John Donne (1572 - 1631).


(Donne aos 49. De um quadro anônimo de 1622. Créditos.)


J
ohn Donne (Inglaterra, 1572 - 1631), nos dizeres de Augusto de Campos, foi o primo pobre de Shakespeare mais poeta-por-poeta que Shakespeare. Para Otto Maria Carpeaux, dono da melhor poesia erótica do Ocidente e algoz do petrarquismo renascentista. Pra vocês porem tento na força do cara. Mesmo escondidinho, ainda hoje!, detrás da dinamite explode-conceitos das edições críticas e comentadas, Donne é o suficiente pra mostrar a riqueza de sua época, bastando que se cite, além dO Bardo, um Marlowe ou o próprio Donne, ou a leva dos metaphysical poets (isto é, marroumeno barrocos) que tanto encantaria um T. S. Eliot séculos depois.


Óbvio que nem sempre foi assim; a poesia avant-garde de Donne, com incursões no prosaico, no sexo, na carne, e numa instrumentação metafórica inventiva que conseguia tratar o abstrato de modo concreto, essa tão afamada concretude que, ao contrário do que diz o senso-comum, não é inimiga da poesia, quando não seu ponto de chegada, seu objetivo; enfim; toda essa aparelhagem não foi muito bem vista ao longo dos séculos, de modo que, como bem sabemos, grande parte da produção elizabetana, de que Donne é um dos arautos mais vivos, permaneceu cerceada e castiça, apalermada e fruída num recato que é simplesmente oposto à índole de um poeta que, como bem formulou Augusto, esteve entre o dom e a danação. Mas assim: sem optar por nenhum deles, um poeta que conseguiu ser carnal nos Holy Sonnets e transcendental na ida ao leito (entre o misticismo e o erotismo, diz Carpeaux).

A face religiosa vou deixar pendurada na conta. Ao leitor que porventura tenha ficado curioso, recomendo Traduzindo La Corona, de John Donne, de Lawrence Flores Pereira e Marcus de Martini. É de Martini também o texto John Donne: considerações sobre vida e obra, uma das melhores introduções à poesia do autor.

Já o outro Donne, pés-na-cama... Tcharã.

Augusto de Campos tem traduções para 11 poemas do autor que são praticamente imbatíveis (O Anticrítico, Cia das Letras... 1986!...). Já li, reli, analisei, reanalisei, segui os passos e quase decorei as saídas do Augusto. Se um dos problemas de sua tradução é o de que o esquema rímico de alguns poemas (como The Ecstasy) foi mudado e desafixado, trata-se de algo compreensível para qualquer tradução poética e ainda mais compreensível frente aos ótimos resultados que Augusto alcançou. Como, porém, a banda não pode parar, e temos que tocar o bonde, pois uma das formas de se homenagear uma boa tradução é criticando, querendo fazer melhor ou percorrendo as sendas que ela aponta, aqui estou.

Afinal de contas, nunca é demais lembrar que a clareza, a qualidade das traduções de Augusto foi tanta que sua tradução para Elegy: to his mistress going to bed foi musicada por Péricles Cavalcanti e interpretada por Caetano Veloso:


Outras traduções são as de Paulo Vizioli e Afonso Félix de Sousa, ambas estudadas na obra John Donne e a crítica brasileira: três momentos, três olhares, de José Garcez Ghirardi (AGE Editora, 2000). Vizioli eu conheço de outros carnavais, especialmente Oscar Wilde, William Blake, Pope e Yeats. Além, é claro, do ensaio A tradução de poesia em língua inglesa: problemas e sugestões, grande referência. Verdade seja dita, porém, que Vizioli não acertou a mão; o lastro classicista que impôs, por exemplo, ao traduzir Pope (inclusive com a ideia genial de aplicar o alexandrino), não deu muito certo aqui, donde o artigo de Nelson Ascher publicado na Folha de São Paulo, 29/04/85, e que infelizmente entrou no rol de "tradutores também desamam": Vizioli respondeu a Ascher em 05/05/85 e aí já viu. O leitor pode ler um pouco a respeito no artigo John Donne no Brasil, de Ghirardi e John Milton, recomendado também como comentário e análise da obra do autor. Já quanto às traduções de Afonso Félix, não pude lê-las; conheço a produção poética do autor e imagino que ele deva ter feito um bom trabalho, dado que Afonso foi um expoente da Geração de 45 e se embrenhou ele mesmo no campo da Coroa de Sonetos.

