Edna St. Vincent Millay (1892 - 1950).



V
incent não é muito traduzida em língua portuguesa. A exceção é o poema Dirge without music, que ganhou variadas traduções como as de Jorge Wanderley (aqui), Carlos Drummond (aqui), Lauro Coelho Machado (aqui), Alphonsus Guimaraens Filho (aqui) e Roberto Freire (aqui). O poema Lament também se destaca, traduzido por Bárbara Rocha (aqui), Marcilio Medeiros (aqui) e esta, presumivelmente de Ian Garcez.

Observando do ponto de vista dos sonetos, que é onde Vincent se destaca (comparada a Shakespeare), a coisa não muda muito. Tenho, aliás, pouca coisa em mãos referentes a estes: afora três excelentes versões de Anna Amélia de Queiroz (aquiaqui aqui), sei de uma também ótima de Paulo Mendes Campos (aqui), duas de José Lira acompanhadas de delicioso texto (aqui), uma de Vasco Graça Moura (aqui), uma de Walnice Nogueira Galvão (aqui), uma de Waldéa Barcelos (aqui), uma de Cunha e Silva Filho (aqui), uma de Jorge de Sena (citada aqui), uma de Sérgio Miliet (aqui) e esta, infelizmente anônima.

Sua lírica se aproxima muito da lírica do poetinha. Creio que a vida de ambos pode ser perfeitamente posta em paralelo. O mesmo posso dizer da preferência e da importância do soneto em sua obra, da mescla de suas dicções, da habilidade compositória, da concepção do amor como algo eterno, enquanto dure (por mais que a concepção de Vincent comumente se dê após a separação). Citando José Lira, Edna St. Vincent Millay: versões de uma efêmera beleza,

Será que uma leitura mais ampla da obra poética de Edna St. Vincent Millay revelaria essa “temática do efêmero”?

Acho que sim, Lira. Ao menos, é o que o poema mais famoso de Vincent, First Fig, demonstra:

                    Minha vela queima inteira;
                        Ela há de ter um fim —
                    Ó quem me queira e não queira:
                        Quão amável, mesmo assim!

Por hora, é o que tenho pra falar. A versificação inglesa é pautada em todo um rebolado, um remelexo para que o poeta não caia no perigo do monótono, por exemplo, de um pentâmetro jâmbico — e os poetas têm o costume de escapar inteligentemente desses alçapões... A variação métrica de fato ou um trabalho rímico que não seja apenas coisa pra inglês ver são exemplos disso. Leia você esta ótima análise do soneto 42, o primeiro que traduzo, para se ter uma ideia do que estou dizendo. Assim sendo, se em minha tradução eventualmente pareço aloprar com versos que fogem do decassílabo heroico-sáfico ou com rimas toantes, fique dito que é solo seguro.  Um exemplo do que falo é o quinto soneto traduzido, que possui uma rima parcial anto-anco e, no terceiro quarteto, nos versos 10 e 11, respectivamente um hendecassílabo e um eneassílabo: ou seja, os dois, juntos, acabam no elas-por-elas e ganham uma espécie de medida geral decassilábica, o que é respaldado pelo fato de rimarem entre si e, logo, ritmicamente formarem uma só estrutura íntima.

Mas, apesar dos pesares, digo que minha estratégia foi a de partir do soneto de Vincent e traçar uma ponte (ponte necessária?) com o correlato nacional, a meu ver o da geração de 45: sabem como é; guinada clássica depois do modernismo, ou, como diz bem esse resuminho da internet (aqui):

A poesia dessa geração oscila entre o estetismo subjetivo a poética experimentalista. A palavra é valorizada na sua forma escrita, com o objetivo de restabelecer o formal e vernacular.

Acerca da questão, poderia recomendar o artigo Padrão e desvio no  pentâmetro jâmbico inglês: um problema para a tradução de Paulo Henriques Britto. Como, porém, é um artigo difícil de ser encontrado, sugiro Avaliação de tradução poética: um estudo de caso, de Giovana Cordeiro Campos, também ótimo.

O texto utilizado foi o disponível no sonnets.org e no Bartleby. Não me lembro de onde tirei o texto para o último soneto. Por isso postei o original logo abaixo.


                    Esqueço-me dos lábios que beijaram
                    Meus lábios, e onde, e como, e dos abraços
                    Até o raiar do dia. Mas os passos,
                    Fantasmas desta chuva que esperaram

                    No espelho por respostas, perturbaram
                    A dor serena em meu peito, estilhaços
                    Dos rapazes de outrora que em meus braços,
                    Pela noite e não mais, se consolaram.

                    Deste modo no inverno a planta nada
                    Sabe da ave que a deixa, sabido
                    O silêncio de seus ramos, assim

                    Como não sei dizer do amor vivido,
                    Mas, antes, da estação que recitada
                    Um pouco, um pouco já não resta em mim.

§

                    Não me culpe se a luz do dia ao fim
                    Do dia não caminha céu afora.
                    Não me culpe se o encanto chega ao fim
                    Do campo enquanto os anos vão-se embora.
                    Não me culpe se a lua está minguante,
                    Se a maré-alta excede o próprio mar,
                    Se o desejo se cala num instante
                    Ou se você já não sabe me amar.
                    Disto, aliás, eu sempre soube: amor
                    É não mais que uma flor que o vento arrasa,
                    Que uma onda na praia onde o horror
                    Se espraia nos destroços que defasa.
                              Culpe apenas o ser, lento em aprender
                              O que a mente está sempre a oferecer.

