Outra canção do Bobo de Rei Lear.


(David Bradley como Bobo e Brian Cox como Lear. Retirado do The Guardian.)


A
personagem Bobo da peça Rei Lear é comumente vista como a consciência de Lear. É uma excelente análise, que explica inclusive o porquê desta personagem simplesmente desaparecer depois de algum tempo, justamente naquele tempo onde Lear ganha a consciência-não-consciência de seus atos. Consciência essa que recita esta profética canção aqui traduzida, de contextos obscura e zombadamente dignos de nota, conforme tentarei pontuar.

Em Rei Lear, ao contrário de em Macbeth, praticamente inexistem monólogos, e os que existem comumente se utilizam da rima (cf. o de Edgar no ato III, cena VI). Mas isso não quer dizer que as personagens não empreendam movimentos de conhecimento próprio: o caráter introspectivo em Rei Lear não é visto como uma vantagem, como seria para Macbeth ou Hamlet, mas sim como uma verdadeira maldição, pois que o ser humano nesta peça busca integrar-se à realidade até perceber que a realidade é cruel e, por isso mesmo, fechada em si mesma. Os grupos em Rei Lear são fechados; nem mesmo o mal se deixa alastrar. O movimento de introspecção de Macbeth, onde até mesmo um casal de vilões se distancia ao extremo (cf. a fala de Macbeth após a morte de sua esposa: "She should have died hereafter; / There would have been a time for such a word."), é o movimento básico em Rei Lear, onde clãs são engendrados e o que era uma união tácita (cf. ato I, cena I, de Goneril para Regan: "Pray you let us hit together") se transforma em predação caótica, ou, como diz Gloucester no ato III, cena III: "There is division betwixt the dukes, and a worse matter than that".

As canções, principalmente as empreendidas pelo Bobo, posteriormente também por Edgar, ao contrário do que aparentemente querem denotar, são momentos de grande lucidez e avaliação da realidade das coisas, mesmo que estejam velados por um espesso manto de jocosidade e aparente despretensão (no caso de Edgar, falsa loucura, de raízes que apontam para a de Hamlet). O leitor que desejar observar como outras canções se conectam com o contexto da peça pode ler as outras canções que traduzi.

O clima caótico desta canção do Bobo é uma das muitas previsões catastróficas que percorrem a peça, onde as personagens tentam interpretar os astros (ato I, cena II: "We have seen the best of our time"), ou a natureza (o começo de ato III, cena II), querendo com isso um indício não exatamente do futuro, mas um indício ou compreensão menos massacrante da existência e do presente que os cerca (o fato de comumente serem catastróficas denota a postura defensável da obra). O que a difere das outras, além de ser escrita por aquele que é por excelência o espírito-de-porco na peça (e talvez no cânone shakespeariano), é o seu tom sério e verdadeiramente sentencioso, ao mesmo tempo sátira e condenação dos tempos presentes.

Mas, se as previsões do futuro em Rei Lear, conforme eu disse, ganham aos poucos o movimento de escapatória do mundo real, das coisas físicas (pois que todas as personagens, no final da peça, estão presas em si mesmas e tentando sair de tudo o que os cerca), poderíamos dizer o mesmo sobre o Bobo? É notório que depois desta canção o Bobo proclame que sua fala um dia será dita por Merlin, posto que ele vive antes de seu tempo: "This prophecy Merlin shall make; for I live before his time." E, mais uma vez é bom dizer, logo logo o Bobo vai desaparecer da peça.

Assim sendo, a ironia a reger a profecia aqui traduzida é a ironia não de um aparente estado atual das coisas (que não deve ser tomado na sua literariedade, mas sim no seu clima caótico ou nas indicações faceiras, como a do "poor knight"), mas de falar de um estado atual que apenas será realmente realizado (atualizado) no futuro. Ou apenas dito no futuro? Ou os dois? Ou qual a diferença entre o criar-se a profecia e o não criá-la, se as profecias são produto de seu tempo?

O mundo que o Bobo proclama é o mundo da "great confusion" do reino de Albion, ainda vindouro mas sempre pairando por sobre os homens (não confundir com o Albion de William Blake, ainda que esta correlação resulte em boas análises). É o mundo que precede o tempo remoto onde a humanidade retorna ao nomadismo (entenda-se: individualização máxima) e anda apenas com seus próprios pés, a sociedade tendo sido rompida pela enorme anarquia generalizada a que o mundo se submeterá, destruindo todas as bases e fundamentos que os homens ao longo dos tempos erigiram para que a realidade das coisas, o mundo tangível, fosse suportável: a igreja, por exemplo, no primeiro verso é corrompida pelos padres falastrões, ao passo que no décimo já está tão corrompida que até mesmo pessoas devassas a constituem.

