Sexteto de Páris no túmulo de Julieta.


(Natalia Osipova e Ivan Vasiliev. Retirado do The Guardian.)


A
estrofe de seis versos, se escrita em arte maior (versos de 8 até 12 sílabas), é chamada de sexteto, ao passo que, se escrita em redondilhas, é chamada de sextilha. Não se pode confundir com a sextina, poema inteiramente díspar e consideravelmente mais complexo, desenvolvido por Arnault Daniel no século XIII. A sextilha é muito usada por cordelistas (p.ex. nos abecês ou nas pelejas), geralmente no esquema rímico ABABCC, comumente corroborado pelo sexteto. Alguns dizem que dele surgiu a oitava rima; outros que, da oitava rima de Ariosto, ele surgiu, na pena do lendário Sá de Miranda. E há quem aponte a gênese do soneto nesse tipo de poema, se considerarmos que os tercetos deste são um sexteto. Enfim.

O fato é que mais uma vez retorno à peça Romeu e Julieta, traduzindo agora o sexteto (pois em pentâmetros, pois no esquema rímico ABABCC) que Páris declama diante do túmulo de Julieta, apenas confirmando a predominância e utilização lírica que a peça empreende.

Um pequeno retrospecto: Romeu e Julieta é, como todos sabem, a história de um amor impossível. No entanto, o impossível deste amor à priori se dá apenas na unidade de Romeu e de Julieta; o amor que outras personagens sentem ou poderiam sentir pelos protagonistas (p.ex. Rosalina com Romeu) não é, necessariamente, também impossível.

Páris, deste modo, fidalgo pomposo e galhardo, é um pretendente à mão de Julieta que, conforme o costume da época (só da época?), fora prometido de sua mão pelos pais de Julieta, os Capuletos. Como, porém, o embuste do veneno falso que a faria aparentar estar morta (créditos: Frei Laurêncio) fora executado há um certo tempo, Páris vai até o túmulo de sua amada prestar obséquias amorosas, espargir seu leito de flores etc (pois pensava, como todos menos o Frei Laurêncio pensavam, que ela havia morrido).

E vai acompanhado de seu Pajem, exprimindo um cuidado no mínimo ambíguo em relação à sua presença naquele local: ele diz "stand aloof", fique longe, para seu Pajem, e diz também: "Holding thine ear close to the hollow ground", isto é, "Pondo teu ouvido perto do chão oco", para que o pajem ouvisse caso alguém se aproximasse.

Uma questão boa de ser feita é: para que tantos cuidados? Era alguma convenção da época que o noivo (pois Julieta aceitara o noivado no ato anterior) não visitasse o túmulo de sua noiva?

Essa o Globo Repórter pula. Pois, sendo ou não sendo, ou sendo um sei lá, o mínimo que podemos extrair é: se o amor de Romeu e Julieta é impossível, não é de se pressupor que o amor de Páris e Julieta também tenha se tornado impossível? Ou, melhor: "tornado"? Ele não foi sempre, e a tal ponto que Julieta prefere a morte do que se casar a Páris (cf. "O, bid me leap, rather than marry Paris", ato IV, cena II, e versos subsequentes)? Será que o insuflamento, ou antes, o destilamento (cf. verso 4) de um amor impossível na alma de Páris o fez tentar expressar tudo que sentia, seguindo os conselhos do senhor Capuleto no I ato, cena II: "But woo her, gentle Paris, get her heart"? 

Páris é, conforme observa a crítica, aquele camarada dono de uma retórica clássica, rígida, estéril, que consegue expressar seu amor apenas conforme os livros e os poetas da época o retratavam, no que a descrição da senhora Capuleto no I ato, cena III, é corretíssima: "Read o'er the volume of young Paris' face" (e versos subsequentes). O mesmo podemos dizer do Romeu do primeiro ato, que se vale de complexos jogos antitéticos que iam bem ao estilo da época, num prenúncio do barroco: "Why, then, O brawling love! O loving hate!" (ato I, cena I; mas notar que o estilo de Romeu, ainda assim, é mais apurado, instável e apaixonado).

A diferença é que Romeu, a partir do segundo soneto da peça, na última cena do primeiro ato (ver minha tradução para maiores informações), ganha uma elocução mais natural e apta a exprimir seu amor em toda a sua força e pujança: "It is my lady, O, it is my love! / O, that she knew she were!" (ato II, cena I). O mesmo parece ocorrer com Páris apenas na cena da "morte" de Julieta, onde enuncia falas revestidas de um patético estarrecedor: "Beguiled, divorced, wronged, spited, slain!" (ato IV, cena IV, e versos subsequentes).

