Ezra Pound (1885 - 1972).


(Vortografia de Ezra Pound, por Alvin Langdon Coburn [1882 - 1966]. Retirada de geh.org)


T
he River-Merchant's Wife: A Letter, versão do poeta estadunidense Ezra Pound (1885 - 1972) para o poema Changgan xing (長幹行) do poeta chinês Li Po (701 - 762), foi incluso pela primeira vez no livro Cathay: Translations (1915), sendo considerado "one of the most delicate poems" (Christine Froula, A Guide to Ezra Pound's Selected Poems), "a push to find out more about the verse coming from the Mysterious East" (Eliot Weinberger, New Directions), "the keys to a method and a style in free verse" (Kaoru Hongo, The Line in Postmodern Poetry).

Apesar do título Translations, os textos de Pound são comumente vistos como adaptações ou paráfrases, o que me parece mais acertado. Procedimento esse de comunicação com a tradição literária que, de resto, ia de encontro com os propósitos modernistas, algo perfeitamente visto na poesia e teoria dum T. S. Eliot. Esse mesmo T. S. Eliot que, face ao Cathay, conclamaria Pound de inventor da poesia chinesa no Ocidente.

Acerca do poema em si, pouco há que ser dito que não recaia na análise das interpretações de Pound para com os ideogramas chineses (o que requereria a análise do The Chinese Written Character as a Medium for Poetry). Contudo, esse não é meu objetivo nesta pequena nota. Reitero apenas que a grande qualidade do poema está no fato de transformar a linguagem prosaica numa linguagem eminentemente poética ("record the hardships or emotions of common people", conforme diz a Wikipédia inglesa), o que, de resto, foi feito com igual êxito e sucesso por poetas brasileiros como Manuel Bandeira ou Mário de Andrade. Pound também se vale duma linguagem direta, precisa e sem excessos (para Christine Froula, "a language of natural imagery expresses, with eloquent reserve") que, além de corroborar, a seu ver, com a poesia oriental, corroborava também com seus ideais imagistas ("syntactic and rhythmic integrity of the line", Kaoru Hongo). Isso explica também o porquê de cada estrofe se concentrar numa só imagem, além de explicar a razão de cada verso do poema ter o tamanho suficiente para focalizar e concretizar a descrição ou a apresentação de uma parte da imagem para o leitor.

Para um resumo sucinto do poema, uso-me das palavras de J. Paul Hunter em The Norton Introduction to Poetry: "The 'letter' tells us only a few facts about the nameless merchant's wife: that she is about sixteen and a half years old, that she married at fourteen and fell in love with her husband a year later, that she is now very lonely. And about their relationship we know only that they were childhood playmates in a small Chinese village, that their marriage originally was not a matter of personal choice, and that the husband unwillingly went away on a long journey five months ago." 

Para outros tradutores do poema chinês, temos Arthur Waley, em 1918, W. J. B. Fletcher, em 1919, Amy Lowell, em 1921, Shigeyoshi Obata, em 1922, Witter Bynner, em 1929, Wai-Lim Yip, em 1976, e S-C Kevin Tsai, em 2003. Não pude detectar a data das traduções de William Carlos Williams, sob título de Long Banister Lane, e a de David Hinton, sob título de Ch'and-Kan Village Song, ambas inclusas no livro New Directions Anthology of Classical Chinese Poetry (2004).

Seja como for, e desconsiderando a relação do texto poundiano com o texto chinês, o que temos aqui é um poema de rara beleza e apurada técnica. Wai-Lim Yip, em Ezra Pound's Cathy, expressa bem esses atributos: "One can easily excommunicate Pound from the Forbidden City of Chinese studies, but it seems clear that in his dealing with Cathay, even when he is given only the barest details, he is able to get into the central consciousness of the original author by what we may perhaps call a kind of clairvoyance."

Em minha tradução, busquei uma correspondência mais livre para com o texto original, o que, de resto, caracteriza bem o pensamento tradutório poundiano. Essa forma de correspondência se deu mais explicitamente na tradução do verso "Called to, a thousand times, I never looked back", onde me apoiei na solução geral dos outros tradutores, em especial na versão de Obata.

O texto utilizado foi o da New Directions, Translations, 1954, com introdução de Hugh Kenner.


A ESPOSA DO MERCADOR RIBEIRINHO: UMA CARTA.

                    Quando ainda cortavam meu cabelo rente à testa
                    Eu brincava no portão da frente, catando flores.
                    Você vinha montando cavalinho numa vara de bambu,
                    Eu montava nela e brincávamos com ameixas azuis.
                    Morávamos no vilarejo de Chokan:
                    Um casalzinho, satisfeito e insuspeito.

                    Aos quatorze me tornei Sua Senhora, sua.
                    Nunca sorria, por vergonha:
                    Abaixava a cabeça, olhava pra parede.
                    E ao ser chamada tantas e tantas vezes,
                    nem uma vez pude eu olhar pra trás.

                    Aos quinze parei de fazer carranca,
                    Desejando que meus restos se unissem aos seus
                    Para todo e todo sempre.
                    Tinha mais pra onde olhar?

                    Aos dezesseis você partiu,
                    Partiu pra longínqua Ku-to-yen de rodopiantes redemoinhos,
                    Ficando fora cinco meses.
                    Do alto, o ruído tristemente dos macacos.

