*~~*~~A fabulosa escala rímica~~*~~*


(Imagem retirada do blog do artista Chad Geran. Abaixo, imagem retirada do Sport Kids Play.)



T
odo mundo sabe o que é a rima. Mas, pra não passarmos batido, fiquemos com esta definição de Olavo Bilac e Guimaraens Passos (aqui): "Rima é a uniformidade do som na terminação de dois ou mais versos."

Em língua inglesa, os dois maiores grupos de rimas são o das perfect rhymes e o das imperfect rhymes. Perfect rhyme, "Rima em que a última vogal acentuada e as consoantes e sílabas são idênticas, enquanto as consoantes precedentes são diferentes; por exemplo, great - late, rider - beside her, dutiful - unbeautiful. Também chamada de full rhyme ou true rhyme." (aquiImperfect rhyme, "rima em que ou as vogais ou as consoantes das sílabas acentuadas são idênticas, como eyes - light, years - yours." (aqui). Os gringos costumam trabalhar muito também com as rimas masculinas e femininas: masculina (ou single rhyme), isto é, rima baseada em uma só sílaba (thee - sea - philosophy), e rima feminina, isto é, rima baseada em mais de uma sílaba (painted - acquainted). As rimas femininas são raras; geralmente são usadas em poemas humorísticos. Já as masculinas são predominantes, e alguns poemas inclusive são totalmente escritos nelas, como o A lecture upon the Shadow de John Donne (aqui).

Em português, os conceitos dominantes são os de rima consoante e rima toante. Ainda usando-me de Bilac e Passos,

Consoantes são as que se conformam perfeitamente no som, desde a vogal ou diphtongo do accento predominante até a ultima lettra. Exemplos: mão, mamão, cortezão. Toantes são as que apenas se conformam na pausa, que contém a mesma vogal ou diphtongo, ou na semelhança de vogaes na syllaba breve, que se lhe siga; igualmente, a coincidencia da ultima vogal fórma uma rima toante. Exemplos: dá, moral, assas; charco, pranto, estranho; martyrio, finissimo, soporifero.

Ao longo deste pequeno texto, vou falar só do aspecto fônico da rima. Sua classificação gramatical, que a meu ver é de uma estupidez galopante, eu chutei pro quinto dos infernos; sua classificação intra-espacial não tem muito haver com minhas reflexões (por exemplo, a rima interna ou a leonina); e sua classificação espacial, que já entraria na discussão da classificação das formas fixas, também não diz respeito ao que desenvolvo.

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A
ntes de mais nada, ao se encarar um poema para traduzir, o camarada deve adotar uma série de posturas, uma série de escolhas. Nem sempre tais posições são explícitas; mas, de todo modo, o serviço final deixa sempre a transparecer. Pois um texto poético é um trabalho essencialmente linguístico, de modo que, é claro, ele possui variadas características que o tradutor, como todo leitor, entra em contato.


Um dos sonhos de nascença de toda tradução é o da tradução perfeita, um idílio que, mesmo sendo idílio, deve ser sempre buscado. E que não implica no traduzir palavra-por-palavra. Afinal de contas, o Soneto de Fidelidade não pode ser resumido a "curto você, mas só vai rolar enquanto estiver rolando". O como ele é enunciado é tão importante quanto o que é enunciado. E esse como, se na experiência de leitura de poesia é algo inenarrável, e inenarrável não pode nunca deixar de ser, deve ser esmiuçado pelo tradutor, deve ter sua fonte alcançada, o que é feito por um trabalho tanto de análise estrutural quanto de análise semântica ou até mesmo de intuições. Pegar o que é uma contínua explosão, o que é segurar uma granada que costuma explodir enquanto fala, e esparramar em cima da mesa para uma análise detida: sejam bem-vindos à sala de operação.

Claro que não dá pra traduzir tudo. O que é uma pena, apenas uma pena pois tradução perfeita não existe, graças a Deus. Assim, das muitas características de um texto X, o tradutor deve criar mais ou menos uma lista de preferências e tentar traduzir tudo, fazer seu check-in, suas negociações para conseguir, se possível for, tudo ou o mais próximo de tudo do que o texto diz. Se encaro uma oitava de Byron, posso traçar muitas características dessa oitava como o fato de, óbvio, ela ser uma oitava, ou seja, ter um esquema rímico próprio, e possuir um metro, às vezes uma aliteração no verso 3, um trocadilho no 4 e por aí vai. Da lista de obrigações que o tradutor traça, e que parte sempre de uma leitura crítica da obra (pois tradução é crítica), ele vai determinar se é mais importante traduzir a oitava do que a aliteração no verso 3. Mais uma vez, óbvio que se ele puder traduzir os 2, e ele vai se esforçar em traduzi-los, tanto melhor. Mas são opções, fazem parte de uma lista de preferências que por natureza está em toda tradução.

