Christina Rossetti (1830 - 1894).


(Imagem retirada da British Library)



APÓS A MORTE.

Entreaberta a cortina, o chão coberto
De lírios e de orquídeas que jaziam
No leito onde eu jazia e onde cresciam
Ervas daninhas, ele chegou perto

E, julgando-se só, que não o ouviam
Ou que eu dormia, embora o ouvisse decerto,
Disse: “Meu bem, meu bem”: e, enquanto ia,
Eu sei que ele chorou boquiaberto.

Não me tocou ou levantou o pano
Que me cobria, ou pegou minha mão,
Nem as folhas em meu rosto assoprou:

Não me amou quando viva, mas teve pena,
Depois de morta: e é bom saber (que bom!)
Que hoje ele está, já que não mais estou.



MONNA INNOMINATA.




(Esta nota introdutória serve como introdução para os três sonetos, é claro, mas, especificamente, para o primeiro).

C
hristina Rossetti (Inglaterra, 1830 - 1894) é uma das mais altas vozes líricas femininas do percurso literário mundial, fato reconhecido mesmo durante sua vida, mais especificamente após a publicação de Goblin Market and Other Poems, em 1862, e sob o aval de Hopkins, Swinburne e Tennyson. O soneto aqui traduzido vem da coletânea de 14 sonetos denominada Monna Innominatta, publicada pela primeira vez em 1881 no livro A Pageant and other poems, com a qual Rossetti buscou romper com a posição meramente passiva da mulher no processo poético, que servia apenas como leitora ou inspiração inalcançável e jamais como autora (ou originalmente como autora e não apenas êmula).

Usando algumas palavras com que a poetisa "prefacia" sua obra: "shares her lover's [referindo-se às Musas dos poetas] poetic aptitude (...) speaks for herself". Como diz Meg Mariotti em A Female Perspective in Christina Rossetti's "Monna Innominata", na referida obra Rossetti "gives voice to the unnamed woman glorified by Dante, Petrarch, and other poets." Um pouco mais a frente, Mariotti também esclarece o porquê dos 14 sonetos incluírem epígrafes de Dante e Petrarca: "Rossetti's inclusion of lines by Dante and Petrarch at the start of each sonnet serve to further emphasize the connection between the traditional male perspective and her reversal of in it this poem."

Essa busca específica de Rossetti ia de acordo com o propósito dos pré-rafaelitas, que "(...) defendiam uma volta à sinceridade e profunda seriedade da arte renascentista anterior a Rafael, inspirando-se principalmente na inocência angelical das obras maneiristas de Botticelli, acrescido de um conteúdo simbolista e uma temática religiosa, ou inspirada no romantismo medieval", como diz Valéria Andrade de Souto-Maior em Avaliação e produção em tradução literária: uma experiência de reciprocidade. (Sim. Essa mesma Era Vitoriana que também trouxe a joia do nonsense e o prelúdio da poesia moderna na voz dum Robert Browning, por exemplo.) Souto-Maior completa dizendo que Rossetti, nesta sequência e nos outros poemas do livro, "(...) celebra a superioridade do amor divino sobre a paixão humana como um retrato de sua vida reclusa dos últimos anos e suas decepções" (Rossetti morreu de câncer e teve complicações na tireoide).

A obra possui também um forte jogo de paralelos e contraposições com o The House of Life de seu irmão, Gabriel Rossetti, publicado no mesmo ano, bem como com a obra da contemporânea Elizabeth Barrett Browning, Sonnets from the portuguese, o que gera uma plêiade de leituras enriquecedoras. Mas não é meu objetivo, nessa pequena introdução, esmiuçar tais aspectos. O que me basta ressaltar para este soneto é o fato dele ser o primeiro da série, iniciando um ciclo que poderia servir como uma espécie de coroa de sonetos, se considerarmos que os sonetos se intercomunicam inclusive ciclicamente (para Anthony Harrison [aqui], o macrossoneto formado é uma paródia dos sonetos de Petrarca e Dante [daí as epígrafes], fato visto mais especificamente no soneto 14, como nos lembra Meredith Ringel [aqui]). Assim, se o último soneto da série termina com "Silence of love that cannot sing again", o presente soneto começa com a busca pelo amado e termina com outra referência à música, "Ah me, but where are now the songs I sang". Outras conexões internas também existem, como a ideia do soneto 12 de que "Your pleasure is my pleasure, right my right", explicando a constatação da poetisa no final do primeiro quarteto deste: "So far between my pleasures are and few." 

