Dorothy Parker (1893 - 1967).


(Foto retirada do dorothyparker.com)


P
ouco foi traduzido de Dorothy Parker no Brasil. Existe algo de Drummond (Poesia traduzida, Cosac Naify), de Angela Carneiro (aqui aqui), de Guilherme Miranda (aqui), de Nelson Ascher (aqui). Por mais que sejam todas boas traduções, com exceção de Angela Carneiro (traduções literais), são esparsas, o que é uma pena. Costumamos nos lembrar um pouquinho mais da produção em prosa de Dorothy, onde podemos contar com traduções de Linda Roubet e Raul Roque (Antologia do conto moderno, editora Atlântida, 1945), e Rubens Matuck (Big loira e outras histórias de New York, editora Cia das Letras, 1987). Além, é claro, de uma biografia estranha ao quadrado de Dominique de Saint Pern (A Extravagante Dorothy Parker, editora Civilização Brasileira, 1987; resenha de Alfredo Monte aqui).

Nesta pequena seleção que fiz, muitos preceitos contidos em textos anteriores são mantidos. Mas faço notar que a lírica de Parker, se não possui as notas transcendentais do amor de Browning nem o amor desregrado e serenamente visto de Vincent, possui uma tonalidade que ressalta a mulher, ressalta sua força de forma magnífica. Assim sendo, busquei manter a forma do original (mas lembrando que, até onde pude constatar, a poesia de Dorothy não é ferrenhamente construída, de modo que alguns deslizes [métricos, rímicos] são relativamente aceitáveis) e o tom de coloquialidade à disposição do eu lírico.


                    Sei que fui bem mais feliz ao seu lado.
                    Mas o que passou, passou, e isso é tudo.
                    E o bem que veio triste e demorado 
                    Puro e apurado foi seu conteúdo.
                    Não farei obras de amor recusado
                    E você, homem, continuará mudo.
                    Ficará, penso, um pouquinho assombrado
                    Se me manter fiel, acima de tudo.

                    E no entanto, esta falta, esta doença:
                    Percorrer meus dotes, e dá-los, dá-los,
                    Porque a carga de dá-los é pequena.
                    E a ti, que não me pede versos vassalos,
                    Dou-te, enquanto viver, a minha ausência.
                    Além disso eu não posso. Não compensa.

§

CANÇÃO MUITO CURTA.

                    Certa vez, na juventude,
                    Feriram meu coração 
                    Feriram de forma rude
                    E o jogaram ao chão.

                    Amor é lenda sem sorte,
                    Amor é maldição.
                    Pior que isso só o porte
                    De meu coração.

§

NOTA SOCIAL.

                    Moça, moça, se encontrar
                    Um que não dá o que falar,
                    Um que diz que sua esposa
                    É o amor da vida toda,
                    Um que vive te jurando
                    Que foi fiel, foi um santo
                    E só tem olhos pra você...
                    Moça, moça, é bom correr!

Comentários

  1. Lindos os poemas que você escolheu. Estou buscando uma tradução da obra "The Portable Doroty Parker", para um desafio literário, e não encontrei nenhuma edição. Uma pena, seu post me aguçou ainda mais a curiosidade.
    Mari,

    Livros & Nerds

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