W. H. Auden (1907 - 1973).


(Foto retirada do Strange Flowers)


O
texto utilizado foi o de Collected Poems, Random House, 1976, com edição de Edward Mendelson. Considero ambos os poemas exemplos muitíssimo bem acabados de poemas perfeitos: absolutamente nenhum excesso, absolutamente uma precisão admirável.

É por isso que muito poderia ser dito, muito poderia ser debatido e analisado. Mas, para não me embrenhar num campo analítico que sei que não vou conseguir por ene razões (por exemplo, disposição de material), apenas instigo o leitor quanto ao tratamento que os epitáfios dão a seus sujeitos: um é um epitáfio "on a"; o outro, "for the".

Pois creio que isso, por si só, explica muita coisa. Infelizmente, muita coisa.

Os poemas foram traduzidos em alexandrinos franceses de escansão parnasiana (ou seja, abarrotado de sinéreses). Quer dizer; especificamente, e num efeito que à priori não havia me ocorrido, o segundo poema acabou saindo em alexandrinos românticos. Sem querer querendo, tal diferença possui seus significados e coerências.


EPITÁFIO DE UM TIRANO.

Perfeição mais perfeita era o que ele buscava,
E a poesia que inventou, tranquila de entender;
Como a palma da mão soubera compreender
A insensatez humana; adorava as esquadras;
Ao gargalhar, também o Senado gargalhava;
E se chorava, crianças morriam nas calçadas.

§

EPITÁFIO PARA UM SOLDADO DESCONHECIDO.

Pra salvar seu mundo ele teve que morrer.
Mas se voltasse, indagaria: "teve por quê"?






O
caso de An island cemetery é um caso que parte de uma leitura das traduções de José Paulo Paes e João Moura Jr. (aqui). É grande o meu respeito pela edição, tanto pelos nomes dos tradutores, quanto pela seleção de poemas, sem dúvidas exemplar. Contudo, em alguns poemas é inegável que a tradução possui problemas. Refiro-me em específico aos poemas de metro curto, geralmente poemas de 4 pés, que os tradutores estenderam a meu ver excessivamente. Por exemplo, no caso de An island cemetery, Paulo Paes verteu para um de doze. Assim não dá. Mais uma vez reitero meu profundo respeito pelas traduções, que inclusive alcançaram níveis excelentes em outros casos, como quando Auden usa versos mais longos (por exemplo, em In memory of Sigmund Freud), mas foi justamente buscando suprir esta lacuna que me propus a tradução.

Tanto um como outro com versos de 4 pés, conforme dito. Em An island cemetery, vali-me da redondilha maior com fins a criar um link com a poesia de João Cabral. Naturalmente que o original é cambiante (é muito difícil achar um poema de Auden que não seja assim) e naturalmente que isso implicou uma série de cortes ainda maior, pois perco uma sílaba. Basta que se veja passagens como "Of those fish-like hungers, mammalian heats, / That kin our flesh to the coarser meats." em "O que os animais ferozes / Têm que nossa carne tem." Mas foi um tour de force que achei interessante, e aí está. Pois quero me fiar na compensação do link consiga suprir estes problemas, além de outras compensações aqui e ali, como a palavra "ensombrado" que lembra "assombrado" logo no primeiro verso etc (etc?).


UM CEMITÉRIO ILHÉU.

Tal cemitério ensombrado
É pior que o de vinhedos,
E, mesmo com novos hóspedes,
Seu tamanho é sempre o mesmo.

Se são muitos e a terra é pouca,
Que se plante também mortos
Como a semente lançada
E a safra de seus ossos.

Passados dezoito meses,
A ossada está madura.
Basta colher, lavar, pôr
No buraco da sepultura.

Curioso, parei pra
Ver coveiros na colheita.
O poeta também chora
A matéria putrefeita.

Aonde a personalidade
Vá (seja qual sua estrada),
A estrutura sólida fica
E não nos ofende em nada.

Quem chora esquece quem chora,
Mas desconhece também
O que os animais ferozes
Têm que nossa carne tem.

Pois quem se envergonharia,
Com paciência de pedra,
Desta coisa em nós que nunca
Fez nem mesmo uma baderna?

Em vista do que buscamos,
Que se agradeça ao destino
Amor buscar seus objetivos
Num corcel sem muitos amigos.

Comentários

  1. Nem preciso comentar, pois já falasse tudo ao dizer " absolutamente nenhum excesso".

    "Ao gargalhar, também o Senado gargalhava;
    E se chorava, crianças morriam nas calçadas."

    Que perícia. Dois versos que resumem as figuras dum Júlio César até um Kim Il-sung.

    Mas, deixando isso de lado, o Auden tava bem lindinho, super pegável nessa foto aí. :3

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  2. Olha as mãozinhas gordinhas dele. Gostosinho! nhonhonho

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