Langston Hughes (1902 - 1967).



FUNERAL NOTURNO NO HARLEM.
   
          Funeral noturno
          No Harlem:

          Onde arranjaram
          Esses carrões?

Já havia acabado o seguro —
Não o pagou, estava duro —
Mas hoje, ao menos, descansa
numa cama de madeira.

          Funeral noturno
          No Harlem:

          Quem que mandou
          A coroa de flores?

Vieram as flores
do amigo do amigo —
“Vou querer também,
se ocorrer comigo.”

          Funeral noturno
          No Harlem:

          Quem que pregou
          Pro negrinho morto?

O velho pregador
Pregou pra quem se foi —
Foram Cinco Dólares
Que sua garota pagou.

          Funeral noturno
          No Harlem:

Quando isto acabou
E a tampa foi batida
E a música concluída
E a última prece dita
E os seis carregadores
O carregarem morto
Pela Lenox Avenue
Que o rabecão correu rapidão:
          A luz da rua
          Brilha na esquina
          Como lágrima —
O menino que choravam
Era tão, tão bom
Para eles que traziam flores
Para ela que pagou as flores —
Só mesmo as lágrimas
          Engrandeceram
          O funeral.

          Funeral noturno
          No Harlem.

§

SONHOS.

Segure-se aos sonhos.
Se morrem, a vida
É pés no chão, asa
Partida.

Segure-se aos sonhos.
Quando eles se vão,
A vida é neve, a vida
É desolação.

§

O NEGRO FALA DOS RIOS.
(Para W. E. B. Du Bois)

Sei dos rios:
Sei dos rios antigos como a terra e velhos como
     o fluir do sangue humano nas veias humanas.

Minha alma foi a fundo como os rios.

Banhei no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Fiz minha cabana perto do Congo e ele me ninou até dormir.
Olhei pro Nilo e ergui pirâmides por perto.
Ouvi o canto do Mississipi quando Abe Lincoln
     desceu até New Orleans, e vi seu peito barrento
     dourar-se de crepúsculo.

Sei dos rios:
Antigos, sombrios rios.

Minha alma foi a fundo como os rios.

§

ENQUANTO ENVELHEÇO.

Foi há muito tempo.
Por pouco esqueço meu sonho.
Mas ele tava ali,
Na minha frente,
Brilhando feito sol —
Meu sonho.
E então o muro se ergueu,
Se ergueu devagar,
Devagar,
Entre eu e meu sonho.
Se ergueu até o céu —
O muro.
Sombra.
Eu sou negro.
Eu deito na sombra.
Não mais a sombra de meu sonho face a mim,
Acima de mim.
Só o muro duro.
Só a sombra.
Minhas mãos!
Minhas mãos negras!
Atravessem a parede!
Achem meu sonho!
Me ajudem a estraçalhar essa treva,
Esmagar essa noite,
Quebrar essa sombra
Em raios e raios de sol,
Em sonhos e sonhos rodopiantes
De sol!

§

DE MÃE PRA FILHO.

Te digo isso, meu filho:
A vida não foi pra mim escadinha de cristal.
Haviam tachinhas,
E farpas,
E lascas de tábua,
E lugares sem tapete —
Sem nada.
Mas a todo tempo
Eu segui subindo,
E pisando firme,
E vencendo barreiras,
E às vezes indo nas trevas
Onde não havia luz.
Então, filho, não vire as costas.
Não pare pra descansar.
Só vai achar mais difícil.
Não caia agora —
Pois eu tô indo, meu bem,
Tô subindo,
E a vida não foi pra mim escadinha de cristal.

§

CRUZ.

Meu velho, um velhinho branco.
Minha mãe, velhinha negra.
Se amaldiçoo meu velho,
A maldição vem e me pega.
Mas se amaldiçoo mamãe
Ou a mando ir se danar,
Me arrependo do que disse
E bem passo a lhe desejar.
Meu velho morreu na mansão.
Minha mamãe, indulgente.
Mas e eu, nem negro nem branco?
Vou morrer onde, minha gente?

§

NOTA SUICIDA.

Calma,
Doce face do rio...
Tá. Só um beijo...

§

A VIDA É BOA.

Fui lá pro rio
E na margem sentei.
Pensar não pude.
Pulei. Me afoguei.

Vim uma vez e gritei!
Vim de novo e chorei!
Fosse a água menos fria,
Teria afogado. Morrido.

Mas como tava fria! Tão fria!

Peguei o elevador.
Subi pro andar sessenta.
Pensei no meu bebê.
Quase pulo e me arrebento.

Fiquei lá e gritei!
Fiquei lá e chorei!
Fosse menos alto,
Teria pulado. Me arrebentado.

Mas como era alto! Tão alto!