§

                    Devia ter te amado a cada instante,
                    Ter te dado meus versos mais verdadeiros;
                    E erguido os olhos, pra que os seus se encantem,
                    E nossas mãos juntado, por inteiro;
                    E ter minhas bobagens arrojadas,
                    Que te conquistaram pausadamente,
                    Nuas de orgulho e reserva, espalhadas
                    Como mapa de meus dias indecentes.
                    Eu, que fui, se você tivesse ficado,
                    Como o despertar dum sonho constante,
                    Não me importo se nada houver restado
                    De mim em ti, pois, como um acidente,
                              Sou um fantasma, alguém que até terias
                              Amado — mas só por um dia. Ou dois.

§

                    Se você me ama, leve meu sorriso
                    Por um instante ou deixe-me chorar
                    Por ti. Sei que o oscilante acaso quis o
                    Que viesse à tua estrela arruinar —
                    A tesoura que falha quando corta
                    O tecido, você que nem suspeita
                    Quão firme e forasteira se suporta
                    Essa fortuna que eu guardo, perfeita.
                    Por este dia ao menos, meu amor,
                    Fique ao meu lado até o fim do dia;
                    Que eu ande pela estrada sem a dor
                    De que você andou aqui, um dia.
                              Vamos em direção à aurora: amor
                              É isso, seja lá o que isso for.

§

                    Apenas sei que estar contigo é pura
                    Tortura, e que eu seria, deste encanto
                    Sem amor, livre! Arco-íris, branco
                    Diamante, o intenso azul na alvura
                    Dos icebergs, ou conter na carnadura
                    Um sabre ou raio de luz — sinto e canto
                    Tais coisas como belas, e, no entanto,
                    Sei belas a mudez e a névoa escura.
                    Não há abrigo em ti onde quer que seja;
                    Intolerável ritmo, o arrebatamento
                    Tanto esmaga quanto tira o alento.
                    Irei embora e assim quero que seja:
                              Nos píncaros do Amor esse recorte
                              De Amor que com amor chamamos Morte.

§

Agradeço a Mário Zeidler Filho pelos comentários à tradução.

                    Vistamos terra, quando antes vestíramos
                    Mirta, tão logo a treva nos consuma
                    E tudo o que gozáramos e ríramos
                    Frente aos mais sábios, mais dócil se assuma;
                    Tão logo o bebê que inda está debaixo
                    Do sexo juvenil lançar-se ao mar —
                    Quem é, que cata moedas no riacho?
                    Nenhum de nós, meu bem, o poderá —
                    Tão logo seja assim, que alguém, ao ar puro,
                    Quando jazemos nesta sepultura,
                    Não diga a nossas almas que perjúrio
                    É o amor, e que ele é pura impostura —
                              Mas veja em nosso túmulo quem por
                              Toda uma vida acreditou no amor.


When we that wore the myrtle wear the dust, / And years of darkness cover up our eyes, / And all our arrogant laughter and sweet lust / Keep counsel with the scruples of the wise; / When boys and girls that now are in the loins / Of croaking lads, dip oar into the sea,— / And who are these that dive for copper coins? / No longer we, my love, no longer we— / Then let the fortunate breathers of the air, / When we lie speechless in the muffling mould, / Tease not our ghosts with slander, pause not there / To say that love is false and soon grows cold, // But pass in silence the mute grave of two / Who lived and died believing love was true.


PRIMAVERA.

Por que propósito, Abril, vir de novo?
A Beleza não basta.
Você já não me acalma com a vermelhidão
De folhinhas abrindo, aderidas.
Eu sei o que sei.
O sol queima minha nuca enquanto observo
Os espinhos do açafrão.
O cheiro da terra é bom.
Parece que a morte inexiste.
Mas o que isto quer dizer?
Não só jazem os cérebros de homens
Roídos por vermes.
A própria vida
É nada,
Uma taça vazia, um voo de estrelas atapetadas.
Não basta que anualmente, colina abaixo,
Abril
Venha como um idiota, balbuciando e esparzindo flores.

*

SPRING.

To what purpose, April, do you return again?
Beauty is not enough.
You can no longer quiet me with the redness
Of little leaves opening stickily.
I know what I know.
The sun is hot on my neck as I observe
The spikes of the crocus.
The smell of the earth is good.
It is apparent that there is no death.
But what does that signify?
Not only under ground are the brains of men
Eaten by maggots.
Life in itself
Is nothing,
An empty cup, a flight of uncarpeted stairs.
It is not enough that yearly, down this hill,
April
Comes like an idiot, babbling and strewing flowers.

Comentários

  1. O que falar desse blog que mal conheci e já considero pakas? :3

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  2. Também, um blog se gaz forte, pelas mãos que o conduzem.....Fantástico, meu amigo!!!

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  3. Existe algum livro em que esses poemas traduzidos estejam compilados?

    Além disso, um comentário vindo de uma leiga. Tenho a impressão de que a maioria dos poemas dela traduzidos para português são os mais tristes. Porém, lendo sua obra, tenho a impressão de que ela tem vários poemas felizes, de uma felicidade absurda. Por que não traduzir esses também?

    Obrigada!

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    1. Mabel,

      Infelizmente, não! N"O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos", com organização do Oswaldino Marques, você vai encontrar as traduções da Anna Amélia de Queiroz da autora -- mas é só o que sei.

      Quanto aos poemas mais alegres da autora, sim, você está certa! Ela tem poemas, como você bem disse, de uma felicidade absurda. Tenho uma preferência específica pelos sonetos -- mas buscarei traduzir mais poemas alegres da autora.

      Obrigado pela visita!

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