Duas paráfrases de Shxpr.



Estes dois sonetos adejam o 138, que acabei de postar aqui no bloguinho. São uma espécie de extensão dele, mas sem a máquina poética tão bem realizada. A forma que escolhi para vertê-los foi incorrendo no caminho da paráfrase. Não digo exatamente paródia pois, lembrando-me da lição de Affonso Romano de Sant'Anna, creio que a paródia possui um fundo subversivo para com o sentido do original. Não é o que acontece aqui. A linguagem usada em uma tradução sempre pressupõe um jogo de ilusões, isto é, não é porque estou traduzindo um poeta do século XVI que eu realmente vou usar uma linguagem do século XVI, embora, claro, existam casos de adaptação tão extremada assim que possuem seu interesse (por exemplo o Villon de Guilherme de Almeida). Mas essa ilusão é sempre norteada por todo um critério de razoabilidade e por todo um respaldo na cultura propriamente poética de um tempo, de modo que, embora eu não precise empreender um trabalho filológico ao traduzir um poeta do século XVI (é muito melhor que eu esmerilhe de forma inteligente algumas palavras e expressões no texto), eu posso chegar numa linguagem que seja, razoavelmente falando, plausível. Se eu adiciono uma linguagem como a que adicionei nestas minhas versões, isto é, totalmente moderninha, então a ilusão sob a qual a tradução se apoia, adejando os dois extremos da reconstituição e da domestificação, é maltratada e rompe.

Portanto, eu mudo a linguagem, o que atua diretamente na ilusão sob a qual a tradução se apoia, mas, todavia, ainda assim vou de encontro ao sentido do original. É um empreendimento que vai de encontro ao de Nelson Ascher ao verter um soneto de Michael Drayton, contemporâneo de Shxpr, com linguagem toda moderninha (incluo-o logo abaixo). Por isso digo que não se trata de paródia, não ser que, ao falarmos de paródia, estejamos falando de algo que se pretenda engraçado ou que mantenha o sentido etimológico de canto paralelo.

De todo modo, tradução não é. Digo isso pois acho importante que o leitor considere minha versão, aqui, como paráfrase (ou paródia, caso ele realmente insista), principalmente pois assim, quem sabe, ele estará extraindo o que meu texto realmente tem a lhe oferecer. Isto é: uma aproximação ao texto shakespeariano que se queira posta na boca do povo, da forma mais chã possível, sem, todavia, que isso implique que estou como que passando por cima efetivamente de uma microscopia do original shakespeariano. Longe disso. No soneto 137, por exemplo, note minha opção em traduzir "the bay where all men ride" para "lá onde o pau come solto". Se em Shakespeare temos uma referência um tanto quanto direta à vida libertina da Dark Lady, em minha versão a coisa foi mantida tal e qual, com a diferença de que daquele jeito.



137.

Amor imbecil... Fez o quê comigo,
Que eu olho mas não vejo o que estou vendo?
Sei da Beleza, sei do seu abrigo,
Mas pego mal e fica como sendo.
Se os olhos, podres pelas piscadelas,
Vão parar lá onde o pau come solto,
Pra quê você engancha suas balelas
Onde meu pensamento fica envolto?
Por quê digo que é minha essa terra
Que na verdade é terra de ninguém?
Ou meu olho vai lá, diz "você erra"
E até pra gente feia faz um bem?
        Na certa no que é certo a alma anda,
        E olha aí a quantas ela anda.

§

139.

Nem pense em me chamar pra dar razão
Ao que você andou fazendo em mim.
Pode bater, mas com a língua não:
Use poder contra poder, e assim
Diga que você ama uma galera;
Mas, estando eu por perto, ande na linha.
Não tem pra quê bater com força. Era
Melhor bater de forma mais mansinha.
Mas tudo bem, perdoo: tô sabendo
Que seu charme já foi meu oponente.
Logo, dele você vai me acolhendo,
E o põe pra fazer mal a outra gente.
        Mas ó, faz isso não. Se seu olhar
        Mata, então olha pra cá, vem me matar.


137.

Thou blind fool love, what dost thou to mine eyes,
That they behold, and see not what they see?
They know what beauty is, see where it lies,
Yet what the best is take the worst to be.
If eyes corrupt by over-partial looks
Be anchored in the bay where all men ride,
Why of eyes' falsehood hast thou forgèd hooks,
Whereto the judgment of my heart is tied?
Why should my heart think that a several plot
Which my heart knows the wide world’s common place?
Or mine eyes, seeing this, say this is not,
To put fair truth upon so foul a face?
        In things right true my heart and eyes have erred,
        And to this false plague are they now transferred.


§

139.

O call not me to justify the wrong
That thy unkindness lays upon my heart.
Wound me not with thine eye, but with thy tongue;
Use pow'r with pow'r, and slay me not by art.
Tell me thou lov’st elsewhére; but in my sight,
Dear heart, forbear to glance thine eye aside.
What need’st thou wound with cunning when thy might
Is more than my o'er-pressed defense can bide?
Let me excuse thee: Ah, my love well knows
Her pretty looks have been mine enemies,
And therefore from my face she turns my foes,
That they elsewhére might dart their injuries.
        Yet do not so, but since I am near slain,
        Kill me outr'ght with looks, and rid my pain.



Michael Drayton (1561-1631),
versão de Nelson Ascher.
em: Folha de São Paulo, Folhateen, 09/06/97, aqui.
Poesia alheia, Imago, 1998, p. 74-75.

Já que não dá mais pé: beijinho e tchau.
Meu saco encheu; desgruda aí de mim;
eu tô cagando e andando -e acho legal
tar me safando dessa mole assim.
É tchau pra sempre, é tudo cancelado;
e, a gente se cruzando no pedaço,
que ninguém saque pôrra alguma, um traço
nas nossas caras do tesão passado.
Agora que o tesão tá na pior,
tá mudo e empacotando, mais pra lá
do que pra cá, tá numas que não dá,
dançou certinho sem tirar nem pôr,
        agora que ninguém mais bota fé,
        tu pode ainda pôr ele de pé.

§

SINCE there's no help, come let us kiss and part;
Nay, I have done, you get no more of me,
And I am glad, yea glad with all my heart
That thus so cleanly I myself can free;
Shake hands forever, cancel all our vows,
And when we meet at any time again,
Be it not seen in either of our brows
That we one jot of former love retain.
Now at the last gasp of Love's latest breath,
When, his pulse failing, Passion speechless lies,
When Faith is kneeling by his bed of death,
And Innocence is closing up his eyes,
        Now if thou wouldst, when all have given him over,
        From death to life thou mightst him yet recover.

Comentários

  1. Oi. Meu nome é Raphael Soares, também tradutor, e pesquiso a recepção e tradução dos sonetos de Shakespeare no Brasil (ou pesquisava, mas enfim, as pesquisas nunca se esgotam), e gostaria de saber se já traduziste outros sonetos diferentes desses, e se algum deles foi publicado em qualquer outra mídia.

    Atenciosamente

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    1. Elaphar, obrigado pela visita! Além destes 4 sonetos, tenho uma tradução comentada pro 138:

      http://matheusmavericco.blogspot.com.br/2014/01/soneto-138-de-shakespeare.html

      E 2 versões modernizantes pro 137 e pro 139:

      http://matheusmavericco.blogspot.com.br/2014/03/02-sonetos-de-shakespeare.html

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    2. Já as havia visto também, e estão já devidamente registradas... Muito bom o blog, vou tentar acompanhar sempre que possível...

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