Há, por fim, do que sei em terras nacionais, a tradução de alguns sonetos por Paulo Henriques Britto publicada no quarto volume da revista Inimigo Rumor (editora 7Letras). Posto que Britto é um dos maiores tradutores do país, e exímio poeta, mais uma vez imagino sua grande qualidade. Mas não posso mensurar nada. Talvez lamentar que seu plano de traduzir e publicar Donne ainda não tenha se concretizado, conforme expõe em entrevista (aqui). É de Britto também o artigo Fidelidade em Tradução poética: o Caso Donne, onde contra-argumenta as posições desconstrutivistas de Rosemary Arrojo e chega à conclusão de que é sim possível mensurar o quanto uma tradução é melhor que outra. O leitor pode ter acesso, de modo meio torto, ao ensaio de Britto a partir de outro texto seu, É possível avaliar traduções?, e do ensaio de Juliana Cunha Menezes, Avaliações minimamente objetivas de traduções poéticas, também excelente. A análise objetiva ou minimamente objetiva, conforme dito por Juliana Cunha Menezes, de Britto entre a tradução de Vizioli e a de Augusto comprova o que disse, de que a tradução de Augusto é superior à de Vizioli, sem necessitar cair em argumentos irrespondíveis, como o de "captar a alma" ou coisa do tipo.

Avante.

Minha estratégia foi basicamente a de transpôr um Donne coerente com o que possivelmente existiria em Língua Portuguesa, donde a escolha do verso decassilábico ao invés do dodecassílabo de Flores Pereira (se bem que Donne usa também, às vezes, versos de 6 pés), mas também mantendo algumas características do original, como no caso dos versos de 8 sílabas: eles praticamente não existiram durante a Renascença/Barroco português, tendo caído em desuso no século XIV e só retornado no século XIX. Eu bem que poderia espiar o que um Camões ou Bocage fizeram, no que toparia, por exemplo, com o formato das canções camonianas, que se utilizam de mesclas de versos de 10 e 6 sílabas. Ou então espichar estes versos de 8 para versos de 10, solução usada por Augusto de Campos com grande êxito. Contudo, conforme disse, optei por manter algumas características dissonantes para que Donne não fosse inteiramente aclimatado, o que aliás seria uma forma de infidelidade. Pois, afinal de contas, a variedade de formas da poesia inglesa da época era muito maior que a daqui, bastando que se olhe para o teatro shakespeariano.

Sobre a métrica, cumpre notar que Donne é famoso por seus pés frouxos, quebrados, especialmente em sua poesia carnal, que é a que dou preferência na minha seleção. Na verdade, há uma discussão por si só acerca da métrica em Donne. O artigo The Reputation of John Donne as a Metrist, de Arthur H. Nethercot (aqui), analisa toda uma recensão crítica acerca desse aspecto. E de resto, basta que se lembre Coleridge que, no poema On Donne's Poetry, já abordava essa questão:

          Pois John Donne, cuja musa trota em dromedário,
          Fundia ferro bruto em amor necessário:
          A rima rija e coxa, o êxtase inexato,
          O engenho, uma explosão, e o sentido, compacto.

Mas, sobre essa tal métrica frouxa, corrijamos: "frouxa". Esse "frouxo" é muito distante da realidade, quando, pelo contrário, a poesia de Donne é mais forte, é mais tesa (usando-me da denominação de Ricardo Domeneck) do que a imensa maioria do que era produzido na época e que seguia a calculadora da escansão poética. A esse respeito, é famoso o testemunho de Ben Jonson a Drummond de Hawthornden, de que Donne era o primeiro poeta do mundo em algumas coisas mas que não mantinha o acento, razão pela qual merecia ser enforcado. Samuel Johnson, um pouquinho depois, e a quem se deve a denominação realmente imprecisa de "metaphysical poets" aos barrocos ingleses, referindo-se ao grupo de um modo geral, dizia que

Os poetas metafísicos eram homens instruídos, e mostrar sua instrução era seu único propósito; mas, infelizmente decidindo-se a mostrá-lo em rima, ao invés de escrever poesia eles escreveram apenas versos e muitos desses versos baseados no julgamento mais dos dedos do que do ouvido; pois a modulação era tão imperfeita, que eles apenas podem ser considerados versos contando as sílabas.