Desde então vivo aqui.
Acho que vou vivendo.
Podia morrer de amor —
Mas pra viver, nasci.

E embora me ouças gritar
E me vejas chorar —
Por insistência, querida,
É que vais me ver morto.

A vida é boa! A vida é á toa! A vida é boa!

§

DONA E SUA DONA.

Trabalhei pruma mulher,
Até gente fina —
Mas tinha uma casa enorme
Que queria limpinha.

Fazer café, almoço
E jantar — também
Cuidar dos filhos,
Os seus "bens".

Lavar, passar, lustrar,
Andar com o cão —
Quase que me quebrou
Tanta ocupação!

Eu disse, ô Dona,
Cê tá afim
De fazer burro-de-carga
De mim?

Ela abriu a boca.
Disse, jamais, querida!
Você sabe, Alberta,
Somos amigas!

Eu disse, ô Dona,
Tá, nóis acredita —
Mas vou ser uma burra
Se eu for sua amiga!

§

LAR NO MUNDO.

Procuro por um lar
No mundo
Onde sombras brancas
Não desabem.
Mas isso não existe,
Irmãos negros,
E isso a gente
Sabe.

§

KLU KLUX.

Eles me levaram
Pruma área estranha.
Disseram, "Você crê
Na raça ariana?"

Eu disse, "Senhor,
A verdade mesmo:
Creio em tudo, se me
Deixar sair ileso."

O branco disse,
"Rapaz, será
Que você tá aí
Pra me ferrar?"

Me bateram na cara
E jogaram ao chão.
Ficaram me chutando
Por um tempão.

Um deles disse, "Olha
Aqui, praga africana —
E me diga se crê
Na raça ariana."

§

DANÇARINOS NEGROS.

Nós,
Nada a perder,
Devemos cantar,
Devemos dançar
Antes que os ricos
Do mundo
Conquistem-
-Nos.

Nós,
Nada a perder,
Devemos rir,
Devemos dançar
Antes que o riso
Escape-
-Nos.

§

OPRESSÃO.

Sonhos já não
São disponíveis
A quem sonha,
Nem canções
A quem canta.

Algures,
Negra noite
E aço frio
Prevalecem
Mas o sonho
Voltará,
E a canção
Romperá
Sua prisão.

§

PAZ.

As suas tumbas:
Os mortos ali,
Vencedores,
Perdedores,
Tanto faz.
No escuro
Não se vê
Quem ganhou
E vive em paz.

§

INIMIGO.

Bom seria,
Afinal,
Te encontrar
Cara a cara
Indo rumo
Ao tártaro...
E eu subindo,
Me sentindo
Ótimo.

§

CONTINUO A SONHAR.

Pego meus sonhos e deles faço um vaso de bronze
ao lado de uma fonte com uma bela estátua no centro.
E uma canção de coração-partido, no que te pergunto:
Entende meus sonhos?
Às vezes você diz sim,
Às vezes você diz não.
Todo modo, não importa.
Continuo a sonhar.

§

CUBOS

Nos dias dos cubos quebrados de Picasso
E nos dias das canções quebradas dos mais jovens
Um pouco bêbados pra cantar
E as mais jovens
Um pouco incertas de amar por amar —
Encontrei nos boulevards parisienses
Um africano do Senegal

Deus
Sabe porque os franceses
Se divertem trazendo até Paris
Negros do Senegal.

É o velho jogo do patrão e empregado,
         patrão e empregado,
                divertido
                     e
               divertindo,
      trabalhado e trabalhando,
Atrás de cubos pretos e brancos,
                    pretos e brancos,
         pretos e brancos

Mas se é um velho jogo,
Por diversão
Eles lhe dão três putas velhas da
            França —
Liberdade, Igualdade, Fraternidade —
E três entre eles doentes
A despeito das taxas governamentais
E as câmaras
E os doutores
E a Marseillaise.

Claro que o jovem africano do Senegal
Trouxe de Paris
Outras doencinhas
Pra espalhar entre as garotas nas cabanas de folhas de palmeira.
Traz a elas como presente
      doença —
Da luz à escuridão
            doença —
Do patrão ao empregado
                   doença —
Do jogo de branco e preto
      doença
Da cidade de cubos quebrados de Picasso
       d
           o
       e
   n
       ç
           a

§

O GUARDA-SONHOS.

Tragam-me todos os seus sonhos,
Sonhadores,
Tragam todas as suas
Melodias amadas
Que irei embrulhá-las
Numa camisa azul
Longe dos dedos tão ríspidos
Do mundo.

§

A vida é pra quem vive.
A morte é pra quem morre.
Deixe a vida ser música.

§

SABEDORIA E GUERRA.

Quem se importa? —
Ninguém, claro.
Ninguém aqui
Se importa
De fato.
Somos imbecis —
E, por isso,
Os fuzis.
Pensar
Vai contra
Querer.
Melhor —
Mais fácil —
Matar.

