abismo, vórtice fervente
Como se lentamente a terra arfasse,
A vasta fonte por momentos nasce;
E, em sua explosão semi-intermitente,
Fragmentos como gelo em ricochete,
Grãos que o mangual debulha em mil filetes:
E, em meio à dança eterna e pétrea, mana
Um sacro rio em águas momentâneas.
São cinco milhas num meandro insano
Por bosques, vales onde o rio mana
Até as grutas sem mensura humana
E o tumulto sem vida do oceano:
E em meio a tal tumulto Kubla escuta
Vozes anciãs augurando a luta!
       O domo joga sua sombra
       Que paira entre as ondas
       Onde o som se mescla e sonda
       Grutas e fontes.
Era um milagre digno de um artífice,
Domo-solar de gelo e estalactites!

       A dama c'um saltério
       Numa visão eu vi:
       A dama era abissínia
       E com o seu saltério
       Cantou o Monte Abora.
       Eu a revivesse em mim,
       Seu canto num encanto
       Que tomasse conta de mim,
E seu longo canto, tanto!,
Faria um domo no vento,
Domo solar!, grutas de gelo!
A quem ouvir será mostrado
E dirão: Cuidado! Cuidado!
O olhar brilha e o cabelo, solto!
A seu redor tece, tece,
Tece, feche o olho e tema!,
Pois ele toma o mel, toma!,
E ingere o Leite Celeste!






In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man

       Down to a sunless sea.
So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills
Where blossom'd many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.

But O, that deep romantic chasm which slanted
Down the green hill athwart a cedarn cover!
A savage place! as holy and enchanted
As e'er beneath a waning moon was haunted
By woman wailing for her demon-lover!
And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
As if this earth in fast thick pants were breathing,
A mighty fountain momently was forced;
Amid whose swift half-intermitted burst
Huge fragments vaulted like rebounding hail,
Or chaffy grain beneath the thresher's flail:
And 'mid these dancing rocks at once and ever
It flung up momently the sacred river.
Five miles meandering with a mazy motion
Through wood and dale the sacred river ran,
Then reach'd the caverns measureless to man,
And sank in tumult to a lifeless ocean:
And 'mid this tumult Kubla heard from far
Ancestral voices prophesying war!

       The shadow of the dome of pleasure
       Floated midway on the waves;
       Where was heard the mingled measure
       From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome with caves of ice! 


       A damsel with a dulcimer
       In a vision once I saw:
       It was an Abyssinian maid,
       And on her dulcimer she play'd,
       Singing of Mount Abora.
       Could I revive within me,
       Her symphony and song,
       To such a deep delight 'twould win me, 
That with music loud and long,
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair!
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed,
And drunk the milk of Paradise.







§

O TEMPO, O REAL E O IMAGINÁRIO:
UMA ALEGORIA.

         Lá no cimo da serra
(Não sei bem onde, era um local de fadas),
As asas para o voo já preparadas,
Numa corrida que jamais se encerra,
            O irmão e a irmã!
         Ela é a campeã,
   Mas corre olhando para trás
   Pra ver o que seu irmão faz:
            Pois ele é cego!,
E, se chega com muito ou pouco custo,
Não sabe se em primeiro ou se é em último.

*

FRAGMENTO 2.

Sei que é somente um sonho, mas machuca
Como se verdadeiro. É sempre assim:
Morrerei sob ele? Ninguém por perto?
Ninguém para me ouvir ― vir me acordar?

*

FRAGMENTO 3.

Vem, vento de Dezembro, lúgubre,
Sopre as folhas secas daqui!
Brilhe como pensar no amor ―
Mitigue tudo o que existi!

*

FRAGMENTO 7.

Quando a Esperança fez a Calmaria ―
Tatalar de Esperanças para sempre
Que fez da Calmaria, Consciência ―
À roda, num rodeio e alegria,
Soprando a paz sobre a Labuta intensa ―

*

ORAÇÃO NOTURNA DE UMA CRIANÇA.

Deus!, antes que eu vá para o leito,
Me ajude a orar desse jeito:
Ó Deus!, guarde mamãe querida
Com saúde por toda a vida;
E papai também, pra que eu preste
As honras com que ele se veste;
E, Deus!, que eu seja um bom rapaz
Que alegre e que orgulhe meus pais;
E, Ó!, preserve meus irmãos
E afaste o mal de suas mãos,
E que sempre haja em nós carinho
Por papai, mamãe e amiguinhos:
E me brinde, Ó Senhor, ainda,
Com uma alma inocente e linda
Pra que depois do sono eu possa
Acordar com a Tua volta!
                                            Amém.

§

TIME, REAL AND IMAGINARY:
AN ALLEGORY.

ON the wide level of a mountain's head  
(I knew not where, but 'twas some faery place),  
Their pinions, ostrich-like, for sails outspread,  
Two lovely children run an endless race,  
      A sister and a brother!
      This far outstripp'd the other;  
  Yet ever runs she with reverted face,  
  And looks and listens for the boy behind:  
      For he, alas! is blind!  
O'er rough and smooth with even step he pass'd,
And knows not whether he be first or last.


*

FRAGMENT 2.

I know 'tis but a Dream, yet feel more anguish
Than if 'twere Truth. It has been often so:
Must I die under it? Is no one near?
Will no one hear these stifled groans and wake me?


*

FRAGMENT 3.

Come, come thou bleak December wind,
And blow the dry leaves from the tree!
Flash, like a Love-thought, thro' me, Death
And take a Life that wearies me.


*

FRAGMENT 7.

When Hope but made Tranquillity be felt—
A Flight of Hopes for ever on the wing
But made Tranquillity a conscious Thing—
And wheeling round and round in sportive coil
Fann'd the calm air upon the brow of Toil—


*

A CHILD'S EVENING PRAYER.

Ere on my bed my limbs I lay,
God grant me grace my prayers to say:
O God! preserve my mother dear
In strength and health for many a year;
And, O! preserve my father too,
And may I pay him reverence due;
And may I my best thoughts employ
To be my parents' hope and joy;
And O! preserve my brothers both
From evil doings and from sloth,
And may we always love each other
Our friends, our father, and our mother:
And still, O Lord, to me impart
An innocent and grateful heart,
That after my great sleep I may
Awake to thy eternal day! Amen.

Comentários