E este momento de lucidez, de enorme pessimismo, onde a sabedoria oracular do Bobo traduz e ao mesmo tempo decodifica os anseios de seus semelhantes em buscar no idílio, ou num futuro que não exista ou num passado que fora por seu construidor deturpado (p.ex. o de Lear), como um anseio inútil, um outro idílio que se isente da vida, é a sabedoria que vê a "great confusion" como decorrente apenas da máquina humana, máquina que por sua vez enxerga na fuga da realidade a única forma de se manter e poder ao menos sorrir neste massacrante amplexo chamado vida.

"This cold night will turn us all to fools and madmen", é o que o Bobo diz no ato III, cena IV. "When we are born, we cry that we are come / To this great stage of fools (...)", é o que Lear diz no ato IV, cena VI. O que estas frases exprimem, quando juntas, é o que o erro trágico de Rei Lear tornou indecifrável para seus componentes; é o que faz o erro trágico transformar um homem que no começo da cena desafiava os céus: "(...) here I stand, your slave, / A poor, infirm, weak, and despis'd old man" para um homem que exclama: "My wits begin to turn." E talvez seja isto que este mesmo homem, ao dizer "Poor fool and knave, I have one part in my heart / That's sorry yet for thee.", queira exprimir, pois tamanha lucidez é a lucidez de "Find out their enemies now": isto é, a lucidez de ver o mundo que nós, seres humanos, no martírio de nossa fantasia, não logramos enxergar.

Warburton possui uma análise admirável desta passagem, segundo a qual os versos 1 ao 4 falariam do estado atual das coisas enquanto o 5º até o 10º falariam de condições utópicas (talvez seja isto que tenha norteado a pontuação de Foakes, em detrimento da de Muir, que adiciona ponto-e-vírgula no final dos versos de 1 a 10). Diz também que o 11º e o 12º deveriam ser postos depois do 4º, o que possui sua coerência. Esta canção possui um tom zombeteiro, uma espécie de paródia ao Chaucer da Chaucer's Prophecie: "When faith faylith in Priest'is sawes, / And lordes hestes are holde for lawes, / And robberie is holde purchace, / And letcherie is holde solace; / Then shall the lond of Albion / Be brought to great confusion."

Utilizei-me de versos de doze sílabas com cesura na seis para que o sentido do verso fosse transposto com clareza e integridade (verso hoje em dia muito usado para se verter Shakespeare). O mesmo metro foi utilizado por Millôr Fernandes. O resto está pontuado nas notas.

O texto utilizado foi o da Arden Third Series, editado por R. A. Foakes. Consultei também a da Arden Second Series, comentada por Kenneth Muir (a qual julgamos mais sensata em algumas passagens, como nos versos 5-6). E consultei todas as traduções, exceto a de Aíla Gomes de Ferreira.


                               FOOL.
                    When priests are more in word than matter,
                    When brewers mar their malt with water,
                    When nobles are their tailors' tutors,
                    No heretics burn'd, but wenches' suitors;
                    When every case in law is right
                    No squire in debt nor no poor knight;
                    When slanders do not live in tongues,
                    Nor cutpurses come not to throngs,
                    When usurers tell their gold i' the field,
                    And bawds and whores do churches build,
                              Then shall the realm of Albion
                              Come to great confusion:
                    Then comes the time, who lives to see't,
                    That going shall be us'd with feet.



                               BOBO.
                    Quando os padres não sabem fazer, só falar,
                    Quando em água o tonel de cerveja se tornar,
                    Quando os nobres se tornam mestres dos bordados,
                    Não se queimam hereges, mas homens assanhados;
                    Quando qualquer caso de lei está correto,
                    Sem escudeiros devendo, sem lordes sem teto;
                    Quando não vivem mais da língua os caluniosos,
                    Nem vão às multidões os homens perigosos,
                    Quando os usurários esbanjam sua riqueza,
                    E os canalhas e as putas constroem a igreja,
                              Então de Albion a catedral
                              Virá pro grande bacanal:
                    Então virá o tempo, e quem viver verá,
                    Que, para andar, apenas os pés usará. 


(2): Existe um trocadilho em "mar-malt" no original, convertido em tonel-tornar.

(3): "tailor", alfaiate. Empreendi uma leve deturpação.

(4): "wenches", mulheres de vida baixa, na linguagem coloquial arcaica. Verti no masculino, mantendo a oralidade com o "assanhados".

(6): Para suprir as necessidades métricas, "lordes" em minha tradução se embasa na Chaucer Prophecie.

(8): "cutpurses", ladrões especializados em roubos de algibeiras. Os bate-carteira que roubaram, domingo passado, sua identidade com aquela foto que havia ficado boa.

(9): Atenuação do original, que demonstra mais claramente a forma como os "usurers" mostram seu dinheiro: "i' the field", isto é, no meio do público, da rua.

(10): A adição do artigo "a" antes de "igreja" estabelece um vínculo mais específico com a instituição antes que com a construção, numa forma de manter a rima.

(12): Se no verso 10 houve um aumento da expressão, neste também houve. Mas o leitor, dadas as premissas anteriores e o tom jocoso do Bobo, em especial a do verso 10, não pensaria outra coisa que não num bacanal.

Comentários