Lembrando que o sistema métrico inglês é o acentual-silábico, baseado tanto no número de sílabas quanto nos acentos. Isto é, é um sistema baseado nos pés. Diferente do nosso, baseado apenas no número de sílabas.

Desse modo, o tradutor ganha margem de manobra. Para, contudo, colocarmos tudo preto no branco, as estatísticas métricas dos poemas que não canções, pois o gênero canção, em língua portuguesa, é por si só de métrica extremamente cambiante, são: no primeiro poema, The Cannonization, 8% dos decassílabos é de medida provençal (4-7); 12% possui cesura na 5; 8% possuem 9 sílabas; e 4% 11. Lembrando que nenhum dos versos de 8 ou de 4 sílabas saiu da medida. No segundo, The Anniversary, 5,55% dos decassílabos tem 11 sílabas; 11,11% é de medida provençal; 16,67% possuem cesura na 5; 33% dos octossílabos possuem 7 sílabas; e 1 verso de 12 sílabas na verdade possui 10 ou 11, dependendo da escansão. No terceiro, The Rising Sun, 11% dos decassílabos são acentuados na 5; 5,55% possuem cesuras 2-7; 11% é de medida provençal; e 5,55% são hendecassílabos. E em A lecture upon the shadow, 1 dodecassílabo, 1 verso de 10 sílabas reduzido a um de 8; e 1 verso de 8 com 7.

Deste último, cumpre notar que o poema é todo escrito em rimas masculinas. Em língua portuguesa, uma transposição adequada seria a de traduzir o poema todo em rimas graves, conforme estudos de Cavalcanti Proença e Glauco Mattoso: isto é, são o tipo de rima que predominam em nossa língua e que apontam uma utilização predominantemente masculina na poesia. Não pude, contudo, manter este aspecto.

Já falando em rimas, quis maneirar ao máximo o uso de rimas toantes por mais que, fatalmente, elas ocorram, o que é normal até mesmo nos autores mais ferrenhos da literatura inglesa (por exemplo, Pope). No caso da primeira estrofe da primeira canção, eu tive até que mudar o esquema rímico do original para manter uma das imagens mais estranhas de Donne, proto-surrealista: "Get with child a mandrake root". Minha primeira tentativa de traduzir os versos 2 e 4 havia ficado como "E a mandrágora p'la raiz / (...) / Diz quem vai pro inferno, me diz". Ritmicamente acho que é boa, mas incorreria num corte perigoso. E, numa segunda tentativa, operando nos versos 3 e 4, "Diz pra onde vai o Presente, / Diz quem pisa no Diabo."

Também tentei trazer um Donne mais ou menos nosso contemporâneo, um Donne no pé-do-ouvido, mas sem exageros, indo nos detalhes, na maciota de, por exemplo, às vezes traduzir a segunda pessoa do original para a terceira. Ou tropeçando e terminando num rolo, como no caso do primeiro Song. É um processo que se avizinha de quando Augusto traz Lupicínio Rodrigues na sua tradução de The Expiration.

Em alguns casos, tive que mudar o sentido de alguns versos, o que é praticamente um ossos do ofício e que, lógico, pode ser uma bola fora — mas fiz o máximo pra não ser. Um dos poemas onde tais substituições mais ocorreram foi o poema The Canonization, especialmente graças à minha tarefa de tentar manter as rimas em "-ame" que abrem e fecham o poema, sem, contudo, a repetição da palavra "love". Veja-se o caso mais crítico, final da terceira estrofe, onde fiz uma substituição Donne abstrato-transcendental e Donne carnal-sexual: "We die and rise the same, and prove / Mysterious by this love.", que traduzi para "O neutro sexo e avivando o certame / Que Amor acame." Para, contudo, não assustar o leitor, como disse essa foi a parte mais crítica. O restante está em níveis bem menores. Mesmo na hora de transformar "And we in us find th’ eagle and the dove." em "E encontramos em nós o mel e o enxame." não creio que fugi muito do sentido do original, de paz e predação ao mesmo tempo — talvez tenha fugido do tropos, da metáfora clássica pomba-águia; mas Donne usou metáfora parecida no soneto The Token"Send me some honey, to make sweet my hive".