Aí são várias e várias características, são casos e casos.

Via de regra, a rima é aspecto crucial, ela via de regra encabeça a lista de preferências, visto que a rima costuma dizer respeito a uma série de outros aspectos do poema, como o trabalho inventivo com a linguagem, a estrutura da forma, a musicalidade etc. Só que aí entra uma questão que é uma questão de ordem prática. Traduzir versos rimados não é nada fácil, qualquer um deve saber. E muitas vezes é um serviço guiado por um desconhecimento tanto do funcionamento da versificação inglesa quanto das potencialidades, dum espectro rímico existente em nossa língua que é esvaziado na dicotomia rima consonantal - toante.

Oras: é realmente lícito dizer que rimas tão próximas, como "perto - preto", sejam colocadas no saco das rimas toantes e, logo, chutadas pra escanteio numa tradução de um poema em perfect rhymes? Advogo que não necessariamente. Advogo que depende muito de que rima estamos falando, pois existem perfect rhymes que estão no fio da espada e não só isso: depende de autor para autor, caso a caso.

Pois, como disse, a versificação inglesa possui um funcionamento que muitas vezes não é captado por seus leitores, tão aferrados a moldes sem muito respaldo prático. A versificação inglesa é um embate constante contra o monótono. Pegue-se um metro como o pentâmetro jâmbico: isto é, cinco jambos, isto é, átona-tônica-átona-tônica-átona-tônica-átona-tônica-átona-tônica. Imaginem um poema todo escrito assim. Quão monótono ficaria! É óbvio que o poeta deverá, criativamente, romper com esse esquema, de maneira que o conceito de pentâmetro jâmbico num poema é muito mais o conceito de predominância. Um dos versos mais famosos da história da literatura inglesa, "To be or not to be: that is the question", não é 100% um pentâmetro jâmbico, visto que o quarto pé é um troqueu, o contrário do jambo.

E por aí vai. Com a rima na língua inglesa, não é diferente. A rima lá não é tida como coisa pra inglês ver. Mesmo um poeta mais aferrado a moldes de correção, como um Pope, possui suas imperfect rhymes sem problema nenhum. E muitos poetas modernos, inclusive, especialmente após Emily Dickinson, trabalham as imperfect rhymes de modo totalmente significativo, bastando que se cite um Wilfred Owen ou um Yeats.

Isso dá um alívio ao tradutor pois ele passa a poder trabalhar com rompimentos, naturalmente que com toda responsabilidade do mundo e com uma análise detida. Mas dá uma margem. E, no caso das rimas, isso é fundamental, pois descasca a necessidade às vezes até patética de buscar por uma semelhança muito mais gráfica que fônica, o que obriga o tradutor despreparado a torcer seus versos até que cuspam as tripas apenas para conseguir algo que, se brincar, o original nem aceita. E além do mais, o rechaçamento da rima toante é sem pé nem cabeça, visto que, conforme notei em meu texto sobre Eliot, ela pode ser até um ganho prático, pois ela 1) aumenta as possibilidades de aliteração; 2) desacostuma o ouvido do leitor a uma semelhança mais gráfica que fônica; 3) costuma se aproximar mais da fala; e 4) possui enorme respaldo na literatura popular.

É por isso que, como disse ao traduzir Robert Browning, a divisão entre rimas toantes e consonantais seja muito oito ou oitenta. Ela chega a ser ofensiva e invasiva tanto para um tipo de rima quanto para outra. Como podemos aceitar com tanta naturalidade, a ouvidos brasileiros, que rimar "bela" com "estrela" seja melhor que "perda" e "estrela", "afeta" e "bela"? A correspondência fônica da sílaba tônica é a espinha dorsal da rima! Chegar a uma concepção de rima total ou incompleta, rima perfeita ou parcial (passarei a usar total e parcial), conforme abordado por Paulo Henriques Britto no curso A avaliação de tradução de Poesia, é muito mais rico e permite, inclusive, uma aproximação substancial com o original.

