Elizabeth Barrett Browning (1806 - 1861): traduções antigas.


(Imagem retirada de Readers Joy)


A
obra Sonnets from the portuguese (1850), escrita pela poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning (1806 - 1861), foi claramente inspirada tanto nos sonetos de William Shakespeare como nos sonetos de Luís de Camões, donde a homenagem à língua. A estrela d'alva destas minhas traduções são as paráfrases de Bandeira para quatro sonetos da autora, esse tipo de pedra no sapato que com um toque vira suspiro. (Sobre as traduções de Bandeira, ver Tradução, Paródia e paráfrase: as reescrituras poéticas de Manuel Bandeira, de Célia Luiza Andrade Prado).


Contudo, não parafraseei. Meu norte, meu modus operandi foi, em outras palavras e sem cair naquelas repetições permutáveis que todo tradutor costuma empreender, minha meta de tornar os sonetos que ora traduzo tão legíveis, naturais e espontâneos como se fossem, em verdade, sonetos em português da portuguesa.

Óbvio que só querer não basta. E óbvio também  que isso não quer dizer droga nenhuma, pois é o que toda tradução quer. Assim, natural que no meio do caminho eu tenha encontrado imposições práticas, especificamente os meandros da fôrma soneto. Soneto italiano, mais exatamente, bem aquele que Camões manejou.

Sabe, aquele?

Aquele!... Aquele... Qual? Um, com disposição de rimas fixa nos quartetos e algo mais livre nos tercetos: aquela, sabe?, aquela, ABBA/ABBA seguida de tercetos que vão desde CDC/DCD a CDE/CDE.

Ou seja: o que é realmente fixo está nos quartetos. Quatro ecos rimáticos nos quartetos é algo mais século XIX, algo mais pro lado do soneto inglês que pro lado do italiano. E até aí, problema nenhum. Creio que o bicho acabou pegando no quesito da métrica e no quesito da rima. Pois, por mais que língua inglesa não tenha o rigor muitas vezes mais formal que palpável de nossa língua, isso não quer bem dizer que a tradução possa se escudar, sempre, em rompimentos.

Assim, que fique dito que, quando em minha tradução rompi com o decassílabo, ou incluí a cesura num esquema que não o heroico ou o sáfico; nesses casos, pode crucificar: foram defeitos. Em prol do que julgo ser a beleza, a harmonia, a duração, em prol disso eu poderia tentar me respaldar.

Mas isso só o leitor poderá dizer.




X.

E porém, como é lindo o amor mais puro,
Merecedor de nosso aceitamento.
O fogo brilha, queima o acampamento
E estende sua luz sobre o monturo:

E o amor é fogo. Assim, quando eu te juro
Amor eterno... Vê! — o agitamento
Que tenho em face a ti, alteamento
E consciência desta luz que apuro,

Vertida em teu rosto. Pois não há amor
Banal quando ele ama banalmente,
Nem maldade se ela ama ao Criador.

E o que sinto, além do que há interiormente
No que sou, brilha e mostra seu fulgor
De Amor que eleva o Mundo grandemente.


XXI.

Dize uma vez, e tantas, tantas mais,
Que tu me amas. E, embora o que me digas
Lembre um "cuco", ou que assim tu o consigas,
Lembra, nunca às montanhas, matagais,

Vales ou estepes, poderá, sem tais
Sons, vir a Aurora e o que a ela se liga.
Amado, eu, entre as trevas que me abrigam,
Por uma voz dúbia e em dores duais,

Grito: "Dize uma vez mais, — meu amado!"
Pois quem teme as estrelas céu afora
Ou as flores que florescem no gramado?

Dize que me amas para sempre e agora,
E me ames, meu amor, mesmo calado
E pra si mesmo, com a alma toda.


XXXIII.

Sim!, chama e deixa que eu ouça o apelido
Com que eu, quando brincávamos na infância,
Deixava as flores com aquela ânsia
De ver o rosto que me era querido

P'lo brilho do olhar. Hoje está sumido
O tom da voz amiga que, em substância,
Se uniu ao Céu e a sua ressonância,
Não me chamando mais. E enquanto ouvido

For meu clamor, e a Deus ele se alçar,
Tua voz seja a herdeira dos finados
Que saiba o Sul co'o Norte florear,

Amando agora amores já passados.
Sim, me chama — que irei para onde estás
Levando o coração, jamais mudado.


XLI.

Saúdo a quem me amou de coração,
Com saudações de igual força. Agradeço
A quem ouviu, do cárcere, o excesso
Do que cantava, antes que a canção

Fosse adiante e chegasse aos que estão
Nas ruas, muito além do que professo.
Mas tu, que, nesta voz que ergo e ensurdeço
Quando choro, usa de teus Dons que são

Instrumentos que a teus pés se prosternam,
Que solvem o que digo em meio ao pranto...,
Me ensina a agradecer-te! Ou que se abra

O sentido da alma às horas eternas
Pra que profiram e aclamem, portanto,
O Amor que fica e a Vida que se acaba!




Nota ao soneto X: No quarto verso, a inclusão da palavra "monturo" talvez indique caquinha. "weed", isto é, hera, e "cedar plank", prancha de cedro: ou seja, ambos objetos inflamáveis, em especial "cedar plank". A voz enunciadora do poema crê que seu amor poderá brilhar mais se ela for a motivação ou se ele estiver amando, o que geraria um fogo mais vivo ("an equal light / Leaps"). Geralmente se deduz que a voz enunciadora se considere mais próxima de "weed" que de "cedar plank". Como a ideia geral do soneto é a de um amor que ama a despeito do que pode haver de vil em tal sentimento ("There's nothing low / In love, when love the lowest"), não creio que fui discrepante, considerando que ela tem como objetivo a comparação: "And love is fire". De resto, a expressão "fogo de monturo" não é incomum em nossa língua.




A quem interessar possa, a ordem de tradução foi: XXXIII → X → XXI → XLI.

Atualizado pela última vez em: 19/03/14.

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