§

A AURORA NO ALABAMA.

Quand'eu virar compositor
Vou fazer pra mim algo sobre
A aurora no Alabama
Vou botar as canções mais lindas nela
Saindo do chão tipo névoa de pântano
E despencando do céu tipo orvalho fino.
Vou botar umas árvore altona nela
E o cheiro da ponta dos pinheiros
E o cheiro da terra vermelha depois da chuva
E os colarinhos vermelhos
E a cara colorida das papoulas
E os brações marrons
E os olhos da margarida do campo
Do povo preto e branco preto branco preto
E vou botar mãos brancas
E mãos pretas e marrons e amarelas
E mãos de terra vermelha nela
Tocando geral com dedos gentis
Geral se tocando naturalmente como orvalho
Nesta alvorada da música quand'eu
Virar compositor
E escrever sobre a aurora
No Alabama.

§

QUEM, SENÃO O SENHOR?

Vendo bem eu olhei
O homem que chamam de Lei.
Ele vinha rua abaixo
Em minha direção!
Eis que tive uma visão
De cair frio e sem vida,
Ou terminar num velório
Graças ao "Interrogatório".

Eu disse, "Ó meu Deus, me ampara,
Me livra daquele cara!
Não quero virar bagaço!"
Porém Deus não foi ligeiro
Pois que a Lei ergueu primeiro
O cassetete e surrou
Tanto que até me quebrou!

Agora sim nóis entende
Por que Deus não nos defende
Da violência policial.
Preto e pobre, eu afinal
Não tenho armas pra dar de volta.
Portanto quem, senão Deus,
Poderá me defender?


Não há o que ser esmiuçado. Olha, esse poema me emocionou. Ah, mas me emocionou bonito. Não creio que existam muitos detalhes estruturais que consigam explicar as razões. A poesia de Hughes opera com toda uma simplicidade impressionante, pra não mencionar, é claro, sua concisão certo modo epigramática, próxima da poesia popular e fortemente ressignificada graças a um fundo musical (embora, claro, exista aquele Hughes que simplesmente explode: por exemplo o do Astoria).

A jukebox, no geral associada à arte empacotada e industrializada (que renderia de Dudley Randall um basta!: poeta não é jukebox, aqui), é trazida para o poema de Hughes de maneira direta. Não creio que exista um fundo ou uma espécie de simbologia por trás da jukebox, como se ela fosse uma metonímia para o capitalismo ou a impossibilidade amorosa. É uma jukebox, como outra qualquer ― traz seus significados de produto industrializado mas não com a mesma carga que vemos no poema de Randall, por exemplo.

O poeta afirma que fará coisas sobre-humanas, em especial o que ele diz nos dois primeiros versos. Nos próximos o ambiente é mais urbano, e a coisa de certa maneira fica mais prosaica ao mesmo tempo que mais árdua. Historicamente, a poesia amorosa sempre pareceu tratar o amor numa esfera de impossibilidades. Na poesia amorosa, de maneira geral, há um respaldo que nos permite ler a ideia de envolver a amada com a noite do Harlem como algo não tão absurdo. Agora parar a barulheira da cidade?

A colocação de tal ideia no poema é muito bem feita. Pois isso sim é algo impossível.

O restante dos versos apresenta ideias associadas a verbos no imperativo, com a diferença de que agora não estamos mais na superfície das coisas ― a noite do Harlem ou as notações geográficas, a barulheira da cidade ― e sim no coração delas ― estamos, enfim, no Harlem, o que o uso do "my sweet brown Harlem girl" atesta, rompendo o "you" até então lido. É isso que deve ser gravado ― o íntimo. A canção de amor que existe na jukebox (daí o título de minha tradução).

É muito bonito.


CANÇÃO DE AMOR NA JUKEBOX.

Eu podia pegar a noite do Harlem
e com ela te envolver,
Pegar as luzes de neon e fazer uma coroa,
Pegar os ônibus da Lenox Avenue,
Táxis, metrôs,
E com tua paixão dar música à barulheira deles.
Pega as batidas do coração do Harlem,
Faz um tambor,
Bota num vinil, bota pra tocar,
E enquanto a gente escuta,
Dançar contigo até amanhecer ―
Dançar contigo, minha neguinha do Harlem.

§

JUKE BOX LOVE SONG.

I could take the Harlem night
and wrap around you,
Take the neon lights and make a crown,
Take the Lenox Avenue busses,
Taxis, subways,
And for your love song tone their rumble down.
Take Harlem's heartbeat,
Make a drumbeat,
Put it on a record, let it whirl,
And while we listen to it play,
Dance with you till day 

Dance with you, my sweet brown Harlem girl.

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