Soneto 138 de Shakespeare.




O
tema da mentira (comumente dita como "engano" em nossa língua) relacionado ao amor é frequente na lírica amorosa. Citando exemplos do inabalável Camões: "Interesse enganoso, amor fingido, / Fizeram desditosa a formosura", no soneto Tomava Daliana por vingança"Vendo o triste pastor que com enganos / Assim lhe era negada a sua pastora", no soneto Sete anos de pastor Jacob servia; ou, para não nos estendermos em demasia, "De Amor não vi senão breves enganos", no soneto Erros meus, má Fortuna, Amor ardente.

No entanto, a lírica renascentista via como uma impossibilidade que o amor pudesse conviver com a mentira e, ao mesmo tempo, gerasse um saldo positivo, por ilusório que fosse. A ilusão não é benéfica; antes, citando Camões uma vez mais, "Qualquer grande esperança é grande engano." E não sendo benéfica, e a amada sendo inalcançável, o fim do amante é a dor, a pungência que lhe afeta a carne e rouba e arrouba os sentidos e o mais que se peça.

Em Shakespeare, essa dimensão adquire um aspecto inusitado. Seus sonetos são, evidentemente, expressão de seu tempo, expressão da temática e visão racionalista da época, que se utilizava do amor impossível (nem sempre impossível) como um lastro para o pensamento racional em cima dessa instância humana (e não como fonte de vassalagem, como queriam os trovadores [pra simplificar a discussão, é claro]). Mas no caso shakespeariano em específico, são manifestações que adquirem um sabor ocasional das mais variadas origens, desde os sonetos com fundo de cotejamento, geralmente ao Lorde de Southampton (1573-1624), até aqueles sonetos com nítidas conotações sexuais, como seria o caso da série dos Will Sonnets (p.ex. o 135).

No soneto 138 o tema da mentira é surpreendentemente abordado: o que era aspecto bastante para a impossibilidade amorosa se transforma na causa de existência deste amor, versando sobre a relação entre dois enamorados que mentem um ao outro e que, posto que mentem, mais se amam.

Tal relação fundada na mentira não possui outra natureza que não a de tornar a convivência mais aceitável, pois o amor ainda é amor mesmo que alicerçado no engano, ao contrário do conceito da época que colocava um e outro como contrários. Eu lírico e amada querem o amor, pois as exigências físicas o impõem (o eu lírico é mais velho que a amada ["And wherefore say not I that I am old?"]), e tal desejo não é invalidado se para sua realização o embuste tomar o lugar das vias de fato, pois o que resta no final é o sentimento e a imagem (talvez principalmente a imagem) que esse amor vai causar um ao outro: "And in our faults by lies we flatter'd be."

Esta mensagem, de que a única forma de se relevar as faltas um do outro, e em decorrência aceitar o amor, somente se dá por meio da mentira, não parece ter se apagado de todo hoje em dia, visto que o clima do soneto vai da resignação tácita até o questionamento desesperador, e, entre um extremo e outro, o "world's false subtleties" é deduzido diretamente da necessidade de se ostentar uma imagem para que o amor verdadeiro não seja zombado, conforme diz o soneto 71: "Lest the wise world should look into your moan, / And mock you with me after I am gone."

Mas uma postura assim não é a postura total dos Sonetos. O soneto 138 se encontra na chamada série de sonetos à Dark Lady (127-154), uma possível mulher de "fácil acesso" que teria despertado o amor de Shakespeare e, posteriormente, de Southampton, gerando com isso um embate entre ambos que se pode chamar de verdadeira "querela diplomática", dadas as relações de mecenato que os unem.

O soneto anterior, o 137, logo posterior à série acalorada dos Will Sonnets, começa questionando: "Thou blind fool, Love, what dost thou to mine eyes, / That they behold, and see not what they see?" Há uma nota raivosa nestes versos, onde o eu lírico não consegue compreender a deturpação do mundo, vendo que sua amada, aparentemente pura, é, na verdade, "the bay where all men ride": ou seja, uma mulher mundana. Esse clima de engano profundo é fechado no final do soneto, com: "In things right true my heart and eyes have erred, / And to this false plague are they now transferred." As razões de uma relação amorosa ("several plot") fundada nas mentiras, assim sendo, ficam notoriamente explicitadas.

Já o soneto posterior, 139, sai da placidez e resignação que amortecem a expressão geral do 138, dizendo: "O! call not me to justify the wrong / That thy unkindness lays upon my heart"; posteriormente também: "Wound me not with thine eye, but with thy tongue: / (...) / Tell me thou lov'st elsewhere (...)". O desespero retorna, o autoflagelamento igualmente, e, no final, o saldo reduz-se ao débito renascentista, onde, em verdade, o amor não pode se apascentar na mentira. Mas esta lição, que parece ser também a lição do amor das personagens Antônio e Cleópatra na peça homônima (existem muitos pontos de ligação entre as duas obras; no entanto, o espaço é exíguo), apenas se revela em seu verdadeiro rigor depois do desencontro fundamental que diferencia a ilusão amorosa da descrença e martírio: e esta talvez seja a linha mestra que rege os sonetos 137, 138 e 139.

O presente soneto aparece também na coletânea de vinte poemas intitulada The Passionate Pilgrim, publicada em 1599 por William Jaggard e aparentemente pirateada, ainda que estampe "By W. Shakespeare" em seu frontispício. Três poemas líricos de Love's Labours Lost e o soneto 144 são exemplos de poemas que também aparecem na coletânea. As diferenças entre a versão deste soneto aqui traduzido no Passionate Pilgrim e a versão original, seja a editada pelos scholars, seja o In-Quarto de 1609, são substanciais. E serão indicadas nas notas correspondentes.