Dos poemas selecionados, creio que, com The CanonizationThe AnniversaryThe Rising Sun na mão, o leitor poderá ter uma boa noção de uma fatia da obra. Sobre Canonization, além do que citei sobre dom e danação, cumpre notar que o poema apresenta de modo bastante explícito o conceito de wit, no que remeto novamente o leitor ao artigo John Donne: considerações sobre vida e obra de Marcus de Martini:

A busca pelo “wit” – essa agudeza ou engenho verbal de criar imagens inusitadas – tornar-se-ia uma constante na poesia de Donne e de uma série de poetas que veriam ali um modelo a ser seguido. Poetas que – por isso – acabariam por receber a alcunha de “metafísicos”. Como afirma o crítico George Williamson, no século XVII, o poder da metáfora era com freqüência considerado como a força básica da poesia (1962, p. 24). Segundo Winny, o uso do “wit” tem suas raízes na retórica formal, que havia sido redescoberta e popularizada pouco antes de Shakespeare iniciar a sua carreira (1973, p. 92). Para um crítico da época, John Hoskins, o “wit” poderia ser de certa forma definido como o “poder de criar surpresa emocional pela combinação ou contraste inesperados de idéias ou imagens geralmente diversas, especialmente retiradas de coisas incompatíveis ou opostas” (apud Williamson, 1962, p. 25). No entanto, a crítica acerca desse termo é vasta e conflituosa. Joseph Anthony Mazzeo (in Clements, 1966) arrola algumas teorias acerca da origem do estilo dos metafísicos ingleses, baseado este no emprego do “wit”. Entre elas, há a “teoria do emblema”, segundo a qual o procedimento metafórico dos metafísicos teria origem na arte pictórica, e ainda a teoria que liga a poesia metafísica ao conceptismo barroco e a outras tendências do mesmo período. Nesse sentido, podemos fazer certa relação entre alguns recursos usados pelos metafísicos e aqueles de que se valeram autores mais próximos a nós como Gregório de Matos e Padre Antonio Vieira, por exemplo.

Optei traduzir "wit" para "engenho e arte", tendo em vista, além dos reflexos camonianos racionais e artísticos, os lastros mecânicos ou pictóricos apontados.


Já sobre The Anniversary e The Rising Sun, para ainda citar Martini, ambos conseguem evidenciar bem "uma vertente [da poesia de Donne] que canta o amor correspondido e consumado, tanto sentimentalmente quanto fisicamente (cf. Winny, 1973, p. 120)." A lecture upon a shadow é um Donne barroco além do próprio barroco e que me lembra, anacronicamente, aquele poema do Kaváfis onde o pôr-do-sol chega só até metade do leito. E os outros dois poemas são poemas que revelam aquela faceta de Donne e da poesia de sua época que ainda hoje é extremamente negligenciada: as canções.


O texto utilizado foi o disponível no Selected Poems, Penguin, com seleção, organização e prefácio de John Hayward, baseando-se no texto das edições de 1633 e 1635. Com exceção do último poema, não incluso na obra, cujo texto adveio do Bartleby, edição de 1896 por E. K. Chambers.










A CANONIZAÇÃO.

Pelo amor de Deus, cale-se: e que eu ame.
    Ou zombe meu ócio e doença,
    Ria de minhas rugas e sentença
E se enriqueça e se aprimore; clame,
    Busque por um lugar e note
    A virtude dele e os seus dotes;
Veja o poder dos reis e se devote
A dar à tua sede o que ela exclame
Para que eu ame.

Quem, porque amo, se torna mais infame?
    Que barcos meu clamor naufraga?
    Que plantações meu pranto estraga?
Quando meu mal apagou o liame
    Co'o que há de vir? Ou a febre
    Que sinto aumenta a lista fúnebre?
Quem guerreia quer guerra, e a quem celebre
Contrato, dê-se um contrato sem ditames,
Embora eu a ame.

Somos feitos de amor. Mesmo que chame
    A nós dois de moscas sem justa
    Causa, nós morremos à nossa custa
E encontramos em nós o mel e o enxame.
    O enigma da fênix, engenho
    E arte graças a nós: sendo
Um só, estamos nele, assim mantendo
O neutro sexo e avivando o certame
Que Amor acame.

Se não for pra viver de amor, proclame
    A vida acabada; e, se a cova
    Não servir, sirva o verso de prova
Da nossa história; e, a História não a exclame,
    Façamos sonetos só nossos;
    Como urna bem urdida, os ossos
Também virem pó, virem destroços,
E que estes hinos canonizem, clamem
O nosso amor;

Que digam: "Teu amor, posto em exame,
    Fez um do outro um eremita;
    Se esteve em paz, agora a raiva o habita.
Tu, que uniste espíritos num liame
    E mergulhaste em teu olhar
    (E o espelho, que epilogar-
-Te busca, o fez) todo e qualquer lugar,
Vila ou corte: clame pelos ditames
De teu amor!"