É o que tento fazer aqui, esboçando uma escala para que possamos pesar o quão total ou parcial é determinada rima. É o que o leitor poderá ver logo abaixo. Minha escala sai do nível mais pobre de correspondência ao nível mais rico, tendo como base um parâmetro fônico. Obviamente que nem sempre a coisa é tão linear, e, entre algumas categorias, a diferença é muito pequena, pra não dizer que talvez nem mesmo exista. Repito: é um esboço. Não tenho como fins uma substituição de termos; na verdade, nem sei se os termos que usei são os melhores, ou se a disposição dos graus é, ou mesmo se consegui elencar todos os tipos de rima possíveis; meu objetivo é mais o de incutir essa ideia, o de dar essa noção que certamente é muito mais produtiva e se aproxima das potencialidades de nossa língua sem cairmos em conceitos evidentemente ultrapassados.




E aí? Tudo em cima?
É hora da...
Rima!

A FABULOSA ESCALA RÍMICA.

Rima...
  1. consonantal: só as consoantes batem. ex.: foto - fita;
  2. consonantal com equivalência pós-tônica: as consoantes batem e as vogais pós-tônicas também. ex.: foto - feto;
  3. consonantal alternada: as consoantes batem e as vogais tônicas e pós-tônicas são trocadas. ex.: tocha - tacho;
  4. pós-tônicas proparoxítonas com paroxítona: as sílabas pós-tônicas de uma palavra proparoxítona rimam com uma palavra paroxítona. ex.: último - mimo;
  5. proparoxítona com variação tônica: rima entre duas palavras proparoxítonas de modo que só a vogal tônica mude. ex.: próxima - última;
  6. singular-plural com variação: rimas feitas entre uma palavra no singular e outra no plural de modo que, quando no plural, a tônica mude foneticamente. ex.: novo - povos;
  7. toante proparoxítona-paroxítona: entre uma palavra proparoxítona e outra paroxítona de modo que, tirando a penúltima sílaba da palavra proparoxítona, a rima formaria uma rima toante. ex.: súbito - susto;
  8. consoante proparoxítona-paroxítona: entre uma palavra proparoxítona e outra paroxítona de modo que, tirando a penúltima sílaba da palavra proparoxítona, a rima formaria uma rima consonantal. ex.: êxodo - quedo;
  9. proparoxítona-paroxítona com semi-variação: entre uma palavra proparoxítona e outra paroxítona de modo que a penúltima sílaba da proparoxítona seja uma repetição fônica da antepenúltima sílaba, ou seja, da sílaba tônica. ex.: túmulo - durmo; óbolo - colo;
  10. com consoante de apoio e variação: rima consonantal em que a consoante anterior à sílaba tônica também é inclusa no pacote, mas de maneira que haja uma variação fônica dentro da tônica. ex.: graveto - veto;
  11. proparoxítona com variação pós-tônica: rima entre duas palavras proparoxítonas de modo que as consoantes pós-tônicas mudem. ex.: filosófico - tópico;
  12. toante em cascata: onde uma palavra rima com mais de uma, geralmente uma expressão, formando ao todo uma rima toante. ex.: estrelas - esquecer das;
  13. toante: só as vogais tônicas e pós-tônicas batem; as consoantes, não. ex.: apenas - empenha;
  14. quase-consoante: quase uma rima consonantal, mas com um pequeno detalhe que lhe atrapalha. ex.: povo - polvo;
  15. singular-plural: entre uma palavra no singular e outra no plural. ex.: empenhada - derrocadas;
  16. consoante em cascata: onde uma palavra rima com mais de uma, geralmente uma expressão, formando ao todo uma rima consonantal. ex.: além da - lenda;
  17. consoante: rima em que todas as letras tônicas e pós-tônicas batem. ex.: espero - quero;
  18. com consoante de apoio: rima consonantal em que a consoante anterior à sílaba tônica também é inclusa no pacote. ex.: alegria - alforria;
  19. conglobante: rima consoante em que uma palavra engloba totalmente a outra. ex.: terra - aterra.

P.S.: Não sei se esta ideia já ocorreu a outra pessoa no passado. Conforme disse num comentário a outro comentário aqui no bloguinho, acho difícil que nunca tenha ocorrido a alguém uma ideia me parece até simples. Caso o leitor conheça algum nome, favor citar que lerei com muito agrado.

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