Mary Elizabeth Frye.



A
convite do camarada Thiago Almeida, eis-me aqui. Do que pesquisei rapidamente, Mary Elizabeth Frye (EUA, 1905 - 2004), dona de casa, florista, foi uma poeta-de-um-poema-só, o que certamente não diminui seu mérito. Muitos de nós não conseguimos nem isso. Aparentemente, foi escrito em 1932 na ocasião da morte da mãe de uma amiga. E até hoje o poema é fonte de consolo para quem perdeu a sua. Existem versões com 11 versos e alguns dizem que até com 14. A não ser a anáfora e, é claro, a composição clara, direta e tocante, o poema não vai muito além. Caso o leitor queira ler um pouco mais sobre a história do poema e alguns pontos acerca de sua autoria, que ainda hoje é posta em cheque, confira aqui, no Business Balls.

O original está escrito em versos de 4 pés com rimas emparelhadas. Quer dizer: alguns versos possuem metro um pouco maior, como o 5 e o 7.

Fiz mudanças. Transformei-o em decassílabos ABAB; pus rimas toantes quando o poema é todo escrito em perfect rhymes; mudei a disposição e o sentido de alguns versos: por exemplo, não pude resistir à tentação de lembrar o Manuel Bandeira de Estrela da Vida Inteira no verso 9, assim como fiz a adição do "Eu estou aqui" logo no verso seguinte (versos estes que estão inclusive fora do lugar).

Mas nada que alopre com o poema. Pelo contrário. Espero. Logo abaixo da primeira tentativa, deixei quatro fragmentos de outras tentativas, mais fieis ao original e contudo empacadas.


Não pare frente a meu meu túmulo e sofra.
Eu não estou lá. Não estou dormindo.
Eu sou o vento que agora assopra.
Eu sou o diamante reluzindo.
Eu sou a luz do sol no grão maduro.
Quando sentir a paz com que se inundam
Os dias, saiba: sou eu que misturo
Os pássaros no céu que te circundam.
Eu sou a estrela da vida toda.
Eu sou a chuva. Eu estou aqui.
Não pare frente a meu túmulo e sofra.
Eu não estou lá. Eu nunca morri.

§
(Fragmento 1.)
Não pare em meu túmulo, se afligindo.
Eu não estou lá. Não estou dormindo.
Eu sou a ventania tranquila.
Eu sou o diamante que cintila.
— — —

§
(Fragmento 2.)
— — —
Eu sou a luz do sol no grão maduro.
Eu sou o outono a chover de mansinho.
Quando acordar e se sentir seguro,
Eu sou o calmo e ágil murmurinho
Dos pássaros que voam em bando.
Eu sou a estrela à noite cintilando.
— — —

§
(Fragmento 3.)
Não chore frente à minha cova.
Eu não estou dormindo lá.
Eu sou o vento que se renova.
Eu sou a joia a cintilar.
Eu sou a semente madura.
Eu sou as chuvas outonais.
Quando acordar com a ternura
Das aves que voam em paz,
— — —
Eu sou a estrela a reluzir.
Não chore frente à minha cova.
Eu não estou lá. Não morri.

§
(Fragmento 4.)
Não sofra frente a meu túmulo.
Eu não estou lá. Eu não durmo.
Eu sou a ventania breve.
Eu sou o diamante na neve.
Eu sou a semente lançada.
Eu sou a chuva inesperada.
Quando a manhã estiver quieta
Eu sou a revoada discreta
Do bando de aves que voa.
— — —

§

Do not stand at my grave and weep;
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow.
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain.
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning’s hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry;
I am not there. I did not die.

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