Três canções do Bobo de Rei Lear.


(Ian McKellen como Lear e Sylvester McCoy como Bobo. RSC Shakespeare, 2008.)


O
texto utilizado para as três traduções foi a da Arden Second Series, editada por Kenneth Muir.


                    Fools had ne'er less wit in a year;
                    For wise men are grown foppish,
                    And know not how their wits to wear,
                    Their manners are so apish.

                    Bobos perdem o talento em um ano
                    Pois os sábios crescem bobões
                    E, sem um talento profano,
                    Macaqueiam!, macacões.


N
ota ao texto: A ideia principal da cantiga é a de que os homens sábios, por estarem cada vez mais idiotas, ficam macaqueando os bobos por não possuírem um talento inerente pra comédia, sendo que, por tal motivo, acabarão desvalorizando o talento dos bobos. Ou, conforme explica Johnson, "Nunca antes houve um tempo em que os bobos estivessem menos em conta do que agora, e a razão é que eles nunca foram tão pouco procurados como hoje, pois que os homens sábios ocupam seu lugar." A canção se localiza no ato I, cena IV, com o bobo se referindo principalmente ao ato de Lear de ter repartido sua coroa entre suas filhas Goneril e Regan: "(...) thou [i.e. Lear] hadst little wit in thy bald crown when thou gav'st thy golden crown away". Anteriormente, ele parece chamar Lear de bobo também, logo após o final da canção "That lord that counsell'd thee" (mais especificamente no final: "The other found out there"), no que responde: "All thy other titles thou hast given away; that thou art wast born with [i.e. ao título de bobo]." Por fim, a interpretação zombeteira que o Bobo faz do "altogheter fool" de Kent traz uma passagem de interesse para o entendimento desta passagem: "No, faith, lords and great men will not let me; if I had a monopoly out, they would have part on't (...)".

N
ota à tradução: O rumo primário foi manter a correspondência "foppish - appish", o que acabou me levando a intensificar o sentido do original para aproveitar e usar o nosso "Macaqueando", a meu ver imperdível. "Talento profano" é o talento para ser um Bobo.


                    Fathers that wear rags
                    Do make their children blind;
                    But fathers that bear bags
                    Shall see their children kind.
                    Fortune, that arrant whore,
                    Ne'er turns the key to th' poor.

                    Pais que só vestem farrapos
                    Deixam suas crianças cegas;
                    Mas quem de grana enche os trapos
                    Chama as crianças de colegas.
                    A sorte, essa puta imunda,
                    Só aos pobres mostra a bunda.


N
ota ao texto: Esta canção não está presente em Q. Está localizada no ato II, cena IV, antes do célebre trocadilho entre "dolours-dollars": "But for all this thou shalt have as many dolours for thy daughters as thou canst tell in a year."

N
ota à tradução: Talvez exista um desvio de sentido aqui, principalmente no último verso: mas a ideia principal foi mantida, visto que "nunca abrir a porta aos pobres", "nunca dar a chave aos pobres", em português mais corrente e cômico, conforme o espírito do Bobo, e mais claro e mais fluente, é a mesma coisa que mostrar a bunda para os pobres. Encher de grana os trapos é uma imagem algo ambígua, mas que preserva, ainda que com uma pequena perda de sentido, confesso, a ideia de encher os bolsos que o original diz (em outras palavras, empobrece, literalmente, a imagem de um pai rico, ao dizer que ele enche de grana os trapos, e não os bolsos): e, no caso do verso consequente, "chamar as crianças de colegas" pode se referir tanto a chamar qualquer criança de colega como a chamar as suas crianças de colegas, conforme creio que o leitor irá observar se ter em mente que o segundo verso, paralelo a este, indicou.


                    Swithold footed thrice the old;
                    He met the nightmare, and her nine-fold;
                              Bid her alight,
                              And her troth plight,
                    And aroint thee, witch, aroint thee!

                    São Vital rodou três vezes o pantanal;
                    Topou com a diaba e seu bando habitual;
                              Mandou pousar
                              E o mal encerrar
                    E some daqui, bruaca, some daqui!


N
ota ao texto: Esta canção é dita por Edgar, como poor Tom, no ato III, cena IV, logo após a entrada de Gloucester com uma tocha. Lembrar-se de que, na mesma fala, Edgar compara Gloucester ao foul Flibbertigibbet, responsável por, entre outros, a catarata ("squinies the eye") ou o emboloramento do trigo jovem ("mildews the white wheat"), todas características de grande ironia acerca do destino de Gloucester. Kittredge explica a canção como um encantamento onde, ao se contar como São Vital expulsou a bruxa, consequentemente se expulsa a bruxa. "Swithold" é conforme F; "swithald" em Q; "St. Withold" em Theobald, que também contextualiza "old" para "wold". "alight" é "a-light" em F e "O light" em Q. Kittredge lê o "nine-fold" como "nine offsprings", ou seja, filhos, prole da "nightmare". Capell apenas como "nine imps or familiars", nove demônios.

N
ota à tradução: Um dos objetivos aqui foi o de encontrar uma rima interna entre "Swithold" e "old" do primeiro verso ("Old" é o mesmo que "wold", descampado). Poeticamente, pantanal (geralmente se utiliza "paul") é um sinônimo de terra erma e inabitada: mas, neste caso, incorri num abrasileiramento da ideia do verso mantido no conseguinte, com o "diaba" (outra razão para a utilização de "diaba" é o da aliteração em B que o verso adquiriria, deslocando o efeito aliterativo do primeiro verso), e no último, com "bruaca" como sinônimo de bruxa e forma de escape métrica. De modo geral, não julgo que muito da letra do original, transcriando a canção para nossa língua e nossa terra, bastando para isto observar que a maioria dos tradutores traduz o "old" de Shakespeare simplesmente como "mundo".

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