A edição utilizada foi a da Arden Third Series, editada por Katherine Duncan-Jones. Consultei as traduções de Oscar Mendes, Jorge Wanderley, Vasco Graça Moura, Ivo Barroso, Rodrigo Suzuki Cintra e Thereza Christina Motta. Me esforcei em manter todos os trocadilhos ao longo do texto e que foram indicados nas notas abaixo. Resta ao leitor pesar em que medida consegui, tendo em vista que cada trocadilho é um caso, cada um deles possui uma base diferente, seja a da leitura homofônica (made-maid), seja a da ambiguidade de uma palavra (lie), seja a da referência (false speaking tongue)... O tradutor dificilmente consegue um trocadilho de mesma raiz, no que busca por outros que consigam corresponder e compensar a perda original. É o que o leitor verá; espero.



                    When my love swears that she is made of truth,
                    I do believe her, though I know she lies, 
                    That she might think me some untutor'd youth
                    Unlearned in the world's false subtleties. 
                    Thus vainly thinking that she thinks me young, 
                    Although she knows my days are past the best, 
                    Simply I credit her false speaking tongue;
                    On both sides thus is simple truth suppress'd. 
                    But wherefore says she not she is unjust? 
                    And wherefore say not I that I am old? 
                    O, love's best habit is in seeming trust, 
                    And age in love loves not to have years told: 
                              Therefore I lie with her and she with me,
                              And in our faults by lies we flatter'd be.


                    Quando me diz ser pura de verdade,
                    Creio nela, sabendo que ela mente
                    E talvez crê em minha ingenuidade,
                    Das vilezas mundanas inocente.
                    E se penso que pensa que sou moço,
                    Por mais que meu melhor já tenha ido,
                    Tomo sua língua como algo enganoso;
                    E assim o que é verdade é suprimido.
                    Mas por que ela diz que ela é injusta?
                    Por que da minha idade nada digo?
                    Pro amor, parecer franco pouco custa,
                    E o amor antigo não diz quanto é antigo.
                              Logo, ela engana e enganar eu logro,
                              E, logo a louve, esse louvor é um logro.


(1): Trocadilho com "made of truth", podendo significar também "maid of truth", isto é, virgem de verdade. Trocadilho muito usado na primeira parte de Romeu e Julieta (1º até metade metade do 3º ato).

(2): No The Passionate Pilgrim, a expressão "though I know she lies" está entre parênteses.

(3): Sobre a ideia deste verso, cf. Antônio e Cleópatra, ato I, cena V: "(...) My salad days, / When I was green in judgement, cold in blood, / To say as I said then!".

(4): Sobre os "world's false subtleties", ler o soneto 66, que lista alguns deles. No The Passionate Pilgrim, "Vnskilful" no lugar de "Unlearned" e "forgeries" no lugar de "subtleties".

(6): No The Passionate Pilgrim, "I" no lugar de "she" e "yeares" no lugar de "days"; o término do verso também é diferente: exprime dois pontos no lugar da vírgula do original.

(7): "her false-speaking tongue": há uma referência ao mito edênico, acerca da persuasão da serpente para com Eva e desta para com Adão. Por isso os termos "false" e "tongue" são fundamentais. Alguns citam também como fonte de referência para este verso e o anterior, Provérbios 1:1-4. Neste verso e no próximo o The Passionate Pilgrim possui mudança radical: "I smiling, credite her false speaking tounge, / Outfacing faults in loue, with loues ill rest."

(9): No The Passionate Pilgrim, o verso está como: "But wherefore sayes my loue that she is young?".

(10): No The Passionate Pilgrim, a interrogação do final fora suprimida.

(11): No The Passionate Pilgrim, "in a soothing toung" no lugar de "in seeming trust".

(12): Verso de sentido em verdade obscuro. Literalmente, quer dizer: "E os amantes mais velhos, amam não para ter os anos contados." No The Passionate Pilgrim, em decorrência da palavra "age" ser grafada com a inicial maiúscula, a expressão fica um pouco mais clara.

(13): Há um trocadilho no reino da Dinamarca: o trocadilho com "lie", significando tanto mentir quanto dormir. Sobre outra utilização deste termo, mas com os sentidos de deitar-jazer, cf. Hamlet, ato V, cena I, entre as falas "I think it be thine, indeed; for thou liest in't" de Hamlet e "'Tis a quick lie, sir; 'twill away gain, from me to you" do Primeiro Coveiro. Literalmente, o fecho de ouro quer dizer: "Por esta razão eu durmo [ou minto] com ela, e ela comigo, / E em nossas faltas nós seremos lisonjeiros." No The Passionate Pilgrim ele apresenta consideráveis mudanças: "Therefore I'le lye with Loue, and loue with me, / Since that our faultes in louve thus smother'd be."

(14): Sobre as implicações acerca do termo "imagem", ler o que disse na introdução. E, ainda na introdução, no finalzinho, sobre o que disse de jogos de linguagem de mesma raiz, enquanto no original de Shakespeare temos a ambiguidade que apontei acima de "lie", o leitor observará que me baseei num jogo de palavras paranomásico, aliterativo e assonante para tentar compensar a perda do trocadilho original.

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