O ANIVERSÁRIO.

    Todos os reis, seus favoritos,
    O prestígio e os dons mais bonitos,
E o próprio sol, que faz o dia e é mais
Velho em um ano do que o foi jamais
Quando primeiro nós nos encontramos.
O mundo chega ao fim; o amor que amamos,
    Contudo, não decaiu:
Ele só ama aquilo que sentiu,
Ele foge de nós e nunca fugiu,
Guardando o fim e o sem-fim de quando existiu.

    Duas tumbas para nós dois
    Onde a morte não se impôs
Construamos, pois que, assim como os reis
(E quem reina em um, reina em outros três),
Abandonaremos olhos e boca
Jurados de juras tristes e roucas;
    Mas a alma habita a paixão
(E a mente a acompanha) e deve então
Provar que a paixão cresce quando não
Restarem senão restos dentro do caixão.

    Seremos felizes, enfim!
    Mas hoje não é bem assim.
Reinamos por aqui, e outros reis
Como nós não reinam de uma só vez.
Pois quem é tão seguro como nós,
Se quem porá um fim será um de nós?
    Temamos, mesmo sem motivo.
Vivamos um amor fértil e vivo
Que, em ser vivo, seja eterno e infinito:
Pois isto, meu amor, isto é só o início.





O SOL RAIANDO.

      Velho sol, sol de zombarias,
      Por quê será
Que da janela eu te ouço me chamar?
Correm a você nossas alegrias?
      Arrogante e atrevido, brigue
      Com o estudante que se atrasa,
   Diga ao caçador que o rei vem, obrigue
   A formiga a cuidar de sua safra.
Para o amor, a estação, o clima, o dia
E as décadas são trapos sem valia.

      Se teu raio é cortês e forte,
      Por quê pensar?
Eu os enublo e eclipso num piscar,
Mas não para perdê-la de meu norte.
      Se os olhos dela não te cegam,
      Olha e amanhã por favor diga
   Se as Índias de especiarias sossegam
   No mesmo lugar, ou aqui comigo.
Pergunte, e te dirão, do que foi feito
Dos reis mortos: "Aqui, no mesmo leito."

      Ela é o Reino, e eu o reino:
      Nada mais é.
Os reis nos seguem e, perto disso, é
Alquimia o dinheiro e a honra, um treino.
      Sol, quase alegre como nós,
      O mundo encolhe, pode ver:
   Se é seu dever que aqueça o mundo, após
   A ajuda fica fácil aquecer.
Brilhe para nós, sol onipotente:
Baste a você este leito somente.


*: a primeira estrofe deste poema foi traduzida por Décio Pignatari, inclusa no livro Os meios de comunicação, de Marshall MacLuhan (editora Cultrix): "O Sol Nascente. // Velho sol bobo e atarefado, / Por quê você nos chama / Pelas janelas e cortinas? / As estações de quem ama / Seguem teu curso, por acaso? / Vá acordar meninas / Atrasadas para a escola / E aprendizes infelizes, / Seu malandro pedante / E descarado; / Vá dizer aos caçadores reais / Que o rei vai à caça, / E às formigas do campo / Que vão para os trigais. / O amor despreza climas e estações / E são farrapos do tempo / Para ele / As horas, os dias e os meses." Como sempre, Pignatari muito atento às reentrâncias coloquiais dos autores que traduzia. MacLuhan chama a atenção para o desprezo de Donne para com o tempo burguês, o tempo do relógio, em contraposição ao tempo aristocrático, tempo vital ou que-o-valha, tônica, aliás, muito presente nos sonetos de Shakespeare. A redução de todas essas marcações do tempo a "farrapos do tempo" (the rags of time) é o ponto central da argumentação de MacLuhan. Na primeira versão da tradução, estampei "O amor ignora o clima, o dia, a hora / E o mês, tudo que o tempo se assenhora.", mas, relendo o texto de MacLuhan, decidi privilegiar este aspecto sem dúvidas importante.





UMA LEITURA SOBRE A SOMBRA.