                    Você levou seus passos ao ir embora.
                    E agora, pelo portão, cresce o musgo, um musgo diferente,
                    Profundamente demais pra ser arrancado!
                    As folhas caíram cedo neste outono, ao vento.
                    Os casais de borboletas, já amarelas em Agosto,
                    Sobre a grama no Jardim Oeste.
                    Ferem. Envelheço.
                    Se você volta pelas veredas do rio Kiang,
                    Por favor me deixe saber de antemão
                    E eu irei te encontrar
                                                    Longe como o Cho-fu-Sa.


As notas foram feitas pensando naqueles casos em que a leitura do original de Pound se mostrou de forma ambígua ou propositalmente truncada. Não citei todos os exemplos que as traduções supracitadas oferecem; contentei-me com alguns que esclarecessem o significado do verso em questão.

CHOKAN: "Ch'ang-kan" (Fletcher, Lowell, Yip, Hinton); "Chang-kan town" (Obata); "a lane in Ch'ang-kan" (Bynner); "Long Banister Lane" (Carlos Williams); "the lands of the boatsmen" (Kevin Tsai).

KU-TO-YEN: "Chü-t'ang Gorge" (Fletcher, Hinter); "Ch'ü T'ang Chasm" (Lowell); "Keu-Tang Gorge" (Obata); "Gorges of Ch'ü-t'ang" (Bynner); "faraway land of steep pathways and eddies" (Carlos Williams).

KIANG: "Three Serpent River" (Lowell); "Three Gorges" (Yip); "all those gorges" (Hinter).

CHO-FU-SA: "Long Wind Sands" (Lowell e Yip); "Long Wind Beach" (Obata); "Windy Sand" (Carlos Williams); "Ch'ang-feng Sands" (Hinter); "Sands of Lasting Wind" (Kevin Tsai).


(You walked about my seat, playing with blue plums): É possível que exista uma conotação sexual no verso de Pound. Lowell: "We ran round and round the bed, and tossed about the sweetmeats of green plums".

(At fourteen I married My Lord you): Quer dizer que ela se casou com seu amado. Yip: "At fourteen, I became your wife."

(Called to, a thousand times, I never looked back): Outras soluções são mais claras. Obata: "You would call me a thousand times, / But I could not look back even once"; Carlos Williams: "I never tamed, though called a thousand times".

(Why should I climb the look out?): Verso que possui muitas variações. As soluções de Yip, Bynner e Hinter se referem a uma torre que a amada teria que escalar para poder avistar seu amado. Lowell: "I often thought that you were the faithful man who clung to the bridge-post, / That I should never be obliged to ascend to the Looking-for-Husband Ledge"; Kevin Tsai: "I won't climb the look-out for you"; Carlos Williams: "Why should I look out when I had you?" Alguns dizem que "climb the look out" pode ser também uma referência ao costume de que as viúvas deveriam levar em consideração as novas propostas de casamento endereçadas. Logo, ao questionar a razão de dever "climb out the look" após a morte do amado, a amada apenas reitera a força de seu amor mesmo depois da morte. Fletcher se aproxima desta interpretação.

(You went into far Ku-to-yen, by the river of swirling eddies): A maioria especifica o rio Yen-jü.

(You dragged your feet when you went out): A solução de Lowell é mais clara: "Your departing footprints are still before the door where I bade you good-bye". Nos versos seguintes, Pound desvincula os passos do amado com o musgo que cresce, ao contrário da maioria.

(Please let me know beforehand): A maioria explicita o pedido de que o amado escreva uma carta.


(18/09/14): Resolvi atualizar postando a tradução de Carlos Williams. Também poeta, creio que possa ter seu interesse próprio.

§

LONG BANISTER LANE.
William Carlos Williams.
Quando apararam pela primeira vez meu cabelo rente à testa,
Eu brincava na porta de casa, catando flores.
Você veio cavalgando uma estaca de bambu,
Ao redor do meu jardim, e brincava com ameixas verdes.
Vivendo como vizinhos em Long Banister Lane,
A gente se gostava e ninguém percebia.

Aos quatorze virei sua esposa,
E, com vergonha que só, eu nunca ria.
Abaixando a cabeça frente ao muro escuro,
Nunca me virei, por mais que me chamassem.

Aos quinze comecei a demonstrar alegria,
Passei a querer meu pó misturado ao seu.
Com uma devoção não mudada,
Pra quê olhar além se eu tinha você?

Aos dezesseis você saiu de casa
Rumo a uma terra distante de estradas escarpadas e turbulentas,
Em Maio inviáveis,
E onde os macacos choramingavam para o céu.

As pegadas que você deixou ao sair pela porta
O musgo verde cobriu,
O musgo novo e profundo demais pra ser tirado.
O vento de outono veio cedo e as folhas começaram a cair.
As borboletas, amarelas em Agosto,
Flutuaram aos pares no jardim oeste.
Olhando a cena, senti uma aflição no peito,
E me sentei lamentando a juventude que ia.

Dia e noite espero você voltar,
Esperando receber sua carta antes disso,
Pra que eu viaje e possa te saudar
Longe como o Windy Sand.


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