12 anos de escravidão.



E
stranho é que se espere avidamente por um filme retratando cruamente a escravidão... Ou que um filme assim seja comentado, analisado, debatido e, como sabemos bem o quê que rola, pois até aqui nada de mais, transformado em fetiche intelectual.

A obra original, escrita por Solomon Northup, está em domínio público:
https://archive.org/details/12yearsaslave00nortrich

Faço notar outros relatos, um gênero mais ou menos clássico na literatura estadunidense:

         Narrative of the life of Frederick Douglass, an American slave - Frederick Douglass:
https://archive.org/details/narrativeoflifeo1845doug

         Up from Slavery: An Autobiography - Booker T. Washington:
https://archive.org/details/upfromslaveryan00washgoog

         The story of Slavery - Booker T. Washington:
https://archive.org/details/storyofslavery00washrich

         Incidents in the life of a slave girl - Harriet A. Jacobs:
https://archive.org/details/incidentsinlife01jacogoog

         Narrative of Sojourner Truth; a bondswoman of olden time - Sojourner Truth:
https://archive.org/details/narrativeofsojou00gilb

Todos relatos autobiográficos que retratam a escravidão a partir de vários ângulos, desde o trágico engano na vida de Northup que reverbera até hoje (a prisão do ator Vinicius Romão, aqui), até a escravidão retratada desde o berço, como seria o caso da Sojourner Truth. A maior parte dos relatos termina com a superação, a volta-por-cima, o que é melhor visto no retrato de Douglass e no fato de que muitos dos autores se tornaram depois conferencistas famosos. A exceção é Harriet A. Jacobs, que no final do relato não consegue sua liberdade de fato: pelo contrário, ela é comprada por aquele que hoje é seu patrão. Abordam muito também a inclusão social, onde mais uma vez Douglass se destaca ao lado de Booker T. Washington.

A posterior subversão ou o aprimoramento de tais relatos seria dado com Weldon Johnson (Autobiography of an Ex-Colored Man, 1912) e Ralph Ellison (The Invisible Man, 1952). O título profundamente irônico de Johnson, um dos artistas negros mais influentes da História, não retrata um negro que sai da escravidão e busca a aceitação social, mas, pelo contrário, um negro já liberto que sente o ranço profundamente arraigado do racismo. O capítulo em que o narrador observa um negro ser linchado é extremamente pertinente em tempos onde a população quer porque quer fazer justiça com as próprias mãos. Além de ser seguido pela transformação do narrador num homem branco, num "cidadão de bem" (!!), e aqui a ironia de Johnson é extremamente mordaz, visto que, apesar de ser reconhecidamente branco por toda a sociedade (ou, melhor dizendo, como um Ex-Colored Man), ele é famoso por ser um grande artista de black music. Johnson falará outras vezes, ao longo de sua obra, grande estudioso que era de música, da apropriação branca de toda uma cultura negra não no sentido de criar uma comunicação viva entre culturas, mas de neutralizar e embranquecer a cultura negra.


(Weldon Johnson e Ralph Ellison, respectivamente.)

O caso de Ellison é ainda mais profundo. A metáfora do homem invisível é trabalhada em todos os seus níveis, e a revisitação dos relatos escravocratas anteriormente citados é também muito grande. Por exemplo, no fato de que geograficamente o narrador sai do Sul americano para o Norte em decorrência de uma sequência de erros e omissões ao levar o reitor da universidade para um passeio descompromissado e, acidentalmente, levá-lo a um rolêzinho pela realidade nua e crua. Ellison é nu e cru a todo instante. É profundamente metafórico, é profundamente irônico e cada passo do narrador é seguido de um significado, como o fato dele dormir numa sala abandonada plena de lâmpadas acesas. Mas, ao mesmo tempo, Ellison nos leva ao exterior da metáfora, à sua carnalidade. O narrador sabe que é invisível e tira proveito disso. Ele entra em contato com os movimentos negros e carrega atrás de si o fardo da pacificidade. Ele comete pequenos furtos e ri da face espantada de suas vítimas.

Claro que depois de Johnson e Ellison existiram vários outros artistas negros notáveis. Tanto antes como depois. Como agora. No âmbito da poesia podemos citar nomes como Paul Laurence Dunbar ou Langston Hughes (aqui), ou Amiri Baraka (aqui). E não precisaríamos nem sair de terras nacionais para encontrar o embate anti-escravocrata na carne dum Cruz e Sousa:

OS ESCRAVOCRATAS.

         Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
         manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
         viveis sensualmente à luz dum privilégio
         na pose bestial dum cágado tranqüilo.

         Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
         ardentes do olhar – formando uma vergasta
         dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
         e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta.

         O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
         da branca consciência – o rútilo sacrário
         no tímpano do ouvido – audaz me não soar.

         Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
         vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
         castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

Para não citar outras passagens de sua obra igualmente impactantes, como O Emparedado. E além de Cruz e Sousa, não nos esqueçamos de nomes como a injustamente esquecida e centenária Carolina Maria de Jesus ou um poeta como Solano Trindade, um Adão Ventura. Ou um Luiz Gama, grande poeta brasileiro também do século XIX cujo relato de vida, bem lembra Rubens Ricupero, é superior ao de Northup: aqui (postagem sobre o autor na Modo de Usar aqui).

Há muito o que ser dito sobre estes livros. Todos eles. Aguardar por um filme assim, numa indústria que tem tanto prazer em retratar o heroísmo fajuto da guerra (aqui), é sempre ótimo, sempre salutar. Mas que o debate não acabe por aí. Que não nos acomodemos nem usemos o filme apenas como janelinha, apenas como relato histórico. A obra de arte como mero artefato a favor do era-assim-no-passado. Fosse só no passado...

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