Acalme-se, que irei te expôr,
Meu amor, as leis do amor.
   As horas que forem tomadas
   Serão para andar de mãos dadas
Com as sombras que nós dois produzimos.
   Mas agora o sol brilha lá no alto,
   As sombras sob nosso sapato,
E o forte brilho empurra tudo às últimas.
Enquanto nosso amor crescia,
A máscara, a sombra fluía
De nós, o que só ontem ocorria.

Este amor não subiu ao patamar:
Mas ainda é o bastante ao outro olhar.

E a não ser que nos baste o agora,
Faremos novas sombras, muito embora
   A primeira servisse apenas
   Pra cegar. Já estas se empenham
Em nós, e a nós querem cegar. Assim,
Se nosso amor se queda orientalmente,
   Eu minto e você também mente
   E escondo de você quais os meus fins.
As sombras da manhã se esvaem.
Estas, porém, crescem, recaem
Por mais que o dia encurte se as horas decaem.

Pois o brilho do amor sendo constante,
O dia nasce e é noite num instante.




CANÇÃO.

Vai, pega a estrela cadente
   E engravida uma mandrágora,
Diz quem tem o diabo em mente
    E onde o Passado está agora,
Me ensina a ouvir a sereia
Ou fugir da inveja alheia
         E encontrar
         Qual o ar
Ajuda o honesto a prosperar.

Se a etéreas anomalias
   Teu Ser nasceu predisposto,
Vai, cavalga por mil dias
   'Té o tempo nevar teu rosto,
E então voltes e relates
Tua vida e disparates,
         E garantas
         Que entre tantas
E tantas não existem santas.

Mas diz, se encontrares uma;
   Viagem assim foi doce.
Nem pensa, e eu não penso, numa
   Aproximação que fosse.
Pensa que ela foi sincera
Até então: mas espera
         E vê
         Que
Ela foi falsa a dois ou três.


*: poema também traduzido por Jorge de Senna: "Agarra a estrela cadente, / mandrágora vê se emprenhas, / encontra o tempo fugente, / quem ao Diabo deu as manhas, / diz-me como ouvir sereias, / não sofrer de invejas feias / e que brisa / nos avisa / dos caminhos que alma pisa. // Se é teu destino buscar / que não há quem veja ou meça, / noite e dia hás-de trotar / té que a neve te embranqueça, / e ao voltar dirás que baste / maravilhas que passaste / e que não / viste então / uma mulher sem senão. // Se uma achaste verdadeira, / valeu-te a pena a cruzada. / Mas eu não caio na asneira / de tê-la por minha amada. / Honesta seria ainda / ao tempo da tua vinda. / Mas agora / já teve hora / de a dois ou três ser traidora."
      E também por José Roberto O'Shea, no livro Gênio (editora Objetiva), de Harold Bloom. Aliás, excelente tradução da obra toda, com a honestidade e esforço sobre-humano de manter as formalidades dos vários poemas e excertos que Bloom cita. Não tenho o livro em fácil acesso. Cito, de cabeça, os custosos versos 2 e 4: "(...) / Dá à mandrágora um trato brabo / (...) / Diz quem dá as patas com o diabo / (...)".




CANÇÃO.

Parto, felicidade minha:
   Fique sozinha,
— Ou talvez não,
Se deixo meu ser em tua mão
   E te levo no coração —
   Até que à nossa vista
      A abstinência insista
      Em negar a nós dois
E anoiteça logo depois,
   Mas só para nós dois;
      Não dê chance à dor,
      Mas pense que nosso
         Amor
      Dirá de nosso corpo
        Corpo-a-corpo.

Nunca se permita a escrita
   Da dor que te habita;
   Quando estivermos distantes
Nossa esperança, como antes,
   Nos fará amantes;
   Bobos não seguem nada,
      Só suas pegadas;
      Por quê nosso pó
Se estende sobre nós
   E nós deixa a sós?
      Não dê chance à dor,
      Mas pense que nosso
         Amor
      Dirá de nosso corpo
        Corpo-a-corpo.

Comentários

  1. Uma das coisas que mais gosto no teu bloguinho é o fato de você usar uma linguagem cotidiana para informar coisas que só alguns anos de estudos nos tornam capacitados para informar.

    Eu não tenho capacidade para avaliar traduções, mas gostei muito muito dos poemas, especialmente os dois últimos.

    Muito bacana! Parabéns, Matheus!

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