E, mesmo naquele que deveria ser o momento mais solene de sua existência na terra, Páris, ao render homenagens fúnebres a Julieta, não consegue alcançar a plenitude da expressão de Romeu, talvez porque a diferença entre os amores de ambos não se localize na sua possibilidade real, mas sim na sua possibilidade virtual: ou seja, na dimensão do "assim poderá ou poderia ser"; ou, em outras palavras, observando que, se Julieta não morresse, ela se casaria legal e civilmente com Páris, ao passo que Romeu jamais se casaria assim (isto é, desconsiderando o casamento clandestino dos protagonistas no II ato).

E mesmo este sexteto de Páris, de indubitável beleza própria, é posteriormente suplantado pelo monólogo de Romeu no túmulo de Julieta na mesma cena, de enorme grandiosidade e alcance inclusive maior, seja na amplidão metafórica (o sexteto de Páris possui apenas duas metáforas; cf. nota ao verso 2), seja no simples fato de que Romeu também rende homenagens a seu "rival" ao amor de Julieta: "(...) O, give me thy hand, / One writ with me in sour misfortune's book! / I'll bury thee in a triumphant grave" (ato IV, cena III; observar a ironia referente ao "misfortune's book").

O texto utilizado foi o da Arden Second Series, editado por Brian Gibbons. Para esta tradução, consultei, além das traduções de Onestaldo de Pennafort e Carlos Alberto Nunes, a tradução de Oscar Mendes e Décio Pignatari. Este último, em dodecassílabos, manteve o número de versos mas não o esquema rímico.


                               PARIS.
                                         [Paris strews the tomb with flowers]
                    Sweet flower, with flowers thy bridal bed I strew.
                    O woe! thy canopy is dust and stones
                    Which with sweet water nightly I will dew,
                    Or, wanting that, with tears distill'd by moans.
                    The obsequies that I for thee will keep
                    Nightly shall be to strew thy grave and weep.



                               PÁRIS.
                                         [Páris esparge o túmulo com flores]
                    Teu leito esparjo, doce flor, de flores.
                    Teu dossel de poeira está velado
                    E será orvalhado com minhas dores,
                    Ou, assim querendo, com o pranto insuflado.
                    As obséquias que por ti manterei
                    Serão chorar o que inda não chorei.


(1): A rubrica aparece em Q1 e não em Q2, Q3, Q4 ou F. "bridal bed", cama nupcial. Mas só isso? Traduzir assim não preserva a mesma naturalidade que "leito" possui, muito usado pra se referir a uma "bridal bed" do que a uma cama comum na linguagem corrente. A repetição do termo "flower", de importância secundária, foi, no entanto, acentuado em minha leitura por, por sua vez, acentuar o gesto de "espargir" (a escolha do verbo, ao invés do comum "espalhar", corrobora com a solenidade da cena) como se os vocábulos também estivessem sendo espargidos. É o que ocorre com "Sweet", que aparecerá no segundo verso, criando mais um conectivo, além do rímico, entre ambos (mas que tivemos de suprimir). Sobre o sentido desse verso, cf. Hamlet, ato V, cena I, fala de Gertrudes espargindo o túmulo de Ofélia: "Sweets to the sweet: farewell!"

(2): O sexteto de Páris é feito de basicamente duas metáforas ligadas ao espargir-se da sepultura da amada e ao chorá-la. A dualidade entre "dust-stones" do original corresponde, desse modo, e de forma bem nítida, a pranto-flores. No entanto, conforme o leitor observará na nota ao verso seguinte, minha tendência foi a de, na hora de escolher entre qual expressão verter (pois tais balanços são necessários na hora de traduzir fôrmas fixas), dar preferência a "chorar" do que a "espargir", visto que é esta primeira imagem que mais se enriquece metaforicamente ao longo do sexteto (p.ex. a comparação ao orvalho).

(3): A referência ao "nightly", que se repete no último verso, foi suprimida, o que é um pesar, o mesmo pesar d'eu ter suprimido o "Sweet". A referência, no entanto, ao "dew", foi preservada, o que é fundamental, visto que é a imagem mais bela do sexteto inteiro.

(4): "wanting that" do original estabelece uma comunicação entre Páris com Julieta que será mais tarde abissalmente intensificada por Romeu.

(6): O original diz: "Todas as noites serão para espargir tua sepultura e chorar". Suprimi a referência às flores, por já ter sido contemplada anteriormente, dando ênfase ao choro e à ideia (eternal) da elocução, ligada ao verso 3.

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