O primeiro soneto também introduz o tema da procura e o tema da lembrança que serão retomados com um enfoque maior no segundo soneto: "I wish I could remember that first day". Ou, de modo geral, que serão retomados ao longo da sequência de sonetos, visto que os temas principais da obra, como diz Ruth Tilley em numa aula de 2003 na Brown University (Conventions of Romantic Verse in Christina Rossetti's "Monna Innominata"), são: "(...) the forbidden love, anticipation filled meetings and painful partings, remeniscences and protestations of devotion, up to and including the self-sacrificing woman (...)".

Até onde eu saiba, não existem traduções da Monna Innominata para a língua portuguesa. As próprias traduções de Christina Rossetti são incrivelmente esparsas, de modo que meu norte e única referência foram as traduções empreendidas por Manuel Bandeira do soneto Remember e da canção When I am dead, my dearest. A fôrma do original foi mantida: isto é, decassílabos para os pentâmetros e a manutenção do esquema rímico ABBA/ABBA/CDD/ECE. As epígrafes foram traduzidas de forma livre.

O texto utilizado foi o disponível no Project Gutemberg.


1.

            "Disseste que disseram adeus aos bons amigos." - Dante 
            "Amor, com quanto esforço eu hoje venço!" - Petrarca 

Volta pra mim, que te guarda e te espera:—
Ou não volta, pois 'stá tudo acabado,
E o tempo do retorno é demorado,
Distante meu prazer de minha esfera.

Tudo que faço faço enquanto a espera
Me faz pensar: "Quando tiver voltado..."
Um só homem habita o mundo habitado
De homens; somente ele me apodera.

Esperar-te, posto que em se apartando
Desponta a dor de te esperar, e a fé,
Lua crescente ou lua minguante, é

Como o dia divino em que nos vimos...
Ah!, onde as canções que já cantei, quando
Viver era bom, e nos convencíamos?

§

2.

            "Era chegada a hora que transforma o desejo." - Dante 
            "Recorro ao tempo em que te vi primeiro." - Petrarca 

Queria relembrar aquela hora,
Aquela dia e instante em que me viste,
Se na estação alegre ou se na triste,
Se no estio ou no inverno muito embora;

Tão sem lembrança que se foi embora,
Tão cego que já não vê o que existe,
Tão tolo que não marca o que consiste
A marca em mim que em mim já não aflora.

Se apenas eu pudesse relembrá-lo
Como um dia dos dias!, eu o permitiria
Tão vago como o que se derretia...

Isto expressava pouco, sem expressá-lo.
Se o toque, se eu pudesse reinvocá-lo,
O toque inicial — Quem saberia!

§

14.

            "E a Vossa Vontade é nossa paz." - Dante 
            "Só, com este pensamento, com outro cabelo." - Petrarca

Beleza e juventude, ambas perdidas,
Se numa face assim já habitaram,
Pergunto-lhes: das graças, quais restaram?
Não me cubro de rosas florescidas

Para humilhar as faces constrangidas.
Deixem rosas, a quem carrega espinhos:
Não buscarei por flores não colhidas,
Mas tão somente a flor em meu caminho.

Beleza e juventude. O que restou?
No peito, o saudosismo, a solitude,
O silêncio que no silêncio amara;

O silêncio de um peito que cantara
No esplendor da beleza e juventude,
Silêncio de um amor que se calou.

Comentários